O excecionalismo de Golda Meir

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Seja por este ano se assinalar os 50 anos da Guerra do Yom Kippur, seja por estrear um filme biográfico sobre Golda Meir, tenho andado a ler uma biografia da antiga primeira-ministra israelita. A sua história de vida é extraordinária, começando como uma criança pobre no Império Russo, depois sendo uma adolescente judia imigrante nos Estados Unidos, depois ainda transformando-se numa pioneira do sionismo, o projeto político idealizado pelo judeu austríaco Theodor Herzl que em 1948 culminou com a criação de Israel, já depois do Holocausto e com o apoio, na ONU, tanto da União Soviética, como dos Estados Unidos. Meir foi uma das signatárias da Declaração de Independência e, antes de chefiar o governo israelita, entre 1969 e 1974, serviu como ministra da Habitação e depois dos Negócios Estrangeiros.

Escrita por Meron Medzini, um académico que foi porta-voz de Meir quando esta era primeira-ministra, a biografia revela o lado político da israelita, mas não deixa de mostrar outros aspetos importantes da personalidade, como a recusa em aceitar ainda muito jovem, e na América, um matrimónio combinado pelos pais ou, já em Israel, o fracasso de um casamento com um marido menos dotado e, sobretudo, menos combativo, e a dificuldade de ser mãe e ter de o compatibilizar com tarefas que exigiam trabalho até altas horas e constantes viagens ao estrangeiro. Meir era também uma mulher entre homens nos primeiros governos de Israel, mas com David Ben-Gurion a confiar nela como em poucos para o ajudar a construir um país no meio da hostilidade árabe e dos jogos de interesses das grandes potências.

Refiro aqui Meir, porque ontem se celebrou o Dia da Mulher e, felizmente, são hoje muitas as protagonistas femininas da política, ainda que continuem em minoria. Mesmo com a saída de cena recente da chanceler alemã Angela Merkel, estamos longe desse 1979 em que a britânica Margaret Thatcher se tornou a primeira primeira-ministra da Europa. Hoje 15 países têm mulheres chefes de governo ou de Estado (não contando rainhas), incluindo França e Itália, que têm primeiras-ministras, ou a Índia, que tem uma presidente. Mesmo os Estados Unidos contam atualmente com a primeira vice-presidente da sua história, Kamala Harris, depois de em 2016 Hillary Clinton ter estado muito perto de ser presidente.

Num depoimento para o DN exatamente sobre o Dia da Mulher, a embaixadora da Finlândia em Portugal, Satu Suikkari-Kleven, relembrava que o seu país foi em 1907 o primeiro no mundo a eleger deputadas. E foi o início de um longo processo de construção da igualdade de género que faz com que hoje a Finlândia tenha uma primeira-ministra e há uns anos até tenha chegado a ter, em simultâneo, uma primeira-ministra e uma presidente.

Nisto de pioneirismo das mulheres na política não posso deixar de referir Sirimavo Bandaranaike, do Sri Lanka, eleita em 1960 primeira-ministra, ou Isabel Perón, que em 1974 se tornou presidente da Argentina. Foram as primeiras chefe de governo e presidente do mundo. Mas Bandaranaike pertencia a uma dinastia política e Perón também, assim como, mais tarde, figuras de peso como a indiana Indira Gandhi, a paquistanesa Benazir Bhutto ou a filipina Corazón Aquino. E por isso destaco de novo o excecionalismo de Meir.

A israelita foi primeira-ministra sem ser filha ou viúva de políticos. Tal como o foram Thatcher, Merkel ou, agora, a finlandesa Sanna Marin. Sim, Meir foi a primeira mulher no mundo a chegar à liderança de um governo sem pertencer a uma dessas dinastias que marcam muito a vida política até de democracias como os Estados Unidos e o Japão. Tal como a islandesa Vigdís Finnbogadóttir foi em 1980 a primeira presidente eleita no mundo (Isabel Perón tinha sucedido ao famosíssimo marido, Juan Perón). O filme sobre Golda Meir, sobre as qualidades e defeitos de uma mulher de bravura, é, pois, para não perder. Nem por homens, nem por mulheres.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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