Premium João Lourenço sucede a José Eduardo dos Santos na liderança do MPLA

MPLA, partido político que está no poder desde a independência de Angola, em 1975, escolhe novo líder em congresso extraordinário neste sábado.

Foi a 26 de setembro de 2017 que João Lourenço, conhecido entre os angolanos apenas como JLo, tomou posse como presidente de Angola, sucedendo no cargo a José Eduardo dos Santos.

Quase um ano depois, neste sábado, sucede-lhe na liderança do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido que, desde a independência de Angola, em 1975, tem estado sempre no poder. JLo, de 64 anos, é o único candidato à sucessão de José Eduardo dos Santos no VI Congresso Extraordinário do MPLA.

Fruto das inúmeras exonerações que tem levado a cabo desde que está no poder, sendo a mais famosa a de Isabel dos Santos, filha do ex-presidente, da liderança da petrolífera estatal angolana Sonangol, JLo tornou-se igualmente conhecido entre os angolanos como "o exonerador implacável".

Questionado, em maio, em entrevista à RFI, sobre uma eventual perseguição ao clã Eduardo dos Santos, o presidente angolano rejeitou essa ideia e disse que "não há situações criadas intencionalmente para incriminar quem quer que seja".

João Lourenço garantiu, porém, que a luta contra a corrupção é uma das suas prioridades. "O caminho a seguir é o do combate contra a corrupção, onde já existe, e prevenir onde não existe. Essa vai ser nossa atitude daqui para frente."

Na hora da passagem de testemunho na liderança do MPLA, de José Eduardo dos Santos para João Lourenço, o sociólogo José Octávio Serra Van-Dúnem afirmou, à Angop, que se trata do início de um novo ciclo.

"A passagem da presidência do MPLA para o presidente João Lourenço assume-se como o iniciar de um novo ciclo na representação institucional de um grande partido", declarou o professor da Faculdade de Direito Agostinho Neto, enumerando aqueles que são, em seu entender, os maiores desafios seguintes do atual chefe do Estado.

"Na sua qualidade de presidente do MPLA, o desafio é claramente o rejuvenescimento do partido, a preparação dos seus quadros e a atenção ao reforço do capital humano, da maior relevância nos desafios da descentralização. Na qualidade de presidente, em primeiro lugar, continuar a acelerar as políticas sociais que decorrem da pressão demográfica subjacente a um país com uma população jovem como o nosso e com uma elevada dispersão geográfica. E continuar a diversificação da economia, algo que, para Angola, funcionará sempre como um 'seguro de vida' face ao petróleo", declarou, àquela agência, José Octávio Serra Van-Dúnem.

Quanto ao legado deixado por José Eduardo dos Santos, de 71 anos, as opiniões dividem-se. Para João Mateus Paulo "Dino Matross", ex-secretário-geral do MPLA, não foram fáceis os anos de liderança de José Eduardo dos Santos, quer como presidente da República (38) quer como líder do partido (39).

"Não foram anos fáceis. A morte [em 1979] do [então] presidente [Agostinho] Neto foi prematura, criou um vazio. Na altura, encontrámos a pessoa que podia substituí-lo e a escolha recaiu no presidente José Eduardo dos Santos", recordou, em declarações ao jornalista da Lusa José Sousa Dias.

O político enunciou alguns dos aspetos que marcaram os 39 anos de carreira política de José Eduardo dos Santos, como a "guerra que devastou" Angola, a economia em baixa, as famílias afetadas, as mortes e a mutilação de pessoas.

"O presidente, apesar de todas essas dificuldades que atravessámos - também a comunidade internacional não foi fácil na altura -, soube moldar a vida e conseguiu conquistar a paz a 4 de abril de 2002 e, a partir daí, as coisas começaram a correr de uma forma já mais harmoniosa e foi-se trabalhando para a melhoria da vida das populações."

Alcides Sakala, porta-voz e secretário para as Relações Exteriores da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), lembrou, em declarações ao repórter daquela agência, que José Eduardo dos Santos procurou manter-se no poder a todo o custo.

