Cosmologia e descoberta de exoplanetas ganham Nobel da Física 2019

James Peebles, Michel Mayor e Didier Queloz são os laureados. O português Nuno Santos, que trabalhou durante anos em Genebra com Michel Mayor, diz que "é um reconhecimento mais do que merecido".

O norte-americano James Peebles, professor e investigador das universidades de Manitoba e de Princeton, desenvolveu trabalho pioneiro em cosmologia, na área da radiação cósmica de fundo. Os suíços Michel Mayor e Didier Queloz são distinguidos pelos seus trabalhos que levaram à descoberta do primeiro exoplaneta em 1995. Três premiados que eram há muito credores do Nobel.

James Peebles, de 84 anos, foi pioneiro na investigação sobre a radiação cósmica de fundo, aquela "luz fóssil" que vem dos primórdios do universo.

Foi o seu trabalho teórico, que desenvolveu e aprofundou a partir da década de 1960, que forneceu a base sólida que permitiu fazer as investigações e observações que desembocaram nos primeiros "retratos" da radiação cósmica de fundo.

Michel Mayor, de 77 anos, da Universidade de Genebra, e Didier Queloz, 53, professor e investigador na mesma universidade e também na de Cambridge, no Reino Unido, foram, por seu turno, os pioneiros na descoberta de exoplanetas, quando descobriram o primeiro, em outubro de 1995: um planeta em órbita da estrela 51 Pegasi.

Com isso, abriram a porta a todo um novo ramo da astrofísica que se cifra hoje na descoberta de mais de quatro mil destes planetas na órbita de estrelas distantes na Via Láctea.

Em 2018 foram também descobertos os primeiros exoplanetas fora da nossa galáxia, um passo mais na demanda de outros mundos no universo.

Para o astrofísico português Nuno Cardoso Santos, que chegou ao Observatório Astronómico de Genebra em 1998, dois anos e meio depois da descoberta, feita ali, do primeiro exoplaneta, para fazer o doutoramento com Michel Mayor naquela mesma área, este é um prémio "mais do que merecido, pela pessoa que é Michel Mayor e pela sua excelência científica", como afirmou ao DN.

Trata-se de "um reconhecimento que já tardava", diz o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e da Universidade do Porto. "Dez anos depois da descoberta do primeiro exoplaneta, esta área de investigação já era um dos tópicos mais quentes em astrofísica", justifica.

O reconhecimento que agora chega com atribuição aos dois astrofísicos pioneiros do mais importante de todos os prémios científicos é, assim, "um reconhecimento justo", já que a descoberta de Michel Mayor "abriu a porta a um novo domínio científico", sublinha o investigador português.

Nuno Santos fez o doutoramento nesta área sob a orientação de Michel Mayor na Universidade de Genebra, e regressou depois a Portugal, onde criou uma equipa de investigação sobre exoplanetas que é atualmente uma das mais competitivas a nível internacional, com inúmeras descobertas realizadas e a participação em projetos internacionais na vanguarda do conhecimento nesta área. "Mantive sempre a colaboração com ele durante todos estes anos", explica.

"Já tentei ligar-lhe, para lhe dar os parabéns, mas ainda não consegui", conta. "É um dia com muitas solicitações", ri-se. "Vou continuar a tentar."

"Uma nova compreensão do universo"

"O Prémio Nobel deste ano distingue uma nova compreensão da estrutura do universo e da sua história, e a primeira descoberta de um planeta na órbita de uma estrela do tipo solar e fora do nosso sistema solar", justificou a Academia sueca no anúncio da sua escolha.

Em comunicado divulgado após o anúncio da Academia sueca, a Universidade de Genebra afirma que Mayor e Queloz reagiram ao prémio dizendo que a sua descoberta "é a mais importante" da sua carreira e que receber o Nobel por ela "é simplesmente extraordinário".

Os dois astrofísicos lembram que quando anunciaram a descoberta, há 24 anos, "ninguém sabia se os exoplanetas existiam ou não", porque muitos "astrónomos ilustres os procuravam há anos, sem sucesso".

Mayor e Queloz romperam com essa impossibilidade. A descoberta do primeiro exoplaneta foi um marco revolucionário para a astrofísica, sublinha o comité Nobel, explicando que "estranhos novos mundos continuam a ser descobertos, com uma incrível diversidade de tamanhos, formas e órbitas", o que desafia "as nossas ideias preconcebidas sobre os sistemas planetários" e está a "obrigar os cientistas a rever as suas teorias sobre os processos físicos que estão na origem da formação dos planetas".

Os laureados deste ano "transformaram as nossas ideias sobre o cosmos", resume o comité Nobel. "Enquanto as descobertas teóricas de James Peebles contribuíram para a nossa compreensão de como o universo evoluiu depois do Big Bang, as de Michel Mayor e Didier Queloz permitiram explorar a nossa vizinhança cósmica, em busca de planetas desconhecidos", e com isso "mudaram para sempre a nossas conceções do mundo", justificou a Academia sueca.

Os laureados vão partilhar a verba do prémio, um total de nove milhões de coroas suecas (mais de 829 mil euros)

Temporada Nobel 2019

A temporada Nobel arrancou nesta semana, na segunda-feira, com o anúncio dos laureados na Medicina - os americanos William G. Kaelin e Gregg Semenza, e o britânico Peter Ratcliffe - distinguidos pelos seus trabalhos sobre os mecanismos moleculares e genéticos que determinam a regulação dos níveis de oxigénio nas células do organismo.

Os novos laureados na Física sucedem a Arthur Ashkin, Gérard Mourou e Donna Strickland, distinguidos no ano passado pelos seus trabalhos sobre a física do laser, e que revolucionaram aquela tecnologia e a forma como hoje é usada.

O americano Arthur Ashkin desenvolveu uma pinça ótica a laser para aplicação em sistemas biológicos, o que tornou possível agarrar partículas, átomos e moléculas, e o francês Gérard Mourou e a canadiana Donna Strickland desenvolveram impulsos de laser muito curtos e intensos, que tornaram possíveis as cirurgias laser nos olhos.

Donna Strickland tornou-se em 2018 a primeira mulher a ganhar o prémio nos últimos 55 anos, numa área em que só duas mulheres tinham vencido anteriormente: Maria Goeppert Mayer, em 1963, e Marie Curie no início do século XX.

A semana Nobel prossegue nesta quarta-feira com o anúncio dos laureados na área da Química. Seguir-se-á, na quinta-feira, a revelação dos dois premiados deste ano para a Literatura - a Academia sueca decidiu assim depois de em 2018 não ter atribuído prémio nesta área, na sequência de um escândalo que levou à demissão do próprio júri setorial.

O anúncio do vencedor, ou vencedores, do Nobel da Paz acontece nesta sexta-feira, ficando o da Economia para 14 de outubro.

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