Falcão palestiniano

Condenado a cinco penas de prisão perpétua por terrorismo em 2004, Marwan Barghouti tem dedicado os anos detido em Israel a aprender hebraico. Dedicar-se à língua do inimigo é um pormenor que aqueles que o comparam a Nelson Mandela gostam de realçar, pois nas quase três décadas passadas atrás das grades o político sul-africano, campeão da luta contra o apartheid, também aprendeu africânder, o idioma derivado do holandês que falavam os mais convictos defensores do regime racista branco que durou oficialmente até às eleições multirraciais de 1994.

Embora o conflito israelo-palestiniano seja bem diferente do que se passava na África do Sul até Mandela ser libertado em 1990 e finalmente eleito presidente quatro anos depois, há uma outra analogia entre Barghouti e Mandela que, essa sim, pode ajudar a ver o preso palestiniano como uma figura com uma palavra a ter no futuro do seu povo: o antecedente de o único processo de paz digno desse nome entre israelitas e palestinianos, entre judeus e árabes, ter sido obra de Yitzhak Rabin e de Yasser Arafat. De um lado um general com fama de duro e experiência de várias guerras ganhas por Israel, do outro o líder da OLP, campeão do nacionalismo palestiniano, homem de pistola à cintura até quando era convidado a discursar nas Nações Unidas. Ou seja, dois falcões a fazer a paz, o primeiro deles até a ser assassinado por isso.

Mandela, que chegou a chefiar o braço armado do ANC, era também um falcão, mas ao negociar com Frederik de Klerk, o presidente do regime racista que depois foi seu vice, abriu caminho para uma África do Sul democrática.

O Nobel da Paz foi-lhes atribuído, tal como a Rabin e a Arafat (e a Shimon Peres), mesmo que passados quase 30 anos sobre o Processo de Oslo o legado destas negociações patrocinadas pelo americano Bill Clinton seja quase zero.

As eleições legislativas e presidenciais que tanto a Fatah (principal partido da OLP) como os islamitas do Hamas acordaram realizar neste ano, após mais de uma década de interregno eleitoral e controlo separado da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, são uma forma desesperada de os palestinianos saírem do impasse e tentarem cativar os Estados Unidos agora que Joe Biden substituiu Donald Trump na Casa Branca. É uma jogada com riscos tanto para Mahmud Abbas, o sucessor de Arafat na presidência da Autoridade Palestiniana que resultou de Oslo, como para Ismail Haniyeh, chefe do Hamas. Nenhum deles pode ter certeza de o seu campo vencer, sobretudo as presidenciais, mas quase de certeza ambos serão perdedores se Barghouti se candidatar. Todas as sondagens confirmam a enorme popularidade do palestiniano preso.

Para já, o terceiro partido que nasceu da iniciativa de um sobrinho de Arafat e de Barghouti ameaça favorecer o Hamas nas legislativas previstas para maio, pois divide o eleitorado da Fatah. Não falta até quem tente adivinhar um cancelamento por Abbas sob um pretexto qualquer. Mas se as eleições avançarem, as decisivas serão as presidenciais de julho. Como reagirá Israel se um preso se tornar presidente da Autoridade Palestiniana, alguém que, na lógica de Oslo, aceita um Estado Palestiniano nas fronteiras de 1967 ao lado do Estado Judaico? Se houver hipótese de uma negociação, haverá um falcão do lado israelita disposto a arriscar, mesmo quando a normalização com o mundo árabe avança e faz abrandar a pressão regional? Há alguma hipótese de Benjamin Netanyahu ser essa figura, mantendo-se como primeiro-ministro apesar dos problemas judiciais? Ou, mesmo sendo Barghouti eleito, nada de essencial mudará neste conflito entre israelitas e palestinianos que dura há mais sete décadas? Por alguma razão, Mandela e o que se passou na África do Sul parecem ser uma exceção no mundo e as analogias abusivas.

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