As boas notícias que chegaram de Bruxelas, com a Comissão a propor nova dilatação dos prazos para cumprir o Pacto de Estabilidade e a dar a Portugal mais um balão de oxigénio para aguentar até ter de cumprir as metas de redução de dívida e défice, não tiveram tempo de nos aquecer a alma. Num verão de receitas recorde e apesar da enorme crise de mão-de-obra que atravessamos, não só a taxa de desemprego subiu e a criação de emprego esfriou para o pior registo desde que a pandemia congelou a economia como a perda nos salários da maioria dos portugueses foi a mais violenta desde os tempos da troika..São sinais de que a realidade é tão imune a otimismos irritantes e contabilizações infantis de previsões que se cumpriram, quanto o BCE aos avisos de governantes de que não é boa ideia subir juros para travar uma inflação que vai além dos 10% - e continua a piorar. Não há motivos para celebrar, nem é tempo de mascarar a dura verdade com ilusões que apenas servem desejos de popularidade - que será inevitavelmente sol de pouca dura..Não, não estamos melhor do que outros, não estamos lançados para crescimentos acima da média e não vamos passar ao lado das grandes dificuldades. Os portugueses estão a viver pior, bem pior do que muitos dos parceiros europeus, e tudo vai ficar ainda mais difícil antes de começar a aliviar. É esta a verdade e devia estar a ser comunicada por quem tem responsabilidade - mesmo que a custo de votos, como já houve quem tivesse coragem de fazer..O embate desta crise está longe de começar a abrandar e insistir em vender uma verdade alternativa não é solução que sirva ninguém, antes alimenta a instabilidade social e a revolta de quem vê evaporar-se o que conseguiu conquistar. Nenhum Estado tem meios para aplacar a violência da pancada que está a vitimar as famílias - por muito que se rape o tacho às empresas com taxas extraordinárias carregadas em cima de uma carga fiscal já abusiva e impeditiva de maior ambição, investimento e crescimento. Sobretudo quando as razões da crise estão para lá de qualquer possível controlo nacional, há pouco a fazer senão informar com clareza e antecipar o que aí vem, de forma que as pessoas possam preparar-se e não se vejam amanhã, como outros já hoje, obrigadas a pedir ajuda porque o que ganham não chega sequer para comer. Mesmo com o cheque de 125 euros descontado..P.S. A relevância do Diário de Notícias foi uma vez mais reconhecida pelos leitores. É a 13.ª vez que este jornal centenário recebe o "selo dourado" na Gala Superbrands. Aos leitores, o nosso profundo agradecimento pela confiança e reconhecimento do trabalho que desenvolvemos diariamente.