"De manhã, sou capaz de acordar com a minha idade. À noite, devo ter 30 e tal anos"

Júlio Isidro, autor, produtor e apresentador de programas na televisão e na rádio, inventor, escritor de contos infantis, há quem lhe chame "tio Julião". Ele intitula-se o "Júlio Exílio", vai sempre parar à RTP Memória, apesar de os seus programas serem bem atuais. Não o incomoda, desde que goste do que faz.

Vai todos os dias à RTP para gravar a 10.ª temporada do Inesquecível, que passa na RTP Memória, tal como o Traz prá Frente, apesar de atuais. Como "nunca se deu ares de vedeta", Júlio Isidro não leva isso como desaforo, embora se perceba que gostaria de estar na RTP 1. Já tem um contrato e um cartão para entrar nas instalações da televisão, com um número mais alto que mereciam os seus 60 anos de carreira. E, ao fim do dia, vai para a oficina da sua casa, em Cascais, construir aviões. E, entre tudo o que inventa, há dois projetos que espera concretizar em breve: uma exposição com aviões de todos os países envolvidos nas I e II Guerras e recordar a Febre de Sábado de Manhã, que faz 40 anos. Idade que o Passeio dos Alegres completa para o ano. E tem um sonho: encher o Estádio de Alvalade para assistirem à Febre dos Alegres, como há 39 anos. Tem 75 anos.

Entrou pela primeira vez na televisão com o Orfeão do Liceu Camões, tinha 15 anos.
Foi na edição preparatória do Programa Juvenil, no 16 de janeiro de 1960. Fui cantar no Orfeão e, depois, havia o lançamento das rubricas e fiz a apresentação. Na semana seguinte, apresentei o programa com o professor Lobo Antunes e a Lídia Franco.

Era um menino do coro, bem comportado?
Mesmo muito, muito amestrado. Por feitio, sou assim, há quem possa definir isto como um nerd, como se usa agora, ou um "banana", como se usava antigamente. Não era de dar nas vistas e tinha uma educação muito rígida, da qual não me lamento e não tenho críticas negativas. Bem comportado, bom aluno, muito sensível aos cerimoniais, aos rituais, gostava muito do Natal e da Páscoa, fazia os tronos dos Santos Populares. Antes dos aviões, fazia muita bricolage com a madeira. E, na escola, quando faltava um professor, era convidado para contar umas anedotas ao estrado.

Essa forma de ser "bem comportada" prejudicou-o, de alguma forma, ao longo da vida?
Sim. Costumo dizer que o maior defeito da minha vida é ter dificuldade em dizer "não". Mesmo a nível profissional, nunca me dei ares e essa coisa de "não me dar ares" não é um elogio a mim nem uma crítica a quem se dá ares, um bocadinho de ares é capaz de dar jeito. Podia ter dado um lampejo de vedeta, mas como ideologicamente sou adverso a vedetismo, a tiques e toques de estrela, perdi algumas ocasiões. Ainda hoje, quando sou tratado com algumas mordomias a que nunca me habituei, eu septuagenário, com 60 anos de televisão, sinto que é estranho.

Quais foram, então, os seus maiores trunfos?
A verdade. Fiz sempre televisão no chamado vão de escada, para já porque tenho a honra de pertencer aos pioneiros, estou entre aqueles que muito mais do que benesses, mordomias, valores materiais, tinham um enorme prazer em pôr no ar uma emissão. E, ainda hoje, sou incorrigivelmente assim.

É uma questão geracional, as gerações atuais são mais afirmativas?
Ao que chama "afirmativa" eu chamarei obcecadamente materialista e, em alguns casos, numa competição sanguínea. Digo, muitas vezes que se agora tivesse 30 anos provavelmente não conseguiria chegar onde cheguei. Cheguei de mansinho, umas vezes em cima da onda, outras por debaixo, e, quando aqui estava, não ia protestar.

Nunca deu um murro na mesa?
Não. Tenho dezenas de programas apresentados na televisão sobre os quais nunca me deram resposta, têm dezenas de anos. Sou aquele que apresenta e fica à espera.


