Os adjetivos não ganham guerras

"Eles querem substituir a população europeia por muçulmanos e africanos." Um terço da sala aplaude, um terço fica calado e o outro terço contorce-se nas cadeiras com se tivessem todos sido acometidos por cólicas renais. Ele é Alexander Tomsky, um intelectual e comentador político checo; "eles" é a elite política europeia. E a cena passa-se em Krynica-Zdroj, uma vila termal nos confins da Polónia com o aspeto bucólico de Sintra na década de 1980, onde se organiza um fórum económico que reúne mais de duas mil pessoas em três dias, há já 28 anos.

Sentado na plateia, um deputado social-democrata alemão do Bundestag levanta-se e diz "eu não fico aqui nem mais um minuto". Compreende-se a reação. O problema é que se não se ouvir o que dizem não se lhes consegue responder com factos em vez de adjetivos. E é isso que tem acontecido.

Alexander Tomsky é uma personagem improvável. Filho de pai judeu checo de origem alemã salvo da Gestapo pela Igreja Católica, e de mãe polaca, cresceu na Checoslováquia, estudou na London School of Economics, fartou-se de escrever sobre a importância da religião católica na resistência ao comunismo, emprestou livros e Margaret Thatcher para lhe dar a conhecer escritores como Vaclav Havel e já disse em entrevistas que o Estado-Nação era um resquício do século XIX, fundado em ideias nacionalistas de sociedades homogéneas que não lhe eram caras. Dificilmente se pode descrever como um provinciano boçal. E, no entanto, agora diz isto.

Perceber a história de Tomsky interessa, ainda sim, menos do que tentar perceber o que se passa naquela parte da Europa. Nos vários painéis fala-se de economia, emprego, desenvolvimento regional, relações com a Ucrânia, mas também da importância da Igreja na resistência às sucessivas ocupações e domínios, em particular o soviético; fala-se da primeira guerra mundial como um facto que ainda deixa marcas nas relações entre aqueles povos, em particular com a Alemanha. E lamenta-se o momento em que Jean-Claude Juncker resolveu participar na inauguração de uma estátua a Karl Marx, em Trier, a celebrar o bicentenário do seu nascimento porque por aqui Marx é igual a comunismo e demasiada gente sofreu para se fazer de conta que é apenas um filósofo que se celebra ou um ícone pop que se curte.

Para responder ao que Tomsky diz e ao terço que aplaude é preciso muito mais do que chamar-lhe neofascista ou acabar com a hora de inverno e o roaming. É preciso trazer números sobre a imigração, para mostrar que quase não há refugiados nem imigrantes a ficar nestes países (e, de resto, o que chega por ano a todo o continente não é nem meio por cento do total da população europeia, o que dificilmente se pode descrever como uma invasão. O problema é gerir o fluxo, não a quantidade). É preciso mostrar que a União Europeia foi a livre circulação de polacos para o Reino Unido, de húngaros para França, de checos para a Alemanha e por aí fora. Que um país como a Eslováquia nunca negociaria um acordo comercial com o Japão mais favorável se negociasse bilateralmente porque lhe falta peso e importância. E que é por estarem na Europa, e na NATO, que os russos não ousam fazer aos bálticos o que fizeram à Ucrânia. É preciso dizer isto, em vez de lhes chamar ignorantes e virar as costas cheio de orgulho e preconceitos.

Consultor em assuntos europeus

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.