Vespa asiática. Já foram destruídos mais de 1100 ninhos em Portugal este ano

Nos primeiros quatro meses do ano as autoridades identificaram 1245 ninhos de vespa asiática em Portugal, dos quais apenas conseguiram exterminar 1124. É no distrito do Porto que mais casos se registam. O ICNF espera um reforço de verbas no Orçamento de Estado para intensificar o combate

"Primeiro pensei que era um zangão, mas depois percebi que não. A minha única reação foi fechar a janela e fechar-me em casa, não fosse aquilo entrar. O meu filho foi ver à net e percebemos que era vespa asiática". Licínia Santos mora perto de Coimbra, numa urbanização com vários prédios. No verão passado, em agosto, fez a denúncia no site do ICNF (Instituto de Conservação da Natureza) - onde existe uma plataforma criada para o efeito.

Chama-se "Stop vespa" e tem sido muito útil para eliminar os ninhos desse inseto, que é sobretudo perigoso para quem desenvolve reações alérgicas às picadas de insetos. Era o caso de Licínia. "Depois de denunciarmos no site do ICNF fomos contactados pelos bombeiros que logo no dia seguinte vieram destruir o ninho". Esse terá sido um dos 200 vespeiros eliminados no naquele concelho da região centro do país, mas muitos ficaram ainda por destruir. De resto, Coimbra está entre os cinco distritos do país onde mais ninhos têm sido observados, através das Câmaras Municipais e dos Bombeiros. Foi aí que começaram as primeiras medidas "de combate à progressão desta espécie invasora", de acordo com fonte do ICNF.

Na verdade, desde que a vespa asiática (ou velutina) chegou a Portugal, em 2011, passaram quatro anos até que o ICNF criasse uma ferramenta eletrónica que permitisse ao cidadão enviar participações de ocorrências. A plataforma SOS vespa teve início em janeiro de 2015, e aí foram carregadas algumas ocorrências do ano anterior, pelos serviços municipais de muitas autarquias do país. Até ao final da semana passada o ICNF registou, no total, 52.677 ninhos observados em Portugal (desde então) e 48.495 destruídos. Essa anterior plataforma funcionou até setembro de 2019, quando foi substituída pela STOPVespa, que congrega também a informação anterior.

"De acordo com os dados constantes das ferramentas geridas pelo ICNF, considerando o período temporal de 2014-2020, os distritos com maior número de ninhos são: Porto, Aveiro, Braga, Viseu e Coimbra", disse ao DN o gabinete de comunicação daquele instituto. Mas destes, o Porto continua a ser o distrito onde aquela espécie invasora mais se tem reproduzido. Entretanto, nestes primeiros meses de 2020 os dados sofreram alguma alteração no território nacional: Braga e Viseu foram, para já, substituídos pelos distritos de Leiria e Santarém na tabela que regista as ocorrências, o que poderá quer dizer que a vespa asiática está a estender-se de norte para sul.

Até ao dia 4 de junho tinham sido observados em Portugal um total de 1245 ninhos, dos quais as autoridades conseguiram destruir 1124. O maior número de ocorrências registou-se no Porto (296 destruídos), seguindo-se Coimbra (188), Aveiro (170), Santarém (139) e Leiria (120). Neste último distrito apenas três ninhos ficaram por destruir, entre todos os observados. Lisboa aparece mais ou menos a meio da tabela, com 41 ninhos destruídos, depois do susto do verão passado, que fechou jardins no centro da cidade.

O panorama tem-se alterado bastante. A vespa asiática terá chegado a Portugal em 2011, ao distrito de Viana do Castelo (suspeita-se que através de um carregamento de madeira), mas atualmente é um dos distritos que regista menos casos de ninhos. Nestes primeiros meses do ano detetou 13, todos eles destruídos. O distrito que menos casos regista é Setúbal: apenas um, prontamente eliminado.

A importância da georreferenciação

A ferramenta STOPVespa foi criada para apoiar a identificação e o controlo da vespa asiática em Portugal Continental. "Através da georreferenciação online dos avistamentos e dos ninhos desta espécie exótica invasora, esta ferramenta contribui para a comunicação entre a população, os técnicos dos municípios e a administração central, bem como para o apoio à gestão desta problemática e à tomada de decisão", acrescenta o ICNF. Nos serviços centrais há três pessoas em tempos variáveis, incluindo um perito na matéria. Entretanto, nas direções regionais o acompanhamento é feito por uma/duas pessoas nas DRCNF do Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

Em 2019, através do Fundo Florestal Permanente, foi financiada a destruição de ninhos desta espécie exótica invasora, com um montante máximo de 1,4 milhões de euros. A duração deste financiamento abrangeu a destruição de ninhos efetuada até ao fim do mês de março de 2020. Mas a Lei n.º 2/2020, de 31 de março, que aprova o Orçamento do Estado para 2020, prevê no seu artigo 205.º (Reforço do apoio para a deteção, controlo e destruição de ninhos e colónias de Vespa velutina) um montante até 5 milhões de euros para apoio aos municípios, que estão nessa linha da frente.

