Portugal candidato a grande surpresa do Europeu de andebol

O Campeonato Europeu de andebol começa nesta quinta-feira com a presença da seleção nacional, que está de volta a uma fase final 14 anos depois. Carlos Galambas, ex-jogador que participou em todos os anteriores torneios por Portugal, acredita que é possível melhorar o sétimo lugar conquistado em 2000 na Croácia.

Catorze anos depois, a seleção nacional de andebol está de volta a uma fase final do Campeonato da Europa. É já nesta quinta-feira que arranca a 14.ª edição do torneio, numa organização conjunta de Noruega, Suécia e Áustria, embora a equipa nacional treinada por Paulo Pereira faça a estreia só no segundo dia de prova diante da França, uma das favoritas à conquista do título.

Portugal vai participar no Europeu pela sexta vez na sua história e tem pela frente o enorme desafio de superar a melhor classificação de sempre, obtida na Croácia em 2000 quando ficou no sétimo lugar. Carlos Galambas, que esteve em todas as fases finais pela seleção nacional, era um dos integrantes dessa equipa e está "a torcer" para que esse feito seja batido. "Tudo pode acontecer, afinal esta seleção já demonstrou que tem garra e que entra em todos os jogos para vencer", assumiu ao DN o antigo pivô de 46 anos, que, enquanto jogador, representou Belenenses, ABC, Madeira SAD e Sporting.

A equipa portuguesa está incluída no Grupo D, que além da França tem ainda a Bósnia e a Noruega, que vai jogar em casa, sendo que se apuram os dois primeiros para a segunda fase de grupos. "Pelos resultados recentes, podemos muito bem ser a surpresa do Europeu", assume Galambas, lembrando que na fase de apuramento Portugal venceu, em Guimarães, a equipa francesa por 33-27, num resultado surpreendente, tal como foram os recentes triunfos no Torneio Internacional de Espanha, nos primeiros dias de 2020, frente à Rússia (27-25) e à Polónia (34-27), que também são "duas potências do andebol mundial".

Jogo de estreia com a França "é fundamental"

São estes resultados recentes que põem Portugal como um dos principais candidatos a fazer uma surpresa, mas para isso Carlos Galambas defende que "tudo dependerá do primeiro jogo" e explica porquê: "Em 2000, ganhámos na estreia à Eslovénia, que jogava praticamente em casa, e isso foi fundamental para conseguirmos o excelente Europeu que fizemos." No entanto, o antigo andebolista reconhece que a França não é o melhor adversário para o primeiro jogo, mas assume que "repetir o triunfo alcançado em abril em Guimarães seria um importante impulso".

Ainda assim, considera que mesmo que a França vença esse primeiro jogo ficará "tudo em aberto". "Pela lógica, a Bósnia será a seleção mais fácil de vencer, apesar de ser uma boa equipa", diz, admitindo que o último jogo com a Noruega pode ser decisivo para o apuramento. "Os noruegueses jogam em casa, mas nessa altura o nosso selecionador, Paulo Pereira, já conhecerá mais a fundo aquilo que são os pontos fortes e fracos deste adversário. E é bom não esquecer que antes ainda jogam França e Noruega e não podem ganhar os dois...", sublinhou.

Baixa de Gilberto Duarte pode "unir o grupo"

Portugal apresenta-se em Trondheim, onde decorrerá o Grupo D, com uma baixa de peso - o lateral Gilberto Duarte, de 29 anos, que representa os franceses do Montpellier, uma das melhores equipas da Europa. O antigo jogador do FC Porto e do Barcelona lesionou-se ao serviço da sua equipa, pelo que vai falhar aquele que seria o seu primeiro Europeu, depois de ter sido o melhor marcador da seleção na fase de qualificação, com 23 golos.

Carlos Galambas admite que é "uma baixa importante para a equipa", até porque "é um jogador que tem crescido muito nos últimos anos nas melhores equipas do mundo e seria uma mais-valia" para a equipa nacional. Contudo, acredita que a sua ausência poderá ser capitalizada em favor do grupo: "A ausência do Gilberto Duarte pode ser uma forma de unir ainda mais as forças da equipa, pois os jogadores irão, por certo, querer oferecer-lhe a melhor classificação possível. Vão jogar por ele e isso será uma força extra."

A seleção nacional está de regresso aos Europeus após 14 anos desde a última participação. A primeira edição foi organizada por Portugal em 1994, tendo a equipa das quinas perdido os cinco jogos que disputou, ficando por isso no 12.º e último lugar da prova. Em 2000, na Croácia, deu-se o brilharete com um sétimo lugar, seguiu-se um 9.º posto na Suécia, em 2002, uma 14.ª posição na Eslovénia (2004), tendo a última participação, na Suíça em 2006, se saldado por três derrotas nos três jogos realizados.

Estrangeiros importantes para evolução do andebol

Apesar da travessia no deserto, Carlos Galambas recorda que desde então "Portugal esteve sempre à porta do apuramento para a fase final", mas considera que a qualificação para o Euro 2020 mostra que "se está a trabalhar bem no andebol", recordando que a seleção de sub-21 foi quarta classificada no Mundial da categoria, em Espanha, no passado mês de julho. "Esta melhoria na modalidade tem que ver com o bom trabalho feito pela federação, mas também pelos clubes. É bom lembrar que na época passada o Sporting chegou aos oitavos-de-final da Champions e o FC Porto às meias-finais da Taça EHF, e neste ano tem feito muito bons resultados na Liga dos Campeões, tal como o Sporting."

