O desafio de Rui Rio

Rui Rio é hoje decisivo para impedir um problema muito grave para o centro-direita e para o próprio equilíbrio do nosso sistema político-partidário. É bom que esteja à altura da responsabilidade.

Já aqui o escrevi várias vezes e todos os dias fica mais claro que há de facto uma ação concertada, pensada e bem financiada para que setores muito à direita tomem conta do PSD ou, não sendo bem-sucedidos, o destruam. As contestações internas às lideranças no PSD são todo um departamento da história dos partidos políticos em Portugal, mas esta tem batido todos os recordes. E, claro, uma campanha de constante desgaste feita internamente deixa pouco espaço para a afirmação externa do partido. É muito difícil pôr grupos de reflexão a trabalhar em propostas - a guerrilha interna tem sempre uma capacidade destrutiva que chega a todo o lado - e ainda mais complicado é apresentá-las aos portugueses, já que o ruído criado com as entrevistas de declarados e disfarçados opositores internos e as intrigas internas prontamente difundidas pela comunicação social (o que é, claro está, normal) torna impossível ouvir o que quer que seja. Também convém lembrar que Rui Rio é um daqueles líderes que não tiveram direito a estado de graça. Não é o único caso na história da nossa democracia, mas deve ser o único que no dia da eleição como presidente do PSD teve direito a um artigo num importante semanário em que se discorria sobre quem lhe sucederia.

Seja como for, a responsabilidade por hoje o PSD não ser visto como um possível vencedor das próximas legislativas só pode ser assacada à sua liderança. É assim, é da vida. Sendo muito difícil combater uma oposição interna que se aloja no principal palco da democracia, o Parlamento, o facto é que Rui Rio nem a conseguiu, até hoje, silenciar ou pacificar, nem é transparente para os portugueses qual é afinal a mensagem alternativa do PSD.

O maior problema, porém, tem sido o facto de o PSD não estar a conseguir contrariar o ataque que o PS tem feito ao centro político. Não há sondagem que não mostre que o PS cresce muito e está à beira de uma maioria absoluta e que os partidos à esquerda do PS não crescem, logo PSD e CDS (menos) estão a perder votos para os socialistas (o partido de Santana não será relevante nestas contas).

A questão é que, de facto, o PS está a conseguir ocupar o centro político. Dito de outra forma, o PS governou à direita e disse que era de esquerda: o cocktail perfeito da política à portuguesa, onde fica bem dizer-se que se é de esquerda mas que se gosta de coisas percecionadas como de direita: austeridade, contas certas, empreendedorismo com fartura, nada de exageros em legislação laboral, mais impostos indiretos do que diretos (coisa mais à direita não há), respeito estrito pelos compromissos europeus, pragmatismo nas relações internacionais. Queira-se ou não, é esta a ideia de que o tal eleitorado do centro acha que foi o governo PS.

O PS governou à direita e disse que era de esquerda: o cocktail perfeito da política à portuguesa, onde fica bem dizer-se que se é de esquerda mas que se gosta de coisas percecionadas como de direita.

A onda de greves que estamos a viver é um bom exemplo do sucesso do governo na conquista do centro. Os grevistas aparecem como gente que, com as suas exigências, quer desequilibrar as contas e voltar aos tempos da tripa-forra; e o governo surge como moderado.

Parece assim evidente que cai por terra o argumento, tantas vezes gritado, de que o centro está a desaparecer ou que, como dizem alguns, seria preciso virar à direita o discurso para poder crescer eleitoralmente. Ora, foi exatamente o centro que Rui Rio afirmou estar apostado em conquistar.

O desafio, no fundo, de Rio é mostrar que não se pode ser quem não se é. Ou seja, que a conduta do PS não passa de uma tática para a conquista da maioria absoluta que, uma vez conseguida, vai fazer voltar todos os tiques do passado. Mas para isso não se pode cometer erros do género de apoiar as exigências dos professores apenas porque o governo não as quer satisfazer ou passar sinais errados sobre o Serviço Nacional de Saúde. Rio cai na armadilha da psicologia invertida: como lhe dizem que está colado ao PS, critica políticas que fazem parte do património político do PSD.

O que se exige a Rui Rio é que não se desvie do que prometeu, recentrar o partido, e que não receie agitar as bandeiras que sempre foram do PSD apenas porque o PS agora as quer fazer suas. O eleitorado tem memória, é preciso avivá-la.

É fundamental que o eleitorado do centro-direita e, sobretudo, os militantes do PSD tenham noção de que uma debacle eleitoral de Rui Rio terá consequências devastadoras para o partido e para o próprio sistema político-partidário. A conquista definitiva do centro pelo PS - e logo fazer que os sociais-democratas tenham um péssimo resultado - pode fazer que o PSD deixe de ser um partido de poder ou condená-lo mesmo ao desaparecimento. A ideia de que o PSD ou um partido que surja das suas cinzas pode ambicionar a ser governo através de uma plataforma marcadamente de direita (a história da federação das direitas é apenas um fraco disfarce, diga-se, para essa agenda) é um erro que se pagará de forma caríssima: levará ainda mais depressa à sua extinção. Pior, sem um PSD virado ao centro, estará aberta a porta a movimentos populistas muito à direita que apenas aguardam uma oportunidade para aparecer.

Rui Rio é, neste momento, decisivo para impedir um problema muito grave para o centro-direita e para o próprio equilíbrio do nosso sistema político-partidário. É bom que esteja à altura da responsabilidade.

Nós por cá vamos andando, em França nem por isso

Portugal vive uma intensa onda de greves. Enfermeiros, técnicos de diagnóstico, juízes, enfermeiros, estivadores, professores, funcionários dos transportes, etc. Os trabalhadores desses setores estão descontentes, os sindicatos que os representam exprimem as suas reivindicações e negoceiam em seu nome. Há partidos que, concordando com a luta, amplificam os protestos.

Em França, os cidadãos vieram para a rua. Numa primeira fase protestando contra os aumentos nos combustíveis, depois contra tudo e mais alguma coisa. A coisa foi identificada pelos psicólogos políticos de curso de correspondência como uma luta contra o aumento de custo de vida, da desigualdade e da globalização e por tudo o que esteja na agenda desses não certificados intérpretes. Nenhum partido, nenhum sindicato, nenhuma organização intermédia estiveram envolvidos nas manifestações e não há ninguém com que se possa negociar ou que sequer possa explicar as razões do protesto. Resumindo: a democracia representativa em Portugal tem problemas mas funciona, em França está em falência.

Deus salve a Inglaterra

A democracia inglesa tem sido um exemplo para o mundo. Sólida, com instituições fortes, sempre preocupada em que os cidadãos se sintam realmente representados. O referendo (esse instrumento antidemocrático) ao Brexitresultou de uma luta pelo poder dentro do Partido Conservador. Uma refrega em que David Cameron decidiu pôr em causa o futuro de uma imensa nação e do projeto europeu para se afirmar no seu partido. Agora Jeremy Corbyn prepara-se para chumbar o acordo menos mau que Theresa May e a Europa alcançaram para que possa convocar as eleições que pensa poder ganhar, não se importando com o facto de produzir uma crise de contornos difíceis de calcular mas necessariamente desastrosos.

O problema é sempre o mesmo: por muito sólidas que sejam as instituições, estão sempre expostas ao que os homens e as mulheres fizerem delas, e a história tem-nos ensinado que a capacidade destruidora dos humanos consegue destruir em pouco tempo edifícios que levaram centenas de anos a construir.

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