Premium  "A família real portuguesa seria das mais viajadas"

Entrevista a Miguel Ribeiro Pedras, autor de Viajar com os Reis de Portugal (A Esfera dos Livros). São seis séculos de jornadas ao estrangeiro da família real portuguesa, com o ponto de partida a ser a visita de D. Dinis e da rainha Santa Isabel aos reinos de Castela e de Aragão.

As viagens de D. Pedro pela Europa do século XV são as mais surpreendentes da história da família real portuguesa. Percebe-se a lógica do itinerário?
Sim. Ainda antes de sair de Portugal, D. Pedro oferece os seus préstimos ao imperador Segismundo do Sacro Império Romano-Germânico. Esta decisão surge, ao que parece, por D. Pedro se sentir o filho preterido, uma vez que o rei D. João I dava mostras de maior afeto e consideração para com o infante D. Henrique. Outra teoria é a de que o infante D. Pedro terá matado um soldado e, por isso, foi expulso do país por três anos. A Fverdade é que o primeiro destino escolhido por D. Pedro no seu itinerário é a Inglaterra, onde visita a sua família materna. Daí parte para o continente Europeu com diferentes objetivos. É provável que na Flandres tenha sugerido ao duque da Borgonha que este se casasse com a sua irmã, a infanta Isabel, algo que veio a acontecer. Um convite para um casamento leva-o até à cidade de Colónia e daí desce até Viena, onde se encontra finalmente com o imperador Segismundo, integrando as suas tropas que lutavam na Roménia, para onde D. Pedro viaja. Já no retorno a Portugal, a passagem por Itália, mais especificamente por Roma, é importante por conseguir a autorização papal para que o seu irmão, D. Duarte, pudesse suceder ao seu pai com o devido reconhecimento da Igreja. Já no reino de Aragão, D. Pedro trata do seu casamento com a filha do conde de Urgel, pretendente ao trono de Aragão. Assim, para além de servir como "embaixador" da nova família reinante em Portugal, e conquistar alguma amizade junto das outras cortes europeias, parece que D. Pedro, por onde passou, conseguiu sempre cumprir um objetivo, fosse este benéfico para si ou para o reino de Portugal.

A ida de Afonso V a França incluiu uma armada que transportava o rei. Viajar assim teria de ser dispendioso. É a explicação para poucas do género terem ocorrido?
Sim, de facto. Tal como hoje, viajar era dispendioso, por isso, viajava quem podia e quando podia. Desta forma, as elites seriam as que tinham mais facilidade em fazê-lo, para além, claro, das pessoas cuja profissão dependia da viagem, como um mercador. Seria, assim, de supor que o rei, estando no topo da hierarquia social, fosse o mais viajado e, em boa verdade, durante a Idade Média e o Renascimento, os monarcas portugueses viajavam bastante, mas sempre dentro das suas fronteiras, para controlarem os seus territórios. Era a itinerância necessária para governar o reino. Uma viagem como a de D. Afonso V a França era uma exceção. Mais de duas mil pessoas acompanharam o rei, seria uma pequena cidade móvel, numa jornada que se prolongou por cerca de um ano. Os gastos do rei D. Afonso V nesta aventura ultrapassaram os quatro milhões de reais, número avultado que dificilmente poderia ser gasto com regularidade em despesas que não fossem as habituais da Coroa. Foi um investimento excecional, com o intuito de conquistar a Coroa de Castela. Infelizmente, para D. Afonso, correu mal e não viu o retorno.

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