A melhor decisão 

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Há um antes e um depois de António Costa na política portuguesa. E para isso basta ter sido o primeiro-ministro que resultou da chamada geringonça: afinal, pela primeira vez no Portugal da Constituição de 1976 um chefe de Governo não era o líder do partido mais votado, algo que, apesar de tudo, vai sendo cada vez mais visto como normal na Europa, basta notar o que se passa na vizinha Espanha ou na distante Polónia; também pela primeira vez o PCP e o Bloco de Esquerda fizeram parte de uma solução de Governo, mesmo que só através do apoio parlamentar. A esquerda juntava-se para deixar para trás o legado da troika.

Esta demissão agora do homem que governa o país desde 2015 é resultado das suspeitas sobre figuras próximas, até dentro do Governo, e do próprio desconforto do primeiro-ministro ao saber que também está a ser alvo de um inquérito. E Costa esteve bem quando, garantindo nada lhe pesar na consciência, disse que se demitia para proteger a dignidade do cargo e a confiança nas instituições democráticas. Sim, as instituições têm de estar acima das pessoas, o prestígio da democracia tem de ser defendido do impacto de casos como este, dos negócios do hidrogénio e do lítio.

Diz Costa que não se recandidatará a primeiro-ministro se o Presidente da República se decidir por eleições. A Justiça tem o seu tempo e esse tempo não é o tempo eleitoral que aí poderá vir, se Marcelo Rebelo de Sousa não optar por pedir ao PS que indique um novo chefe de Governo, dada a existência de uma maioria absoluta.

Costa renuncia num momento complicado, pois a economia contraiu-se 0,2% no 3.º trimestre e o desemprego, embora ainda nos 6,5%, cresce há 11 meses. Mas momentos complicados, admita-se, foram uma constante na tal era Costa, pensemos no impacto da pandemia, também no impacto da guerra na Ucrânia. E, porém, foi sabendo lidar com os desafios, com razoável sucesso durante a pandemia, com mais dificuldades perante a inflação e aumento das taxas de juro que se seguiram à invasão russa da Ucrânia. O PS ter ganhado as legislativas de 2019 e depois as de 2022 com maioria absoluta é a prova de que o trabalho do ainda primeiro-ministro é reconhecido por grande número de portugueses. Também se diga, em abono da verdade, que na oposição, à esquerda (com o fim da geringonça) e à direita (onde o PSD tem historicamente responsabilidades únicas), ninguém foi capaz de se assumir como alternativa. Abrem-se agora novas oportunidades para todos.

Sai Costa de cena, mas o país continua, com contas certas e a dívida pública a ser reduzida. E as expectativas dos portugueses de uma boa governação também continuam. Sejamos ou não chamados às urnas, há que manter a confiança nas tais instituições democráticas, que incluem uma Justiça independente. Foram elas que nos trouxeram o desenvolvimento nos últimos 50 anos, mesmo que seja preciso fazer mais. Como houve uma era Costa, oito anos que marcaram Portugal, haverá um pós-Costa. Sejamos exigentes com quem vier, como fomos exigentes com este primeiro-ministro, que tomou uma decisão difícil, mas, o tempo assim o dirá, provavelmente a melhor decisão.

Diretor interino do Diário de Notícias

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