Os mais próximos não o picam?
Fiz da minha postura uma elegância delicodoce, sou assim, mesmo cá em casa. Digo por graça: não educo as minhas filhas, elas educam-se. A educação é um ato de osmose, elas só têm de vir beber ao comportamento da mãe e do pai. E a mãe também tem dificuldades em dizer "não". Até comprei um livro na FNAC, Como Aprender a Dizer Não.

O que é que aprendeu?
Ainda não li o livro [risos].

Como é que vive os momentos atuais?
Com uma enorme tranquilidade. No meio da feira de vaidades em que vivemos, da exuberância, das estrelas cadentes e decadentes a uma velocidade vertiginosa, continuo a fazer ginástica de manutenção e ainda tenho uma missão a cumprir. Primeiro, porque falo um português escorreito e não estou nojento, desagradável à vista; depois, porque ao trabalhar na RTP Memória construí o programa Inesquecível, que vai fazer dez anos em março e tem mais de 370 emissões. E é bom verificar que no sábado do Benfica-Porto foi o mais bem classificado do dia, ainda por cima, está em repetição. E, no domingo, fez mais audiências que no sábado.

Ah, liga às audiências...
Como referência, nunca desenhei um programa a pensar nas audiências. Nunca transformei os espetadores em números, o que é uma coisa completamente diferente. Faço uma análise qualitativa que é o carinho que recebo todos os dias das pessoas, a quantitativa é uma referência. O Inesquecível é um projeto que, quando eu disser "adeus até ao meu nunca regresso", fica na televisão. O que estou a fazer é um espólio de uma enorme importância em Portugal e para a memória das pessoas.

Porque é que não está no primeiro canal?
Não sei, não faço a mínima ideia. É construído hoje, não cheira a bafio, transformo a memória em presente, tem dinâmica, ritmo, o que pouca gente se tem lembrado de fazer.

Não se tenta a bater à porta da administração e pedir um horário na RTP1?
Não é esse o meu feitio. Tive o privilégio de ir ao canal 1 no programa dos meus 60 anos de carreira [Júlio Isidro Gala dos 60 Anos de Televisão], no dia 16 de janeiro, e que fez até uma audiência boa. Gostei muito e, no discurso final, disse que não concordava com o senhor da Apple ao afirmar que, "quando se liga a televisão, desliga-se a inteligência". Tenho feito o possível para que as pessoas liguem a televisão e que não desliguem a inteligência. E adaptei o conceito do Churchill, quando os aliados ficaram eufóricos com a vitória na batalha de El Alamein. Disse: "Não é o princípio do fim, não é sequer o fim, é apenas o fim do princípio".


Apresentou o Inesquecível para um canal?
Apresentei especificamente para a RTP Memória, porque nessa altura já estava a ser o "Júlio Exílio" da RTP Memória.

Até porque participa num outro programa no mesmo canal, Traz prá Frente.
É que me dá imenso gozo, tenho idade para ser pai de três deles. Há ali quatro personalidades completamente diferentes [Álvaro Costa, Fernando Alvim e Nuno Markl], quatro formas de ver o mundo, quatro culturas diferentes, e uma apresentadora muito jovem [Inês Gonçalves], a que chamo "a nossa precetora". E cada um traz a bagagem e vai falando em função dos clips que nos enviam.

Onde revela a sua grande capacidade de memorizar. Toma notas ou tem um arquivo na cabeça?
A minha cabeça é um arquivo. Na Rádio Renascença, onde faço o Hotel Califórnia, com o Paulinho Coelho, escolho a música, o que é um privilégio na rádio hoje em dia e, quando estou a escolher, vem-me à memória imensas coisas. Mas a memória é a coisa mais falível desta vida, portanto, gasto algumas horas a confirmar o que sei ou penso que sei. Faço rigorosamente a mesma coisa com o Traz prá Frente. Não venham com a história da inspiração, há alguma transpiração.

