Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf

Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: "Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral." E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso.

Creio que todos os seus livros estão traduzidos em português, incluindo o recente O Naufrágio das Civilizações. E Maalouf não só é o mais conhecido dos libaneses, como alguém que nos dá acesso emocional tanto ao mundo árabo-muçulmano, como ao seu próprio país, de uma forma muito pessoal em Origens, espécie de história da sua família de árabes cristãos, depois também num livro como Identidades Assassinas, em que toca no mais complexo dos temas para o Líbano, a antiga Fenícia, em particular e para o Médio Oriente em geral.

Entrevistei duas vezes para o DN o escritor, alguém que aprendi a apreciar quando estudava na universidade e parecia que todos os professores do ISCSP recomendavam a leitura de As Cruzadas Vistas pelos Árabes. Extraordinário livro, destinado a dar-nos outra visão (ou a visão do outro) sobre um dos acontecimentos mais emblemáticos do mundo medieval ocidental. Os terríveis relatos sobre os médicos europeus mostram bem como a ciência, pelo menos a medicina, estava há mil anos muito mais desenvolvida a sul e a leste do Mediterrâneo do que a norte. Foi um choque para os leitores franceses de hoje (e restantes europeus) como já tinha sido um choque para os Cruzados, os Franj ou Francos, como ficaram conhecidos nas crónicas coevas árabes.

Falo dos Franj, Francos ou Franceses, porque o Líbano não é compreensível sem se perceber o seu papel, seja quando boa parte do país integrava o Reino de Jerusalém, fundado em 1099 por Godofredo de Bulhão, seja quando Francisco I conseguiu ser reconhecido como protetor oficial dos cristãos do oriente pelos sultões otomanos, seja quando a República Francesa fez do Líbano um protetorado no final da Primeira Guerra Mundial. Controlando toda a Síria histórica, os franceses inventaram o moderno Líbano para criarem um país para os árabes cristãos.

Depois da independência libanesa, após a Segunda Guerra Mundial, a demografia trocou a volta aos planos franceses e os cristãos deixaram de ser a maioria. Mesmo assim, com base num recenseamento da era colonial o presidente da República é sempre um cristão maronita, o primeiro-ministro sempre um muçulmano sunita e o presidente do parlamento sempre um muçulmano xiita.

Paraíso de tolerância, e oásis de costumes liberais, o Líbano baseou a sua prosperidade na atração de investimentos, de depósitos bancários e de turistas, sobretudo do golfo Pérsico, agradados com o acesso a uma espécie de Europa (e esta até deve o nome a uma princesa fenícia) a falar árabe. A Guerra Civil de 1975-1990, em que não faltaram as intervenções estrangeiras, destruiu o país e toda a sua fama. A emigração dos mais educados acelerou, e diz-se que foi forte sobretudo entre os cristãos. Depois veio a reconstrução nos anos 1990, com sério apoio internacional, e nasceu uma nova versão de Líbano, mosaico étnico-religioso, mesmo que o Hezbollah ao manter-se um partido armado e às ordens do Irão não só demonstrasse a fragilidade da democracia como justificasse a desconfiança e até intervenção (guerra de 2006) de Israel. Uma degradação constante da economia, sucessivos impasses políticos, atrasos na eleição do presidente e na formação do governo, tornaram-se sinais de como o Estado estava ameaçado.

Com a economia em recessão, 1,5 milhões de refugiados sírios num país de seis milhões de pessoas, e a pandemia a agravar a pobreza, um ministro demitia-se há dias alertando que o Líbano corria o risco de tornar-se um Estado falhado. E isto foi antes da explosão no porto de Beirute, mortífera mas mais ainda destruidora e desestabilizadora.

Os habituais suspeitos, Hezbollah e Israel, apressaram-se a negar qualquer envolvimento. Por um lado, é bom. Não haverá ciclo de vinganças internas nem novo conflito com o Estado Judaico. Por outro, mostra como quem governa, administra, gere o país se tornou incompetente ao ponto de permitir, apesar dos alertas, que uma substância altamente explosiva permanecesse num armazém não muito longe do coração da capital.

O presidente Emmanuel Macron foi ao Líbano prometer que a França não deixará o país sozinho. Poderia ser visto como um saudosista da era colonial, aproveitando a desgraça alheia para dourar a memória do tempo do protetorado. Mas não foi esse o sentimento generalizado entre os libaneses, antes sentiram agradecimento. Precisam de apoio de fora para reconstruir Beirute e também o resto do país. Até circula online e já com milhares de assinaturas uma petição a pedir que a França volte a governar o Líbano, na verdade uma forma de mostrar o desprezo pelos clãs que têm aproveitado a repartição de poder entre as comunidades para se perpetuarem e aproveitarem.

Com cristãos de confissões várias, muçulmanos xiitas e sunitas, também drusos, o montanhoso Líbano é um país que representa a diversidade que já houve no Médio Oriente e que está a desaparecer. Os judeus desapareceram de Damasco, Cairo e Bagdad, os cristãos estão a tornar-se uma raridade no Iraque, e na Síria, onde se trava uma guerra de todos contra todos, as minorias são quem mais teme pela sobrevivência.

Voltemos a Amin Maalouf, que um dia foi crucificado na sua terra por ter dado uma entrevista a uma TV israelita e talvez também por isso prefira o exílio. A sua tese é que o Líbano será salvo quando mais importante do que a religião de cada um, sobretudo dos governantes, for a honestidade, a decência e a moral. Veremos se a explosão desta semana serviu de abanão suficiente nas mentalidades dos poderosos.

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