O caos divino de Orson Welles, na Netflix

Amar-me-ão Quando Eu Morrer, documentário de Morgan Neville, chegou à Netflix a par do derradeiro projeto de Orson Welles, O Outro Lado do Vento. Entre imagens de arquivo e entrevistas, conta-se a história da atribulada rodagem deste filme.

"Importa não sermos tímidos com a câmara, importa violentarmo-la, forçá-la no seu último reduto, porque uma câmara é uma cidade mecânica. O que conta é a poesia." As palavras - talvez demasiado robustas para o ar do nosso tempo - são de Orson Welles e traduzem bem a ferocidade da sua postura como realizador (que de resto não era muito diferente do génio do ator). Sobretudo neste contexto preciso, confirmam aquilo que O Outro Lado do Vento, filme mito agora recuperado pela plataforma Netflix num verdadeiro gesto histórico, faz descobrir nos enérgicos e vertiginosos movimentos de câmara: era preciso filmar à desfilada, sem perder a poesia das formas, como se fosse a última vez. E foi.

Surgindo como um complemento para se conhecer as atribulações da rodagem de O Outro Lado do Vento, o documentário Amar-me-ão Quando eu Morrer, de Morgan Neville, apresenta-se como uma síntese de curiosidades em torno da vontade quixotesca que moveu Orson Welles. Ao longo da década de 1970, tentou terminar o filme. Foram várias as situações públicas em que o cineasta "maldito" de Hollywood falou deste objeto estranho, envolvendo-o numa aura que, para todos os efeitos, se confirma num trabalho assombroso que pode agora ser visto, povoado de rostos da indústria cinematográfica e protagonizado por um "Hemingway do cinema" - o cineasta veterano interpretado por John Huston, que nesta história regressa do exílio... Qualquer semelhança com Welles é pura coincidência. E quem o diz é o próprio, que não gostava de ser analisado em termos biográficos através dos seus filmes.

Peter Bogdanovich é outro dos nomes importantes do elenco. Ele que estava nos inícios da sua carreira de realizador e que toma a palavra neste Amar-me-ão Quando eu Morrer para falar da louca experiência improvisada em O Outro Lado do Vento, mas também da relação com o gigante Welles: se este lhe pedia para gravar uma cena na estrada do aeroporto de Los Angeles, antes de Bogdanovich partir para a rodagem do seu filme A Última Sessão (1971), no Texas, era preciso fazer a vontade ao mestre. Da mesma maneira, atrás da câmara, o diretor de fotografia Gary Graver foi um fiel companheiro nesta derradeira aventura, e Oja Kodar, a amante croata de Welles, encarnou na sua nudez - hipnotizante diante da lente - o desejo do realizador, numa expressão de liberdade nunca antes vista na sua obra. Ela é o filme dentro do filme.

Movendo-se entre os arquivos de imagem que mostram o cineasta americano em todo o fulgor da sua presença (aquela gargalhada...) e, entre outras, as vozes de quem com ele trabalhou nas diferentes rodagens de O Outro Lado do Vento, o documentário de Neville procura explorar a própria mitologia de Welles, a sua personalidade insubmissa dentro da indústria de Hollywood, a visão demasiado deslocada daqueles tempos, e por isso tão extraordinariamente avassaladora no nosso presente. Com uma linguagem lúdica (nem sempre adequada no tom), reflete-se aqui sobre a carreira de um homem eternamente condenado pelos produtores, envolvido na teia dos frágeis financiamentos dos seus projetos e irritado com a sombra constante da obra-prima que realizou quando tinha 25 anos: O Mundo a Seus Pés. Precisamente, Welles tinha o mundo a seus pés, em teoria, mas não tinha dinheiro para trabalhar com a independência que merecia.

De onde vem o título Amar-me-ão Quando Eu Morrer? Não é mais do que uma frase atribuída ao próprio Orson Welles, sem certezas de que este a pronunciou. Mas não deixa de carregar um simbolismo tremendo: é a amargura e a ironia de uma só vez. De facto, é difícil não o amar a cada vibração da sua voz impregnada de caos divino.

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