Premium Crise de Calendário


A meio do terceiro episódio de Boneca Russa (Netflix), Nadia, a protagonista, ausenta-se da sua festa de aniversário, explicando que tem um assunto importante a resolver. "Acho que um gajo que me cortou o cabelo ontem é capaz de ter morrido amanhã, e não sei como funcionam as mortes de amanhã quando voltar a ser ontem." É um dos prazeres secundários das histórias sobre viagens no tempo: a possibilidade de ouvir estes actos de semanticídio, em que os tempos verbais de frases inocentes são esfrangalhados pela cronologia.

Boneca Russa pertence a uma subcategoria específica do género, a anomalia temporal em circuito fechado. Embora com dúzias de precedentes nos primórdios da ficção científica, o modelo canónico foi estabelecido em 1973, num conto do Richard Lupoff chamado 12:01 PM, em que um executivo de Nova Iorque é condenado a reviver eternamente a mesma hora de almoço, e popularizado pelo filme Groundhog Day, em que a escala é ampliada para um dia inteiro. A fórmula tem elasticidade suficiente para gerar tensos thrillers em que se procura salvar o mundo (como em Edge of Tomorrow) mas também comédias românticas, em que os objectivos mais modestos são criar momentos perfeitos através de retroengenharia, e levar alguém para a cama ou para o altar. (O protagonista também costuma ser um homem e não será acidental que uma das perguntas feitas por Nadia no primeiro episódio seja "as mulheres também têm crises de meia-idade?").

A fantasia de repetir o passado na posse da informação privilegiada adquirida no presente deve remontar às cavernas e às primeiras insónias (sendo a insónia o estado optimizado para a recapitulação e edição de erros cometidos), e, como qualquer fantasia, esconde impulsos algo embaraçosos: a ideia de nunca cometer erros, e de poder saber tudo sem ter de aprender nada é uma fantasia bastante de omnisciência - e todas as fantasias de omnisciência são simultaneamente sobre poder e sobre preguiça. Talvez por reconhecer este lamentável estado de coisas, a ficção moderna instrumentalizou a fórmula para elaborar estes curiosos purgatórios com curva de aprendizagem - a versão ética de um circuito de manutenção: o protagonista tem de aprender, de melhorar, de "crescer" enquanto pessoa, e assim passar o teste moral que lhe permita voltar ao calendário regular.

Boneca Russa não se desvia de todos os elementos associados à fórmula nem, num sentido mais lato, das expectativas associadas ao complexo industrial televisivo. Tal como Maniac (outra série recente da Netflix com a qual tem vários pontos de contacto, mas enormes diferenças de qualidade na execução), exibe a mesma devoção às narrativas terapêuticas e a mesma relutância em deixar qualquer subtexto congestionado ou mal esclarecido. A escritora Marilynne Robinson, no ensaio "Hearing Silence", chama a este tipo de histórias o "pequeno mito mesquinho do nosso tempo" e define-as mais ou menos assim: na nossa infância sofremos um qualquer dano ou ferida psíquica; todos os infortúnios posteriores estruturam o seu significado como consequência desse incidente; a nossa tarefa de vida consiste agora em descobrir e baptizar o mal que sofremos. É uma mitologia que determina a peculiar propensão americana para administrar a tristeza de formas elaboradamente sistematizadas, e também a tendência de muita ficção contemporânea (televisiva e literária) para transformar a patologia num gesto narrativo e cada história numa espécie de policial psiquiátrico, em que o objectivo é identificar o culpado: o trauma fundador que causou os problemas todos.

Há muita investigação especulativa em Boneca Russa, muita escavação de passados recalcados, e muito "crescimento pessoal", mas é tudo feito de forma um pouco esquemática e pouco insistente, e os maiores triunfos são muito mais tradicionais: pequenas infusões de originalidade à margem das suas intenções mais solenes.

Onde outras séries sentem um pavor tão grande de empregar estereótipos que acabam por reduzir as suas personagens a um somatório de excentricidades, Boneca Russa consegue ancorar as idiossincrasias pessoais de uma forma que as tornaria interessantes mesmo emancipadas da premissa da história. Uma das chaves será a quase invisível comédia de costumes que decorre à ilharga do enredo principal, e que se alimenta de um contexto social e cultural específico e da sua respectiva ecologia: a cena "boémia" (neste caso a nova-iorquina, mas cujas propriedades são mais ou menos universais), registando-a com generosidade emocional, mas sem ceder às tentações da nostalgia, e às suas perversões, lugares-comuns e becos sem saída.

A outra é a fabulosa interpretação de Natasha Lyonne, no papel de Nadia. Uma presença magnética, truculenta, sardónica e irrequieta, sempre a coçar a cabeça, ou a acender um cigarro, ou a cambalear tão inclinada para a frente que os ombros chegam ao destino meio segundo antes do resto - e com uma voz que parece um inventário palpável de maços de tabaco. Cada tique é instantaneamente plausível como hábito, e demonstra ser possível compatibilizar o timing cómico perfeito com uma fidelidade mínima às convenções do naturalismo. É uma originalidade que convence não através do esforço, mas da confiança, e que lhe permite executar com sucesso as duas funções que a série lhe impõe: aprender como funcionam as memórias de ontem quando voltar a ser amanhã, e deixar boas memórias a quem a viu pelo caminho.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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