Algarvios acusam Docapesca pela maré de lixo que inundou praias em Tavira

Parte dos areais encheu-se de lixo de grandes dimensões e a empresa de exploração Docapesca é apontada como a principal responsável, depois das dragagens realizadas no final do ano passado.

Foi João Diniz, residente em Tavira, um dos primeiros a lançar o alerta. Através das suas redes sociais, o surfista e presença habitual na praia da ilha Deserta partilhou fotografias e vídeos que mostravam um areal cheio de detritos de pequena e grande dimensão. Pneus, ferros, vidros, tecidos, carrinhos de compras, artes de pesca de plástico, envolvidos em lodo, ao longo do areal que se estende entre a barra de Tavira e a praia de Cabanas. Outros moradores e algumas associações ambientais alertaram para o facto de que as dragagens feitas no rio Gilão pela Docapesca em novembro do ano passado serem responsáveis pela deposição de lixo na praia. Mas a empresa de exploração garante não haver "evidências" da sua responsabilidade.

Os trabalhos de dragagem do rio Gilão, no final do ano passado, são uma intervenção que já não era feita há 30 anos e que visava a melhoria das condições de navegabilidade e segurança do canal. Mas o efeito parece ter sido o oposto e o areal transformou-se numa maré de lixo.

"O material dragado do Gilão é composto por lodo, lixo que se foi acumulando no rio ao longo de anos, e foi considerado do tipo 1, que são areias limpas que podem ser depositadas sem tratamento no mar. Mas quem é de Tavira sabe que no fundo do rio não há areias limpas, mas lodo, e, como o dragado foi depositado a cerca de 500 metros da costa, a agitação marítima de levante trouxe-o para o areal", disse João Diniz à agência Lusa.

A situação foi também denunciada por Leonardo Diogo, presidente da Associação de Armadores e Pescadores de Tavira (APTAV), que argumenta "estar agora a acontecer o que as associações e os pescadores locais alertaram que ia acontecer, quando se aperceberam de que os dragados iriam ser depositados tão perto da costa e da barra de Tavira".

Cristóvão Norte, deputado do PSD eleito pelo círculo de Faro, após ouvir as associações locais, apresentou no Parlamento um "requerimento para ouvir a Docapesca sobre a matéria e, se necessário, a ministra do Mar", por considerar que "há indícios de más práticas que põem em causa o ambiente".

"Cabe saber se os contratos para as dragagens foram mal feitos e se permitiram depositar dragados que não eram do tipo 1, violando a lei, ou se, em alternativa, o contrato foi bem feito, a empresa não cumpriu e o Estado não fiscalizou. De qualquer forma, o Estado ou é cúmplice ou autor moral dessa catástrofe ambiental", considerou.

Já a Docapesca, numa resposta enviada à Lusa, garantiu que "não existem evidências de qualquer foco de poluição resultante das dragagens" e explicou que o "destino final dos dragados foi a deposição ao largo da praia de Cabanas-Mar, de acordo com as orientações da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e parecer positivo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)".

A empresa argumentou que todas as amostras de sedimentos recolhidas do rio e analisadas "se inseriram na classe I", que se trata de "material limpo que não apresenta qualquer risco, podendo ser depositado em meio aquático ou utilizado para alimentação de praias sem normas restritivas". Mas as imagens dos locais mostram o contrário.

Os trabalhos foram fiscalizados por um "programa de monitorização da qualidade da água" e a "recolha de amostras desde o início", sucedendo que os "resultados obtidos não evidenciavam qualquer tipo de contaminação", acrescentou a Docapesca. A mesma fonte referiu que contratou "um serviço de filmagem subaquática no local de imersão dos dragados" que concluiu haver na zona lixo residual não resultante dos trabalhos de dragagem.

Apesar da desresponsabilização sobre o assunto, no passado sábado João Diniz partilhou imagens que mostram um processo de limpeza no areal afetado, alegadamente por uma equipa da Docapesca. O algarvio não desiste de encontrar o responsável por aquilo que considera ser "um crime ambiental" e, para tal, lançou uma petição online, que tem até agora quase duas mil assinaturas. João quer que a discussão chegue à Assembleia da República.

O presidente da Câmara de Tavira admitiu à Lusa a existência de um problema de acumulação de lixo levado pelo mar, mas frisou que não está perto de qualquer zona balnear e garantiu que "se está e irá fazer tudo para recolher o que se acumular". Jorge Botelho pediu "rigor" quando se fala da zona afetada, porque "não há lixo na ilha de Tavira, nem em nenhuma zona balnear do concelho", ou um "crime ambiental", porque "não há toxicidade no que se está a recolher".

"Não quero minorar nada, porque a situação é complexa, nunca nos tinha acontecido, mas também há 30 anos que não havia dragagens", concluiu.

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