Fauna, Flora, Moita e Flores

E o Partido Comunista?" Homens de boina, curvados conspiratoriamente sobre mesas. Fado. Fumo de cigarro. "É um partido sem rumo desde que o Gonçalves foi desterrado para o Tarrafal." "Oh... Dizem o mesmo dos anarco-sindicalistas." Mais fumo. Imenso fumo. "Ninguém se mexe! Isto é uma RUSGA!"
Francisco Moita Flores regressou novamente ao passado, com a sua máquina de escrever, a sua máquina de nevoeiro, e a sua fiel colecção de polícias. Em O Atentado (quatro episódios já disponíveis na RTP Play), os polícias não investigam o Estripador de Lisboa, nem elites pedófilas, mas sim o atentado falhado contra Salazar em 1937. Porque se trata de uma "ficção histórica", o primeiro episódio não tem outro remédio senão abrir com um baile. A cerimónia em questão é um casamento. A noiva, filha de um polícia, dança com o seu marido, que também é polícia. São observados por vários polícias, que conversam com outros polícias sobre assuntos policiais. Tratam-se invariavelmente pelo nome completo e dizem uns aos outros aquilo que invariavelmente já sabem. "Caríssimo Baleizão do Passo... então não deixou saudades lá na Polícia Política". "Não... Mandei-os à fava e regressei à PSP." Noutro canto da sala, um polícia de uma das polícias critica a política de convites a polícias de outras polícias. "Tens aqui uma bela festa", diz ao pai da noiva, "mas podias não ter convidado o Baleizão do Passo. Como sabes, ele não deixou saudades". Como sabemos, a maioria das personagens introduz as suas observações com a frase "como sabes"; como também não esquecemos, o resto das personagens responde com frases que começam por "não te esqueças": "Não se esqueça, chefe, que o Agostinho Lourenço é o homem mais poderoso do país, a seguir ao Professor Salazar."

O pai da noiva interrompe a música para fazer um discurso. O discurso consiste inteiramente na apresentação das personagens principais, com nome e cargo. "Quero agradecer a presença do Comandante X, do Sargento Y, e também do Capitão Z, que, apesar de ser da outra polícia, é um amigo de longa data." Todas as grandes figuras do regime estão presentes, menos uma. Como dramatizar essa ausência através de diálogo? "Se tivesse outra fillha para casar, podia convidar o Professor Oliveira Salazar." "O... o Presidente do Conselho?" "Sim. Ele não iria recusar um convite de um chefe de brigada da sua polícia preferida." A única dúvida de recursos humanos ainda por esclarecer ao fim de cinco minutos é a que polícia pertence o polícia que acabou de casar com a filha do polícia. "O que é que faz o noivo?" "É nosso colega" "Nosso colega... ponto e vírgula. Ele não trabalha na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. "Pois não. Trabalha na Polícia de Investigação Criminal."

Entretanto, noutro lado da cidade, alguns gatunos tentam aproveitar o facto de todos os polícias do país estarem reunidos no mesmo salão de baile para roubarem automóveis. Um deles hesita. Outro motiva-o. "Tem de ser, Vaz. Sem estes carros, não vamos conseguir matar o Salazar!" Apesar desta motivação, o golpe corre mal. Um homem leva um tiro e reage da única maneira possível: "Ai! Deste-me um tiro, cabrão!" Os planos dos bandidos estão constantemente a correr mal, o que os obriga a encontrarem-se em sucessivos cafés, para conspirarem à meia-luz enquanto incendeiam centenas de cigarros. "A Rua Barbosa du Bocage... a missa de Domingo... a bomba!" Alguém com a alcunha Espeto de Pau é preso por polícias, que o espancam com um espeto de pau. Os conspiradores tentam a todo o custo encontrar outros conspiradores que ainda não saibam o que aconteceu ao Espeto de Pau, mas sem sucesso. "Prenderam o Espeto de Pau!" "Sim, eu sei."