"À data de publicação desta lei, estava ainda a ser encerrado o prazo atribuído para o pedido de reembolso, pelos municípios, dos montantes associados à linha de apoio criada em 2019. Entretanto, dada a situação excecional provocada pelo surto de COVID-19 e estando previsto um orçamento retificativo, aguardam-se instruções da tutela relativamente à nova linha de apoio", acrescenta a mesma fonte.

No que respeita à implementação do "Plano de Ação para o Controlo e Vigilância da Vespa velutina em Portugal", coordenado em conjunto pelo ICNF e pela DGAV (Direção Geral de Veterinária), existe um programa específico de formação que já alcançou mais de mil formandos (2015-2020). Trata-se de um programa coordenado pela DGAV, contando com a participação de formadores de várias áreas e entidades.

"Por forma a otimizar estas formações, tem-se dado prioridade às solicitações efetuadas em conjunto por vários municípios, preferencialmente ao nível das comunidades intermunicipais. Os pedidos devem ser solicitados à DGAV através do endereço formacao.especializada@dgav.pt", esclarece o ICNF.

O que é e de onde veio

A vespa asiática é uma espécie invasora, originária do norte da Índia, leste da China e Indonésia. Chegou à Europa por via marítima em 2004, provavelmente através do porto de Bordéus, em França, e expandiu-se a partir daí a outros países europeus.

Trata-se de uma espécie carnívora e predadora da abelha europeia produtora de mel. E é na apicultura que a vespa asiática causa maiores estragos, pelo ataque às abelhas autóctones e pela diminuição da produção de mel e da polinização vegetal. Além disso, pode afetar a produção de frutos - que fazem parte da sua dieta em determinados ciclos biológicos.

Em 2010 foi detetada em Espanha e em 2011 a sua presença foi pela primeira vez confirmada em Portugal, em Viana do Castelo. "Tudo indica que terá chegado por via terrestre, num carregamento de madeira", explicou ao DN a investigadora Maria João Verdasca, no final do verão passado.

As vespas asiáticas não são mais agressivas do que as suas congéneres locais, mas tornam-se especialmente perigosas quando sentem o seu ninho ameaçado, atacando em grupo com perseguições por várias centenas de metros. Por outro lado, sendo uma espécie invasora, pode provocar desequilíbrios sérios na biodiversidade.

Cuidados a ter se for picado

Na maior parte dos casos a picada pode ser tratada em casa. De acordo com um manual feito pelos hospitais da CUF, no ano passado, há alguns cuidados que deve ter: remover o ferrão da abelha ou parte do inseto que possa ainda estar cravado na pele; lavar o local da picada abundantemente com água fria; se sentir dor, tome um analgésico, como o paracetamol ou iboprofeno. Siga sempre as indicações do folheto e tome a dose recomendada; se tiver comichão, aplique gelo ou uma pomada de venda-livre comprada na farmácia para aliviar o sintoma. Outra opção passa por tomar um anti-histamínico; para reduzir o edema aplique gelo na lesão.

E se for alérgico?

Geralmente a picada da vespa provoca apenas uma reação local, com dor, comichão, vermelhidão e inchaço no local da picada. Nos casos de reação alérgica grave - anafilaxia - os sintomas surgem alguns minutos após a picada e têm vários graus de gravidade: reação cutânea - urticária, angiodema; sintomas digestivos - náuseas, vómitos, diarreia, dor abdominal; respiratórios - pieira, estridor, falta de ar; cardiovasculares - taquicardia, tonturas, confusão, sensação de desmaio; choque anafiláctico com paragem cardiorrespiratória.

Por isso mesmo os doentes com historial de reações alérgicas devem ser portadores de um estojo de emergência com adrenalina para auto-administração. Devem também ir a um Centro de Imunoalergologia, para avaliação e eventual indicação para vacina anti-alergénica com extrato de veneno em ambiente hospitalar.

No ano passado a Direção Geral de Saúde (DGS) criou um vídeo que explica como detetar a vespa, e os cuidados a ter se for picado por ela. As maiores chegam a atingir 3,5 cm. Distinguem-se por serem de grandes dimensões, a cabeça é preta com face laranja ou amarelada. O corpo é castanho-escuro ou preto, com aspeto aveludado, e com uma faixa fina amarela. As asas são escuras e as patas castanhas com as extremidades amarelas.

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