Devo concluir que o Júlio Isidro é o resultado de talento, transpiração, persistência...
Sobretudo persistência. Não tenho dúvidas de que ao longo da minha carreira me cruzei com colegas brilhantes e que não ficaram. É evidente que sei que tenho uma voz boa, mas tenho colegas com vozes lindíssimas, com uma capacidade de improviso extraordinária, uma grande cultura geral. Fui mais persistente? Acho que sim.

Também deve ter tido outros com menos qualidades e que tiveram logo uma maior notoriedade.
Só me consigo lembrar dos bons, nunca me lembro dos maus, nem sei se havia maus. Nos dias de hoje é a mesma coisa. No meu Facebook, quando escrevo sobre um programa ou alguém é para dizer bem.

Essa é uma característica da sua autobiografia, apagou os maus momentos. Esquecer-se do mau é algo que acontece naturalmente?
Não, é um mecanismo de defesa. O Kennedy dizia "perdoa os teus inimigos mas nunca te esqueças da cara deles", também tenho essa postura. É cómodo para mim e, se os arrasos e os conflitos alimentam curiosidades mórbidas e de pessoas que vêm a vida pelo buraco da fechadura, não lhes dou esse prazer.

Há alguém a quem não dirija a palavra?
Para ser muito sincero, há só uma pessoa a quem não falo e jamais falarei e falei muito. Foi um dos meus melhores amigos.

Claro, que não vai dizer o nome.
Não.


Também costuma dizer que o momento presente é o melhor da sua vida.
E é verdade. Hoje [quarta-feira] estive a editar alguém de quem gostava muito, que morreu há pouco tempo, o Nuno Teixeira. E lá está, quando acontece alguma coisa, até já perguntam: o Júlio entrevistou? Aconteceu com o Luís Filipe Costa, tinha-lhe feito uma belíssima entrevista, a última da vida dele, foi meu chefe nos noticiários.

Descreve o que está a fazer no Inesquecível como o refazer a televisão.
É. Quando estou a montar - devo dizer que há programas antigos maravilhosos, do ponto de vista criativa e muitos sob o ponto de vista formal, - mostro sempre o melhor que há ou no ator, no apresentador, no cantor. A realização evoluiu muito e tento dar movimento aquilo que não tinha, o que é um exercício extraordinário. Por exemplo, quando estou a editar o Nuno Teixeira, estou a recuperar programas do Herman, o gozo que me dá. Às vezes, vou muito contrariado para a televisão e, nesta altura, até receoso, de máscara e mais os desinfetantes todos. Começo a editar, fico tão entusiasmado, que me apetece até, como fazia antes da pandemia, dar um abraço ao editor com quem trabalho, que todos os dias é um diferente.

E faz tudo no programa, gravar, editar...
Tudo, é quase um artesanato caseiro. A Sandra [Barros, produtora e mulher de Júlio Isidro], que está a trabalhar em casa e ligada ao arquivo da RTP, faz pesquisa e manda-me uma lista monstruosa. Depois, construo em termos de edição os clips que vão entrando.

Tem contrato com a RTP mas não é efetivo, ao fim de 60 anos?
Tenho contratos anuais. Para levantar a máscara, temos um número, agora já tenho um número. Fui levantar a máscara com o Chico, que estava a editar comigo, ele era o 87. Quando perguntam e o Sr, Júlio Isidro? [ri-se]. Ele diz, "deve ser 00, não". Não, é o 780.

Não se sente injustiçado por isso?
Tive só uma oportunidade de ficar como funcionário da RTP. Nessa altura, disse que "não", mas conto a história. Fui convidado para um triunvirato de diretores: o António Reis para a Cultura, o António Macedo para a Ficção e o Júlio Isidro para o Entretenimento. Mas não me sentia bem a analisar projetos e a dizer que "não" e vim embora. Se tivesse ficado, depois de algum tempo nestas funções, seria funcionário. Fiquei sem programa, sem nada, o que já me aconteceu variadíssimas vezes. Agora, estou mais descansado, porque nos últimos anos, a RTP tem renovado por dois anos, estou no final do primeiro de dois anos. Na primeira vez que assinei esse contrato, a Chica que é muito espontânea, diz: "Oh papá, neste ano em dezembro já não vamos ficar nervosos." [Ri-se]


A incerteza nunca o preocupa, nomeadamente a nível de reforma?
Fui esquecendo que um dia seria velho.

