Céu azul em Wuhan


Há dias escutei na Antena 1 uma entrevista com um dos portugueses na altura retidos em Wuhan, a megacidade chinesa onde se iniciou a pandemia do coronavírus. Há vários dias que milhões de pessoas se isolavam em suas casas, para fugir ao contágio. Num cenário de ruas silenciosas e desertas, de fábricas encerradas, transportes reduzidos ou cancelados, esse compatriota dizia, com surpresa indisfarçável, que pela primeira vez pudera observar a cor azul do céu sobre a grande urbe. Se quisermos pensar nos significados dessa experiência única de azul chegaremos ao âmago de uma das maiores patologias da nossa civilização: a promiscuidade que mata.

Todas as formas de existência viável requerem esferas próprias, zonas de proteção e segurança para desabrocharem e se desenvolverem. Como compreender a biodiversidade - a existência de biliões de criaturas, integrando milhões de espécies distintas, habitando e modelando milhares de ecossistemas diversos, mas, simultaneamente unidos pelo mesmo cordão umbilical que nutre a complexidade da vida na luta permanente contra a simplicidade gélida do nada - sem a função indispensável da distância de segurança entre todas as criaturas, dessa zona de reserva que permite a cada ser evitar ser esmagado ou devorado pelos outros? A pandemia, que obrigou milhões de humanos a parar na China, deveria fazer-nos refletir a todos na tragédia deste modelo de civilização que, depois da revolução técnico-industrial europeia se ter universalizado, subjugou num abraço mortalmente promíscuo a complexidade da natureza. O "progresso e a prosperidade" humanas reduziram a riqueza natural à pobreza do fabrico entrópico de bens artificiais, desenhados com o sinistro vírus da obsolescência programada, para serem vendidos no altar do mercado, numa vertiginosa atividade sem estados de alma nem reserva mental. Se no século XIX o niilismo era um tema para filósofos, hoje ele transformou-se na única tarefa que une cegamente - empurrada pelos estiletes da necessidade e da ganância - a humanidade inteira.

Sorver o tutano do planeta até ao último mineral, até às derradeiras espécies animais e vegetais, transformar em valor transacionável até a escassez da água e do ar, são manifestações deste niilismo prático, que tem na ideologia neoliberal a sua religião - camuflada no prestígio cada vez mais precário das ideias de ciência e universidade - e faz da promiscuidade degradante entre poder económico e instituições políticas as suas correias de transmissão. O céu azul de Wuhan aparece como um sinal de vida dessa Natureza que os talibãs do crescimento económico insistem em considerar como uma externalidade pronta a ser usada a custo zero. A realidade diz-nos outra coisa. O coronavírus, assim como outros agentes pandémicos, passados e futuros, resultam de processos de contágio entre humanos e animais selvagens, que resultam da destruição avassaladora dos seus habitats naturais. A promiscuidade tem sempre um preço doloroso. Tanto para a vítima como para o agressor.

Professor universitário

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