O resto da série vai demonstrando que, ao contrário dos bandidos, nem todos os polícias são iguais. Há polícias maus e há polícias bons. Os polícias bons (da PIC) reúnem-se todos no mesmo gabinete. Um deles tem como principal característica ser esperto ("Tu és esperto", informa-o o superior hierárquico). Outro chama-se Arengas, e é engatatão: a primeira cena mostra-o a engatar uma engatada, engatatonamente. O terceiro membro da brigada está permanentemente sentado atrás de uma secretária, e a sua única função é não perceber o que se passa, fazendo perguntas específicas que permitam aos colegas explicar o guião em voz alta ou, em alternativa, não explicar o guião em voz alta ("Não vou discutir este caso contigo. Primeiro, porque não tenho tempo. Segundo, porque tenho mais que fazer"). Os polícias maus (da PVDE) passam o tempo a interrogar prisioneiros recorrendo à técnica oficial dos polícias em séries sobre polícias: gritar muito alto com enunciação perfeita. "FALAS OU NÃO FALAS?" "Eu não sei nada, juro!" "FALA! FALA! ONDE É QUE ESTÁ A BOMBA?" Os oficiais superiores falam mais baixo, devido à pressão exercida nas cordas vocais pela força com que franzem a testa e cerram os maxilares. António Pedro Cerdeira reproduz o seu velho truque assimétrico de franzir apenas um lado da testa, enquanto cerra o maxilar do lado oposto, simbolizando assim a dualidade do Homem. "Obriga-o a falar. Depressa." Fazendo as contas ao número de episódios, este "depressa" deve acontecer lá para o fim do mês. Apesar de toda a urgência artificial, se há coisa que nunca falta aos polícias nas séries sobre polícias é tempo.

O mesmo não se pode dizer do planeta, segundo o mais recente documentário de David Attenborough (A Life on Our Planet, Netflix). "Tenho 93 anos", garante Attenborough, embora a afirmação careça de fact-checking (é possível que tenha pelo menos o dobro), "e este é o meu testemunho". As primeiras imagens mostram a cidade de Pripyat: ruínas invadidas por vegetação, edifícios desabitados percorridos por lobos, muitos deles com o número regulamentar de patas. A ideia é partir de um exemplo do potencial humano para o acidente catastrófico e aumentar a escala. O documentário serve também como semi-retrospectiva da sua carreira e dos acidentes de outra ordem (históricos, cronológicos) que a possibilitaram. Imagens de arquivo mostram um jovem Attenborough - talvez com apenas 140 anos - a abraçar gorilas ou a percorrer as florestas da Papua-Nova Guiné. Muitas destas possibilidades de aventura, sugere, estão hoje esgotadas ou pelo menos drasticamente abreviadas. Contadores numéricos (população mundial, níveis de CO2 na atmosfera, etc.) estabelecem uma espécie de cronómetro informal para contar o tempo que resta às espécies ameaçadas, à floresta tropical, à moita, às flores. "Não nos limitámos a arruinar o planeta. Estamos a destruí-lo." Depois de uma carreira a fazer de polícia bom do mundo natural, Attenborough parece agora empenhado em assumir o papel de polícia mau. Uma ou outra sequência evoca o tipo de esplendor visual em que se especializou (um pássaro que parece ter sido construído pela Lockheed Martin e ter um nome de código, e que emite um som semelhante ao disco dos telefones analógicos quando se marcava o 9); outras recuperam o seu talento para a montagem antropomorfizante: um comentário sobre a deflorestação no Bornéu é ilustrado com um orangotango a trepar a uma árvore solitária e raquítica, antes de observar a clareira à sua volta. A cara do orangotango é automaticamente dotada de emoções tão humanas como se falasse com a voz de Canto e Castro, ou estivesse a ser interrogado por polícias: "Eu não sei nada, juro."

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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