Exaustão de professores "a níveis mais elevados" do que nunca

Educação

Exaustão de professores "a níveis mais elevados" do que nunca

Os docentes estão à beira de um ataque de nervos e as baixas psicológicas e psiquiátricas não param de chegar.

Lá dentro, tudo jaz sem sinais de vida. Ainda não há alunos virados para a frente de um quadro nem professores diante dele. A pandemia expulsou-os das salas de aula e abriu espaço ao silêncio mais ensurdecedor da carreira de vários docentes: o vazio das escolas disputa com o caos, com adaptações em tempo recorde à tecnologia que lhes era distante, horários redobrados, o olhar mais vigilante de todos os pais e a incompreensão de outros.

Ser professor já não é o que era até aquele dia 13 de março e isso está a levar tantos ao limite. "Se já se falava em burnout, é previsível que o stress e a exaustão emocional estejam [agora] a níveis mais elevados", não hesita em dizer Filinto Lima, dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

São "inúmeras" - não sabe ao certo quantas - as solicitações de atestados psicológicos e psiquiátricos nestas últimas semanas, deixando descalças várias turmas. A Associação Nacional de Professores acredita "que existe um grave risco de aumento" nas requisições destes atestados tendo em conta os números expectáveis todos os anos.

Uma discussão para a qual os sindicatos já tinham chamado a atenção, devido ao trabalho destes profissionais, que "aumentou brutalmente". No atual contexto de pandemia, "muitos docentes estão ainda mais perto da exaustão", alertou o Sindicato de Todos os Professores.

Ensinar só com hora de partida

Muito antes de burnout ser, por si só, um tema de discussão na classe, já Paula Nunes sabia o que era ser dominada por um sentimento de tristeza e desmotivação de tal tamanho que incapacita todos os músculos da vida. Foi aos 15 anos, na flor da adolescência, que teve a sua primeira depressão. A repetição de episódios como aquele só vieram comprovar o que acabaria por ser diagnosticado há quatro anos: sofre de depressão crónica. Com o tempo e os desafios da profissão que escolheu, "tem vindo a agravar-se". Ainda mais desde que a pandemia a obrigou a transformar a forma de exercer, confessa a professora de 53 anos.

"Nos dias mais difíceis", a ideia de desistir trava-lhe o pensamento. Dá aulas ao 3.º ano do 1.º ciclo, na Maia. Começou o ensino à distância com aulas síncronas de 90 minutos sem paragem, seguindo o plano do ensino presencial. Cedo se apercebeu que a duração da aula era excessivo, impossibilitando que crianças tão jovens se mantivessem sentadas, sossegadas e atentas, em frente ao ecrã de um computador. "Uma coisa é estar com os alunos, outra é estar à distância, enquanto tudo acontece à volta deles."

Além de que os 90 minutos tornavam escasso o tempo necessário para as restantes tarefas escolares. "Damos aulas, ficamos a esclarecer dúvidas um a um, depois temos os trabalhos para corrigir", conta. Sem dar por ela, lá se foi um dia inteiro em frente ao computador, com partida de manhã bem cedo e chegada quando o Sol já se pôs. Nunca sabe quando este dia vai acabar.

Para um melhor aproveitamento do tempo, decidiu que só daria 45 minutos diários de aula. Mas o dia continua longo, muito longe dos horários previstos na lei e no seu contrato. Depois de terminada a aula com a grande maioria da turma, Paula dedica-se ao seu único aluno com deficiência, "que precisava de um apoio extra". "Nas aulas presenciais, estava junto dele e era fácil acompanhá-lo ao mesmo tempo que acompanhava os outros. Agora, não. Testámos no início, mas funcionou muito mal."

Como dizia o representante dos diretores de escolas, Filinto Lima, quando do arranque do 3.º período escolar, "os professores nunca trabalharam tanto como agora, à procura das melhores soluções". "Tivemos de aprender para ontem a lidar com tudo isto", as ferramentas digitais para o ensino, acrescenta Cláudia Souto, 51 anos, professora do ensino secundário em Monção.

As palavras saem tremidas, algumas trapaceadas pelo choro. Suspira e faz-nos adivinhar que estes não têm sido tempos fáceis para quem exerce a mesma profissão que a sua. Tal como Paula Nunes, também Cláudia pensa frequentemente em renunciar a todo o trabalho para cuidar da sua sanidade mental.

"Aqueles [alunos] que menos querem saber da escola" esconderam-se atrás dos seus ecrãs para justificar a falta de empenho.

Ambas sentiram o peso da idade na hora de tirar o computador para fora e aprender tudo do zero, para garantirem que os alunos não eram privados de nenhum material imprescindível à sua evolução escolar. Feitas as contas, confessa que esta cedência ao digital "está a ter um efeito maioritariamente positivo nos alunos". "Sou muito mãezinha a lidar com eles, mas como não posso sê-lo à distância, eles têm de se desenrascar sozinhos, obriga-os a ser mais autónomos", conta. Mas há os outros, "aqueles que menos querem saber da escola", que se "escondem atrás" dos seus ecrãs para justificar a falta de empenho.