O antigo pivô acredita que parte dessa evolução registada nos últimos anos tem muito que ver com "a chegada de treinadores e jogadores estrangeiros de qualidade, pois isso faz subir o rendimento dos atletas portugueses". "Estando entre os melhores tudo é possível", defende, lembrando que nos últimos anos o andebol sofreu uma evolução muito grande: "Já não tem nada que ver com os meus tempos de jogador. Antigamente, marcávamos um golo e podíamos festejar... Agora não há tempo para nada, é tudo muito rápido. Os jogadores rematam mais forte... É tudo muito mais rápido e musculado. Houve uma grande evolução a todos os níveis e, por exemplo, os métodos do Aleksander Donner [treinador que marcou o andebol português nos anos de 1990] hoje em dia já não eram aceites pelos jogadores."

Carlos Galambas admite ainda que o guarda-redes Alfredo Quintana e os pivôs Alexis Borges e Daymaro Salina, cubanos naturalizados portugueses, "foram muito importantes para que a seleção nacional elevasse a sua qualidade". "São jogadores que estão cá há muitos anos, que já se sentem portugueses e sabem cantar o hino", frisou, comparando àquilo que representaram Vladimir Bolotskih e Viktor Tchikoulaev nos anos de 1990, ou até de Deco e Pepe na seleção de futebol.

Esperança na comitiva

O sonho de Portugal arranca nesta sexta-feira, às 17.15, frente à França, no Trondheim Spektrum, um pavilhão com capacidade para 8600 pessoas, situado nas margens do gelado rio Nidelva. O ponta Pedro Portela, um dos mais experientes da comitiva e que joga nos franceses do Tremblay, acredita que "uma vitória frente à França será um grande passo para o apuramento", enquanto Alfredo Quintana deixa claro que o objetivo é "chegar o mais longe possível". "Portugal não está no Europeu há 14 anos e vamos lá com a ambição de fazer grandes coisas, mas temos de ter a noção de que tem de ser passo a passo", sublinhou.

"Temos expectativas elevadas e não temos medo delas, embora todos saibamos que o sofrimento é maior quando as expectativas são exageradas e as coisas não correm bem. Temos de ser valentes e fazer que essa expectativa seja positiva para nós e, depois, teremos o resultado que merecemos", afirmou o selecionador nacional Paulo Pereira após o sorteio em que Portugal ficou a conhecer os adversários.

"A primeira meta, que já tínhamos antes do sorteio, é passar a primeira fase [qualificam-se os dois primeiros de cada grupo]. Depois, conseguir o melhor resultado em Europeus, que foi o sétimo lugar obtido em 2000, na Croácia. Sabemos que é muito difícil, mas acredito que podemos fazer algo interessante", referiu Paulo Pereira, acrescentando que é preciso "encontrar um ponto de equilíbrio entre a euforia, de ir ao Europeu, e a razão, o compromisso e a concentração, para a aplicação do modelo e do plano para os jogos".

Os 18 convocados pelo selecionador Paulo Pereira

ALFREDO QUINTANA
Guarda-redes
Clube: FC Porto
Idade: 31 anos
Internacionalizações A: 48
Golos: 6

HUMBERTO GOMES
Guarda-redes
Clube: ABC
Idade: 42 anos
Internacionalizações A: 67
Golos: 0

GUSTAVO CAPDEVILLE
Guarda-redes
Clube: Benfica
Idade: 22 anos
Internacionalizações A: 8
Golos: 0

ANTÓNIO AREIA
Ponta direito
Clube: FC Porto
Idade: 29 anos
Internacionalizações A: 35
Golos: 93

PEDRO PORTELA
Ponta direito
Clube: Tremblay (França)
Idade: 30 anos
Internacionalizações A: 80
Golos: 266

DIOGO BRANQUINHO
Ponta esquerdo
Clube: FC Porto
Idade: 25 anos
Internacionalizações A: 32
Golos: 70

FÁBIO VIDRAGO
Ponta esquerdo
Clube: Benfica
Idade: 31 anos
Internacionalizações A: 45
Golos: 107

BELONE MOREIRA
Lateral direito
Clube: Benfica
Idade: 29 anos
Internacionalizações A: 9
Golos: 8

JOÃO FERRAZ
Lateral direito
Clube: Aarau (Suíça)
Idade: 29 anos
Internacionalizações A: 69
Golos: 131

ALEXANDRE CAVALCANTI
Lateral esquerdo
Clube: Nantes (França)
Idade: 23 anos
Internacionalizações A: 29
Golos: 24

ANDRÉ GOMES
Lateral esquerdo
Clube: FC Porto
Idade: 21 anos
Internacionalizações A: 11
Golos: 16

FÁBIO MAGALHÃES
Lateral esquerdo
Clube: FC Porto
Idade: 31 anos
Internacionalizações A: 129
Golos: 273

MIGUEL MARTINS
Central
Clube: FC Porto
Idade: 22 anos
Internacionalizações A: 35
Golos: 69

RUI SILVA
Central
Clube: FC Porto
Idade: 26 anos
Internacionalizações A: 70
Golos: 109

ALEXIS BORGES
Pivô
Clube: FC Porto
Idade: 28 anos
Internacionalizações A: 22
Golos: 34

DAYMARO SALINA
Pivô
Clube: FC Porto
Idade: 32 anos
Internacionalizações A: 36
Golos: 61

LUÍS FRADE
Pivô
Clube: Sporting
Idade: 21 anos
Internacionalizações A: 11
Golos: 14

TIAGO ROCHA
Pivô
Clube: Sporting
Idade: 34 anos
Internacionalizações A: 132
Golos: 353

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