Não se sente velho?
Acho que não, às vezes penso na frase do poeta Gomes Ferreira "viver sempre também cansa", mas por enquanto não estou nada cansado.

Com que idade se sente?
[Risos] De manhã, sou capaz de acordar com a minha idade [75 anos]. Quando me deito devo ter 30 e tal anos, porque não me quero deitar, fico a ver coisas, vou à Netflix e vejo séries e filmes fantásticos. Mesmo quando estou na televisão, vou corredor fora e penso: "Estou a andar tão ligeirinho, ainda bem."

No ano passado teve um susto a nível de saúde e que correu bem.
Correu bem. Há quatro anos que sabia que tinha um aneurisma na aorta com 4,2 cm. Fui ler e soube que a partir dos 5,5 cm corria o risco de rebentar. Andei quatro anos sem ir ao médico, tinha tanta coisa para fazer, nem me apercebia da tensão da minha mulher. E, quando fui fazer a análise à Cruz Vermelha, verificaram que as coronárias estavam calcificadas, depois fiz o cateterismo, uma angioscopia às coronárias. Foi-me dito que o aneurisma estava com 5,8 cm, que era melhor operar. Tenho um bocado de aorta nova, de fibra de vidro, depois da operação, é que me disseram que a bola tinha 6,2 cm.

Faz exercício, tem cuidado com a alimentação, fuma?
Tenho cuidado, fumei pouco e a seguir ao 25 de Abril comecei a fumar mais. Um dia senti uma tontura, pensei, tenho de parar e parei, no dia 25 de fevereiro de 1975.

Falou do 25 de Abril e só não estava de serviço na informação dessa noite por acaso.
Troquei o turno com o Quim Furtado. Ele trabalhava nos noticiários da RTP e tinha o da meia-noite para fazer, pediu-me para trocar, fiz o das 19.00 à 01.00 e ele entrou à 01.00.


Mais tarde porque é que troca a informação pelo entretenimento?
Após o 25 de Abril, há a nacionalização da rádio, depois há a desnacionalização para voltar não ao Rádio Clube Português [RCP], mas à Rádio Comercial [RC]. Perguntam onde quero estar e eu, que normalmente nas corridas de cavalos aposto no burro, tive a perceção e quis ir para a área da produção.

Nas suas palavras, apostou no cavalo, deduzo que se arrepende.
Não, porque iria sentir-me violentado, os jornalistas sofreram muito, pressões, dificuldades. Passei para a área da produção e faço um programa chamado Quarto Crescente. O João David Nunes passa a diretor da RC e pergunta o que é que quero fazer, disse-lhe que queria um programa das 10.00 às 13.00 chamado Grafonola Ideal. Passados uns tempos, digo-lhe que gostava de fazer a Febre de Sábado de Manhã. Espantou-se porque eu já trabalhava todos os dias da semana, respondeu que só me podiam pagar em horas extraordinárias . Fiz programas com 50 mil pessoas [Estádio de Alvalade] a ganhar três horas extraordinárias ao sábado.

Mais tarde, preenche o último dia de folga, o domingo, com o Passeio dos Alegres, na RTP.
Foi na sequência da Febre de Sábado de Manhã, vivia para o trabalho, sobretudo gostava de inventar coisas. Aquilo que modestamente posso ostentar é dizer que inventei muitas coisas, isso é que deu meu gozo. Aliás, tenho muitas propostas para a RTP Memória, houve uma coisa que Gonçalo Madail [diretor do canal] comprou logo, recordar a Febre de Sábado de Manhã, que faz 40 anos no final do ano. Perguntou se queria fazer um Inesquecível e eu disse que queria fazer dois. Nunca ninguém me pediu um alinhamento. Eu é que telefono a dizer: "Sabe que a Fafá vai dar um espetáculo no dia 9, em Fátima, e vai ficar dois dias para gravar para o programa?" Sou um caçador solitário.

