Premium 'Dickinson'. "A esperança é aquela coisa com drena"

A fórmula não é nova, mas é executada com um iconoclasmo, falta de solenidade e desprendimento irresponsável que remete menos para iterações recentes do que para (comparações qualitativas à parte) antecedentes literários.

A Apple fez 43 anos, a idade própria para uma crise de meia-idade - e porque a forma e conteúdo das crises de meia-idade dependem tanto dos meios como do timing certo, essa pode ser a explicação mais plausível. A maioria das crises de meia-idade são definidas pelas circunstâncias: uma pessoa limita-se a visitar um salão de tatuagens, ou a comprar uma guitarra acústica. Orçamentos maiores permitem crises de meia-idade com melhores valores de produção (viagens à Índia, aquisição de Ferraris). As possibilidades para uma multinacional com dinheiro em caixa equiparável ao PIB português são, portanto, imensas - e a Apple reagiu da melhor maneira: com uma entrada espalhafatosa nas guerras de streaming.

As guerras de streaming é o pomposo nome dado às escaramuças entre vários serviços de subscrição de conteúdos, cujas "vitórias" são definidas pela capacidade de aguentar muito tempo sem vestígio de lucros. A este mundo, a Apple trouxe agora um singelo envelope de seis mil milhões de euros. O serviço foi lançado no início do mês (duas semanas antes de a Disney lançar a sua própria plataforma semelhante), com uma oferta de quatro séries originais. O grosso do orçamento parece ter ido para The Morning Show (com Jennifer Aniston e Steve Carell), mas a jóia da coroa, até ver, é Dickinson, uma série de dez episódios sobre a adolescência da poetisa Emily Dickinson.

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