"José Eduardo dos Santos sempre alimentou a vontade de procurar manter-se no poder por todos os meios que tinha ao seu alcance. Esta perspetiva ficou mais vincada com a imposição da Constituição de 2010 [sem votação nominal para o cargo de presidente da República], que, naquela altura, ele próprio considerou atípica", lembrou Sakala, cujo líder histórico do seu partido, Jonas Savimbi, foi morto em fevereiro de 2002.

No entender de Lindo Bernardo Tito, dirigente da Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE), o que vai acontecer neste sábado no congresso do MPLA não é uma "transição" mas sim uma "sucessão". José Eduardo dos Santos deixa "um país numa situação extremamente difícil", declarou o responsável deste partido, ao jornalista da Lusa em Luanda.

"Hoje, todos nós estamos convictos de que a propaganda que dizia que o país tinha rumo, afinal, não tinha. Estávamos completamente num poço. Bastou o petróleo baixar e tudo veio ao de cima. Daí que vá deixar o país numa situação extremamente difícil", salientou Lindo Bernardo Tito.

Para Belamino Jelembi, o diretor da ADRA, organização não governamental criada há 28 anos, José Eduardo dos Santos deixa um legado de "passivos e ativos", com aspetos positivos e negativos. Mas a sensibilidade que o assunto impõe só permite a discussão "daqui a algum tempo, com um bocado mais de distanciamento".

O investigador e comentador da RTP África Jonuel Gonçalves, também ouvido pela Lusa, deixa antever algumas das tarefas de João Lourenço para o futuro. "Se o projeto de João Lourenço for bem-sucedido no Estado, isso repercutir-se-á no MPLA. Mas há três pontos capitais: dar mais passos na democratização, atrair investimentos para áreas económicas não tradicionais e equilibrar as contas públicas", defendeu o analista, autor de livros como A Economia ao Longo da História de Angola.

No que toca às relações entre Angola e Portugal, espera-se que estas possam vir a melhorar, nomeadamente depois da visita do primeiro-ministro português, António Costa, ao país, entre os dias 17 e 18 deste mês. Posteriormente, possivelmente no final de novembro, João Lourenço retribuirá a visita com uma deslocação a Portugal.

Em julho, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde discursou, o chefe do Estado angolano disse aos jornalistas que as relações Angola-Portugal "estão boas". Antes de vir a Portugal, JLo já esteve noutros países da UE, como Bélgica, França e Alemanha, por exemplo.

Questionado, em Estrasburgo, naquela ocasião, sobre se a visita oficial de Costa a Angola estaria condicionada pelo processo do ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, o chefe do Estado angolano afiançou que não. "Absolutamente não. Só depende do acerto de calendários. Não tem nada que ver com o processo Manuel Vicente."

Em maio, o Tribunal da Relação decidiu enviar para Angola o processo de Manuel Vicente, arguido na Operação Fizz. Esta assenta na acusação de que Manuel Vicente corrompeu o procurador Orlando Figueira com o pagamento de 760 mil euros, para que este arquivasse dois inquéritos, um deles o caso da empresa Portmill, relacionado com a aquisição de um imóvel de luxo no Estoril em 2008.

A propósito da visita de Costa a Angola, a Frente de Libertação do Estado de Cabinda - Forças Armadas de Cabinda (FLEC/FAC) emitiu um comunicado, enviado à agência Lusa nesta quinta-feira, a criticar "o silêncio cúmplice" dos portugueses em relação à situação no enclave angolano.

"Denunciamos o silêncio do governo português, em particular a cumplicidade do primeiro-ministro português [António Costa] com a Angola de João Lourenço, que reprime a população indefesa de Cabinda", lê-se no comunicado assinado por Jean-Claude Nzita, secretário para a Informação e Comunicação e porta-voz da FLEC-FAC.

"Pedimos aos países membros da CPLP, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial, que reconheçam Cabinda como membro de pleno direito da CPLP, apesar da influência do governo angolano na organização", reivindicou o responsável do movimento que luta pela independência de Cabinda, com argumento de que, segundo o Tratado de Simulambuco, o território não é parte de Angola.

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