De talentos?
E, também, de talentos [ri-se], mas gosto de escrever os meus programas sozinho e têm-me dado ampla liberdade, tanto na RTP como na Renascença.


Porque não voltar ao Estádio de Alvalade?
Há essa possibilidade, pode não ser logo nos 40 anos. Em março são os 10 anos do Inesquecível, em fevereiro, os 40 do Passeio dos Alegres, poderia ser por aí. Até já tem nome: Febre dos Alegres, para juntar tudo.

Programas com tanto sucesso, porque é que acabaram, a Febre ao fim de três anos?
É extraordinário mas fui eu que acabei, por medo do sucesso. Quando explodi com a Febre de Sábado de Manhã e o Passeio dos Alegres, com 90% de share, o país parava, eram sete milhões de espetadores, a minha mãe disse-me: "É melhor parares, para, estás a ter sucesso de mais." Não havia de dizer isto, mas está perdoada. Mas eu também tinha dito numa entrevista ao Expresso, que foi título de capa: "Tenho prazo de validade como os antibióticos". Deve ser um antibiótico de largo espectro. Estou a aguentar.

Arrepende-se?
Quando pensei que podia começar a incomodar, parei, podia ter continuado. Repare, estou a fazer um programa que não tem o mesmo impacto, e jamais terá, há quase dez anos. Os meus grandes sucessos não tiveram dez anos, nem pouco mais ou menos.

Teriam tanto êxito nos dias de hoje?
Muitos dos formatos de entretenimento de três e quatro horas que se praticam em televisão são sucedâneos daqueles conceitos.


Qual foi o programa que mais lhe custou acabar?
Foi o que me acabaram [ri-se], A Outra Face da Lua. Era uma ideia tão soft, tão elegante, tive uma intervenção grande na cenografia, estava tão bem arrumado que foi arrumado.

Qual foi o talento que gostou mais descobrir?
Não posso dizer apenas um. Fui ouvir uns rapazes chamados UHF ao Liceu de Almada, passado pouco tempo estavam a cantar Os Cavalos de Corrida no meu programa. Fui ao bar O Berro e, no meio daquela fumarada, estava um tipo de bigode a imitar a Liza Minnelli, o Fernando Pereira. O Grupo de Baile gravou o Patchouli, que tinha um palavrão, cantaram isso ao vivo e ninguém ficou ofendido ou deu por isso. A Dina fez comigo um programa infantil, o Arte e Manhãs. A Adelaide Ferreira e o Jorge Palma cantaram lá. O Mário Mata, o Pedro Abrunhosa, a Cândida Branca Flor, os Heróis do Mar estrearam-se na Febre de Sábado de Manhã.

Continua a procurar talentos?
Quase não é preciso, para já, porque tinha de ter vida noturna e, infelizmente, poucos bares têm música ao vivo. Quase todas as semanas recebo dois/três CD de gente completamente desconhecida e alguns já foram ao meu programa.

Tanta música, toca algum instrumento?
Viola, com a minha filha Francisca, agora cada vez menos porque me doem os dedos.

Quais são os talentos atuais preferidos?
Gosto muito do Capitão Fausto, Miguel Giza, Charraz, a Rita Redshoes.

Chamam-lhe o "Sr .Televisão", não seria mais correto o "Sr. Audiovisual", uma vez que sempre esteve nos dois registos?
É melhor "Sr. Júlio Isidro", senhor quero ser sempre, mereço. Olhe, podem chamar "Júlio Isidro generalista".

E "tio Julião"?
Não me importo nada, e há um ou outro colega que carinhosamente me trata por "tio Julião", sou muito acarinhado na televisão. Ainda por cima, são todos muito novos. Dizia hoje: "Sou o único tipo em risco que está aqui". A RTP tem 700 e tal funcionários em teletrabalho, no mês de agosto, menos.


