Democracia americana

Quando se vai a Quincy, cidadezinha do Massachusetts próxima de Boston, e se visitam as casas modestas onde nasceram John Adams e John Quincy Adams é inevitável não se sentir um profundo respeito pela democracia americana. Pai e filho, foram o segundo e o sexto presidente dos Estados Unidos, e, ao contrário de outros pais fundadores, não fecharam os olhos à escravatura, pois nenhum deles teve escravos e John Quincy até se notabilizou por ter defendido em tribunal, já depois de deixar a Casa Branca, um grupo de africanos que se revoltou num barco, caso de que Steven Spielberg nos relembrou através do filme Amistad.

Cheia de gente brilhante, ao longo de muitas gerações, a família Adams também se destacou desde o início pelo protagonismo das mulheres, a começar por Abigail, mulher de John e mãe de John Quincy, cujas cartas trocadas com o marido, quando este trabalhava com George Washington, Thomas Jefferson e James Madison na construção dos fundamentos constitucionais do país, revelam uma intelectual a aconselhar o político. Também Louisa, nascida em Inglaterra e mulher de John Quincy, se destacou pela determinação em acompanhar o marido enquanto este foi diplomata, fosse na Prússia, fosse na Rússia, e até um dia enviou os móveis para Portugal, pois Lisboa chegou a ser o posto designado até ser trocado por Berlim. Também as cartas que sobreviveram mostram uma mulher inteligente, atenta ao mundo, embora menos fascinada pela política do que a sogra. Ambas mereceram que historiadores lhes fizessem biografias.

Com o exemplo dos Adams destrói-se o preconceito fácil contra os primórdios da república americana, de que era fruto de gente racista e machista, por ter sido preciso a Guerra Civil de 1861-1865 para acabar com a escravatura e o final da Primeira Guerra Mundial para, nas presidenciais de 1920, as mulheres votarem pela primeira vez. Não se pode julgar a democracia americana proclamada com a Declaração de Independência de 1776 pelas contradições entre a ambição do texto e a realidade da época. A escravatura sobreviveu à Revolução Francesa várias décadas e a Inglaterra liberal, apesar de séculos a construir a democracia, teve de esperar até 1918 para dar finalmente direito de voto às mulheres.

Quase a celebrar 250 anos, os Estados Unidos podem pois com toda a naturalidade orgulhar-se da sua tradição democrática, de serem um país onde um jornal fez um dia o presidente demitir-se, de serem um país desde há muito refúgio para perseguidos no mundo, fossem os puritanos oprimidos na Europa das guerras de religião, os judeus alemães em fuga de Hitler ou os vietnamitas receosos da tomada de Saigão pelos comunistas.

Democracia com defeitos, desde o início e como todas, aliás, mas democracia sem dúvida sempre, os Estados Unidos organizam agora uma cimeira das democracias que tem gerado críticas, sobretudo pelo questionável critério de seleção dos países convidados. Seria fácil olhar para o exemplo do que se passou durante a Guerra Fria, quando o valor estratégico dos Açores levou a que Portugal, embora ditadura, estivesse entre os fundadores da NATO, e dizer que se trata no fundo de uma cimeira dos amigos dos Estados Unidos, mas algumas ausências de peso tornam difícil dizer até isso.

Assim, ignoremos as duras críticas da China e da Rússia à iniciativa americana, também façamos orelhas moucas aos mesquinhos sinais de satisfação ou irritação entre convidados e não convidados, igualmente deixemos de lado a certeza de que as relações internacionais existem até entre regimes de natureza distinta, e esperemos para ver que resultados saem da ideia que para já marca o primeiro ano da presidência de Joe Biden.

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