Paula Nunes teve um problema acrescido: o facto de estar a lidar com crianças de 8 anos. Ainda que lhes chamem nativos digitais, não estavam inteiramente preparados para dominar ferramentas de aprendizagem. Tal obrigou a ainda aprendiz a procurar estar rapidamente uns passos à frente para os ajudar também.

Professores apontam a intervenção dos pais como um dos maiores motivos de stress. Ora comentam o que está a lecionar durante uma aula, ora dão as respostas aos filhos enquanto assistem à mesma, ora pedem aos educandos para a interromper com determinadas perguntas, ora exigem menos trabalhos, ora exigem mais.

Demasiado investimento "para uma resposta destas"

Ao cansaço acrescem os velhos problemas. Em outubro do ano passado, uma professora da Escola Básica e Secundária Amélia Rey Colaço, em Linda-a-Velha, foi transportada para o hospital depois de ter sido agredida à cabeçada por um aluno de 14 anos. O caso não era único. O ano que agora terminou, aliás, ficou marcado por vários outros casos de agressões: quer de alunos contra professores - como o docente pontapeado por um estudante de 12 anos e aquela que foi atacada à porta da sua escola no Porto - quer de professores contra alunos.

Os casos, que o Ministério da Educação etiquetou como residuais, motivaram manifestações sindicais em várias escolas. Entretanto, a chegada da pandemia a Portugal abafou a luta. "E não é porque o problema tenha deixado de existir", garante a professora Cláudia Souto, que relata como a tecnologia espicaçou a violência por parte de alguns alunos.

As ferramentas utilizadas entre professores e alunos vieram "abrir a porta a muita gente com falta de princípios", escondidos "cobardemente" atrás das mesmas.

"Em 26 anos de trabalho, pela primeira vez, fui insultada." As aulas corriam normalmente, em formato de videoconferência, para garantir que a matéria fluía da mesma forma para todos. Um dia, depois de ter dado por terminada a aula síncrona, Cláudia recebe um pedido para atender uma nova videochamada de um aluno. Do outro lado, ouviu ser-lhe repetido vezes sem conta o mesmo insulto, "porca". O caso seguiu para a direção e aguarda um desfecho. Mesmo numa turma problemática como aquela que descreve, um episódio como este foi uma surpresa. Não tem dúvidas de que as ferramentas utilizadas entre professores e alunos vieram "abrir a porta a muita gente com falta de princípios", escondidos "cobardemente" atrás das mesmas. "Isto é só uma oportunidade para mostrar aquilo que já lá estava", remata.

Como consequência, a professora de Português de Monção recusou-se a dar aulas por videoconferência, por segurança. "Só tenho usado o Google Classroom", tudo por escrito, conta. "Imagine o que será dar aulas, por exemplo, por WhatsApp." Os dias são passados com mais pesar, de olhar atento a cada liberdade de cada um dos seus alunos. Cláudia sente que a classe está desprotegida e pede mais intervenção do ministro da Educação, cuja postura já valeu duras críticas no Parlamento, acusado de se manter em "silêncio".

Apesar do decréscimo de queixas relacionadas com crimes em contexto escolar, entre 2013 e 2019, os dados da PSP enviados ao DN no início deste ano mostravam que as ocorrências por ameaças e injúrias aumentaram.

Mas a docente lembra que "os alunos não saem às pedras da calçada", aprendem muito do que são com os pais, também estes um problema acrescido nestes tempos. A professora Paula Nunes, da Maia, lembra que agora "ensinar é estar exposto a todos, pais e alunos", ganhando um terceiro ator mais ativo nesta relação.

Critica a postura de alguns encarregados de educação. Ora comentam o que está a lecionar durante uma aula, ora dão as respostas aos filhos enquanto assistem à mesma, ora pedem aos educandos para a interromper com determinadas perguntas, ora exigem menos trabalhos, ora exigem mais. "Tive problemas com alguns. Ouço conversas deles, enquanto dou aulas, e já ouvi insultos do outro lado, embora sem a certeza de se seria para eu ouvir", conta.

Garantem estar a um passo de desistir todos os dias. Paula Nunes confessa que só não o faz pelos seus alunos. "Se eu puser um atestado de 15 dias, nunca é posto um novo colega a dar aulas durante esse tempo. Só se eu puser um de um mês", esclarece. Qualquer uma das opções seria prejudicial para a turma, ou porque seriam obrigados a lidar com um novo professo ou porque ficariam estagnados na matéria lecionada. "E depois se voltasse? Não seria pior? Porque eu vou voltar para o mesmo embate. É mais fácil aguentar a situação do que desistir", desabafa.

Um dilema que se repete na história de vários profissionais, diz a Associação Nacional de Professores. Para Cláudia Souto, não é novidade. "Não me choca que existam tantos a pedir baixa. É muito investimento para depois ter uma resposta destas", diz. "O que não me faz desistir é viver num país onde as hipóteses de emprego são péssimas e, depois, olho para os outros alunos e penso que ainda vale a pena continuar a ensinar."

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