Faz aeromodelismo, mesmo quando está a fazer um programa todos os dias?
Vou todos os dias à oficina, quando chego da televisão até à hora de jantar. À noite não, porque estou a escrever ou a ver um filme ou documentário, ultimamente tenho visto um filme todos os dias com a Sandra e com a Mariana ou a Francisca. E tenho um projeto que creio que vou conseguir concretizar até ao final do ano. Tenho feito aviões das I e II Guerras e gostava de fazer uma exposição. Como passam agora os 75 anos do fim da II Guerra, quero ver se consigo fazer uma exposição com aviões dos países envolvidos.

Já tem espaço?
Tenho uma oferta do Casino Estoril, ainda não voltei a contactar.

Fica com todos os aviões que constrói?
Fico e voo com eles [também participa em concursos], são todos para voar. Faço essencialmente voo circular e voo livre.

Falou várias vezes das filhas, as mais novas Francisca de 18 e Mariana de 21, e a Inês, de 52, do primeiro casamento. O que é que mudou nos dois períodos em que foi pai?
Em relação à mais velha, já apresentei a minha penitência, não fui um pai muito presente, hoje em dia sou. Tem um talento extraordinário, é de artes e a Francisca também está em artes. A do meio, a Mariana, é mais pragmática, vai ser dentista.

Se tivesse de escolher entre a televisão e o aeromodelismo, com o que é que ficava?
Com esta idade, ia ficar a fazer aviões, mas o que gostaria de fazer, e já tive um encontro com o secretário da Juventude e Desportos, era ter uma escola de aeromodelismo. Os miúdos estão a desperdiçar tanto das enormes capacidades que têm. Estão só com os telemóveis, os comandos, o que é limitativo e a nossa sociedade vai pagar por isso.

Diz que no mundo da televisão é tudo muito efémero. 60 anos de carreira não provam o contrário?
Prova que é uma exceção [ri-se].

Gostaria que me explicasse algumas expressões suas. "Ouver".
Porque os meus programas são para ser vistos e ouvidos. Quando estou a fazer o Hotel Califórnia estou a contar histórias que são visuais, num programa de rádio a palavra tem de criar imagens.

Parar significa que está na antecâmara da morte.
Tenho muito medo de parar, é a única coisa que tenho medo na vida. O parar é, eventualmente, o prenúncio de que não estarei cá por muito mais tempo.

Tem medo da morte?
Não, tenho é pena de morrer, estou muito habituado a estar vivo.


Prestígio ou fama?
Entre o prestígio e a fama tenho credibilidade, não posso desiludir ninguém.

Sente que tem credibilidade, mas diz também que se sente um quase tudo.
Um quase tudo, fui quase muitas coisas, é verdade. Mesmo em termos de profissão, nunca atingi a plenitude. Sou quase feio, mas não sou completamente feio. Portanto, sou quase em muitas coisas, sou quase um escritor, mas não sou um escrevinhador.

Escreve histórias infantis.
E não escrevo mal, tenho três livros no programa Ler +. A única coisa que definitivamente não sou, nem quero ser, é uma vedeta. É mesmo uma questão ideológica.

Diz que faz aeromodelismo para lavar a cabeça, com que outras coisas lava a cabeça?
O exercício mental de estar a inventar coisas, como sou eu que desenho os meus modelos e faço tudo, é bom para lavar a cabeça. Lavo a cabeça com as refeições com as minhas filhas e a minha mulher, quando consigo pôr o clã junto e vamos a um sítio, amanhã vamos ver Shakespeare [quinta-feira} às ruínas do Carmo, estou todo satisfeito, é a primeira vez que vamos sair na pandemia. Adoro estar junto de amigos a conversar. O belo lava-me a cabeça, um grande filme, uma grande peça de teatro.

Para quando o segundo volume da autobiografia?
Não sei, estou sempre a descobrir coisas, documentos, talvez para o 10.º aniversário do Inesquecível, o livro vai chamar-se Inesquecível. São tantas as fotografias, as memórias que me trazem, os recortes dos jornais. Guardo tudo, sou um guardador.

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