A liderança do populismo

O Irão, que foi posto em guarda pela ameaça de intervenção americana, paralisada a poucos minutos do início, mostrando uma surpreendente relação entre os efeitos previstos pelo estado-maior e o alarme tardio do seu comandante supremo, respondeu que não queria a guerra, mas que não a temia. O regime atual partiu da revolução de 1979 que, derrubando a monarquia, instaurou uma República dita para a "independência e liberdade", integradora das diversas correntes políticas orientadas para um projeto estratégico renovador.

A desmobilizada intervenção americana fora, ao que parece, decidida para opor o avanço do Irão na área da capacidade militar, ameaçando a hegemonia americana, ameaça que crescia de importância desde que o nacionalismo árabe agita o Médio Oriente. Criou a imagem da "ameaça do Irão", mas a retirada não deixou de pesar na avaliação dos analistas do real poder da "casa no alto da colina", em que, cultivando o unilateralismo, o atual presidente se apoia. Acontece porém que o regime do Irão enfrenta um descontentamento popular, a que a internet conseguiu dar publicidade mundial, chamando a atenção da Amnistia Internacional, e a partir daí as notícias de mortes e detenções ganharam relevo e alarme.

O Irão não dispensa suspeitar da intervenção americana. No Iraque, o primeiro-ministro foi obrigado a demitir-se, em comunicação ao Parlamento, vencido pela revolta popular, numa já chamada guerra contra o regime, com o anúncio de que, desde 1 de outubro último, pelo menos 420 pessoas tinham sido mortas pela repressão governamental. Desta vez, a ONU, pela voz da sua representante Jeanine Hennis-Plasschaert alertando para a eventual convocação do Conselho de Segurança, fez-se ouvir, ao lado da condenação pela França do "uso excessivo e desproporcionado da força". Os próprios EUA, supostos protetores do Iraque, não deixaram de ser acusados, por Teerão, de ter organizado a reação popular. Foi, segundo alguns noticiários, a intervenção do ayatollah Sistani, a maior autoridade xiita, com o seu apelo ao respeito pelo sangue sagrado dos muçulmanos, que influenciou o Parlamento a retirar a confiança ao governo.

Mas talvez o facto que mais alarma seja o de a Coreia do Norte retomar a atitude de conflito com a Coreia do Sul, tendo em vista obrigar os EUA a reconsiderarem perante o regresso aos mísseis. Depois da chamada diplomacia que Trump desenvolveu com Kim Jong-un e das medidas apaziguadoras de Pyongyang, a Coreia do Norte assumiu esta maneira de anunciar que de facto as negociações estão interrompidas sem futuro pacífico visível, pelo que exige que Washington termine com as hostilidades de que o acusa.

O general Vincent Brooks, que comandou as tropas americanas na Coreia do Sul, aconselhou retomar os exercícios juntamente com os sul-coreanos. Estes factos, que sublinham a continuidade de leviandades perigosas e largamente criticadas, levaram Bertrand Badie, da Sciences Po de Paris, a lançar um debate - apoiado na história do ganho da hegemonia pelos EUA agora vista a declinar - inspirando um inquérito sobre se estaremos a assistir ao fim da liderança americana.

Talvez seja útil tentar clarificar se o primeiro fator da inquietação, sobretudo ocidental, não está no declínio da real capacidade dos EUA - designadamente nos domínios da ciência e da técnica, da economia e do poder militar - mas na frequência de intervenções que afetam a confiabilidade internacional do presidente, que rejubilou com a paralisia do Tribunal Penal Internacional por falta de cooperação dos Estados, que considera uma inquietação infundada a dos cientistas que alarmam para a ameaça ambiental, que abalou a confiança na manutenção da unidade da NATO para responder aos desafios que a circunstância coloca, designadamente, à União Europeia, que não enfrenta a gravidade da desordem sul-americana refletida no outono ocidental, que omite a responsabilidade histórica dos EUA no projeto de conseguir uma "governança mundial", tendo essa marca ficado viva quer depois da extinta Sociedade das Nações quer na criação da ONU com a respetiva Declaração de Direitos.

Parece de ponderar se os EUA perderam de facto a capacidade de ter uma intervenção à altura do passado, ou se o que parece mais evidente é que os seus eleitorados esqueceram as lições de Jefferson, redator da Declaration of Independence de 1776, para ceder ao populismo que ameaça manter uma liderança que repetidamente alarma a tranquilidade das instituições internacionais e dos governos, pela desenvoltura com que a liderança surpreende os códigos diplomáticos.

Se a reunião da NATO assegurou estar assegurada a unidade, que parece mais uma pausa que esperam durar até à reunião marcada para 2021, vendo-se nisto a mão experiente do secretário-geral Stoltenberg, isso não impede que, se o mesmo populismo ganhar as próximas eleições com igual liderança, esta venha a reformular o silêncio que Trump manteve na reunião.

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