Juros de Itália já são quase o dobro dos de Portugal

A taxa das obrigações portuguesas mantém-se abaixo de 2%. Mas agências ainda dão ratings mais altos a Itália.

O governo italiano entrou em confronto com a Comissão Europeia por causa dos planos orçamentais. E os investidores temem cada vez mais o risco de deter obrigações italianas. No prazo a dez anos, os juros exigidos a Itália superaram nesta segunda-feira a fasquia de 3,6%. É quase o dobro da taxa da dívida portuguesa. Apesar das subidas dos últimos dias, o juro nacional a dez anos resiste abaixo da fasquia de 2%, negociando em 1,966% segundo dados da Reuters.

"As taxas de Portugal e Espanha aparentam estar imunes à instabilidade recente em Itália", observam os analistas da Capital Economics, numa nota a investidores a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso. Contrariamente ao que aconteceu durante os tempos da crise de dívida, as obrigações portuguesas têm mostrado resistência ao acentuar do nervosismo dos investidores em relação a Itália.

Os especialistas da Allianz Global Investors explicaram numa análise recente que "as obrigações dos países da periferia têm sido suportadas pela política monetária expansionista do Banco Central Europeu". Mas adiantaram que apesar desse apoio, e de Portugal e Espanha estarem a demonstrar imunidade à incerteza italiana, os investidores deviam ter cautela com os "riscos políticos".

A gestora de ativos não descarta que o mercado venha a privilegiar ativos mais seguros, como dívida alemã, em vez de obrigações de países que podem ter maior risco. Para Portugal, o teste ao apetite dos investidores pode chegar na quarta-feira, quando o Tesouro tentar obter entre 750 milhões e 1000 milhões de euros de financiamento em dívida a dez anos.

Para já, não têm existido problemas. Portugal está quase a fechar o plano de financiamento. E, contrariamente a Itália, conseguiu em 2018 os juros mais baixos de sempre para satisfazer as necessidades financeiras. Até agosto, o custo médio da nova dívida era de 1,9%, segundo os dados mais recentes da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP).

Portugal com ratings mais baixos

Apesar de Portugal ser cada vez mais premiado em relação a Itália pelos investidores, o mesmo não acontece com as agências de rating. Entre as três grandes entidades de notação financeira, apenas a Fitch tem uma visão mais positiva para Portugal do que para o país transalpino. Esta agência avalia os dois Estados em BBB (segundo nível acima de lixo). Mas dá uma perspetiva estável a Portugal e negativa a Itália, o que indicia o risco de uma descida da notação.

Já a Moody's, a única agência que ainda avalia a República Portuguesa em lixo, dá uma nota a Itália três níveis acima da de Portugal. Isto apesar de admitir vir a descer a notação de Itália e de poder concretizar a perspetiva positiva para a dívida portuguesa na próxima sexta-feira.

Também a Standard & Poor's avalia a dívida italiana um nível acima das obrigações portuguesas. Mas os analistas das agências de rating têm mostrado preocupações sobre o rumo das contas públicas italianas, admitindo que possam ter de vir a baixar a notação.

A Moody"s, por exemplo, tem avisado que a nota está sob vigilância negativa "devido ao risco significativo de um enfraquecimento material das contas públicas de Itália, dado os planos orçamentais do novo governo".

Governo italiano testa mercados e CE

Os receios dos investidores e dos analistas das agências de rating sobre os planos do novo governo italiano aparentam estar a concretizar-se. A coligação entre os eurocéticos da Liga e do Movimento 5 Estrelas apresentou um plano orçamental que não agrada a Bruxelas. A meta para o défice é de 2,4%, algo que é visto pela Comissão Europeia como um desvio significativo face ao acordado e como uma "preocupação séria".

Do lado de Roma, a resposta foi dura. Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e líder da Liga, disse que o presidente da Comissão Europeia era um "inimigo da Europa". Defendeu que "as políticas de austeridade dos últimos anos aumentaram a dívida italiana e empobreceram o país". Já Luigi Di Maio, o outro vice-primeiro-ministro do governo italiano, vaticinou um "terramoto" antiausteridade nas eleições europeias agendadas para maio do próximo ano.

Os analistas dizem que essa posição de Roma levará a uma pressão cada vez maior dos mercados financeiros. Os especialistas da Capital Economics avisam que o mais provável é que "as taxas da dívida italiana subam ainda mais no próximo ano, à medida que as estimativas de crescimento provem estar incorretas e forcem um défice mais elevado do que o antecipado pelo governo".

Também os economistas do Deutsche Bank consideram que o plano orçamental italiano tem "elementos questionáveis em que os mercados devem focar a sua atenção nas próximas semanas e meses".

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