Lições preliminares das eleições americanas

Por causa do prazo para entregar este artigo, tenho de escrevê-lo quando ainda não é conhecido o vencedor das eleições nos Estados Unidos, realizadas a 3 de novembro. No momento em que o faço, o candidato democrata, Joe Biden, está a um passo (um estado) da vitória. Mas tudo ainda é matematicamente possível, até um empate entre ele e Trump, o que criaria uma situação inusitada e complexa, mas resolúvel.

Seja como for, já há algumas lições preliminares que podem ser extraídas destas eleições.
A primeira é que o carácter decisivo da disputa eleitoral de 3 de novembro de 2020 foi confirmada pela histórica participação dos eleitores, de ambos os partidos. Como resultado, não apenas Joe Biden teve a maior votação da história das eleições americanas, superando o registo de Obama em 2008, como o próprio candidato republicano, Donald Trump, aparece logo a seguir.

A segunda lição é que ficou igualmente confirmado que as eleições constituíram uma espécie de referendo sobre a figura de Trump e que a gestão da crise causada pela pandemia da covid-19 foi o fator principal por detrás do voto individual dos eleitores (para sintetizar, os mesmos poderão ser caracterizados entre pró-confinamento e pró-abertura e foi isso o que determinou a sua escolha entre um e outro candidato). Sem ignorar, claro, temas como a economia (inevitável), o racismo e a estabilidade social (law and order).

A terceira lição é que, como previam as sondagens, parece ter havido mesmo uma onda azul (democrata). No momento em que escrevo, Biden, além de estar em condições de recuperar estados habitualmente democratas que Hillary Clinton perdeu em 2016, como Wisconsin, Michigan e mesmo Pensilvânia, está em vias de conquistar estados tradicionalmente republicanos, como Arizona e a Geórgia. Este último, a confirmar-se, talvez mereça um artigo à parte, que terá de ficar para outra ocasião. O caso do Texas, onde chegou a haver um cheirinho de virada a favor dos democratas, também terá de ser acompanhado daqui para a frente.

O ponto fundamental é que, passado o impacto causado pela vitória de Trump na Florida logo no primeiro dia do apuramento, as sondagens parecem ter-se redimido do desastre de 2016.

A quarta lição é que, apesar da provável derrota de Trump, o trumpismo fica. Duas notas sobre o mesmo: primeiro, trata-se de um movimento populista não democrático e neoautoritário (protofascista), nacionalista (no mau sentido) e xenófobo, homofóbico, negacionista e adepto de toda a sorte de teorias da conspiração, sem qualquer compromisso com a verdade factual e científica, assente no supremacismo identitário (no caso, branco) e, por conseguinte, assumidamente racista, assim como no fanatismo religioso; segundo, o trumpismo faz parte de um movimento antidemocrático, ultraconservador e autoritário verdadeiramente global, pelo que continuará a constituir uma ameaça à democracia não apenas americana, mas em todo o mundo.

Não pode deixar de ser inquietante, por conseguinte, que um tão grande número de eleitores tenha votado em Donald Trump e que, pelo mundo fora, continue a contar com a simpatia de milhões de pessoas, muitas delas transformadas em autênticos ventríloquos das suas teorias e posições delirantes. Parafraseando um autor anónimo, é óbvio que nem todos os eleitores ou simpatizantes de Trump são racistas, mas todos os racistas são seus eleitores e simpatizantes. Acrescentem-se ao racismo as demais características lhe estão associadas.

A quinta lição é que Joe Biden, caso a sua vitória seja consumada, herda um país dividido e fragilizado, quer interna quer externamente. No primeiro plano, precisa de voltar a unir a nação, prestando especial atenção a classes e grupos sociais historicamente discriminados (negros, indígenas, hispânicos e outros) e/ou afetados de modo particular pelos efeitos perversos da globalização neoliberal, assente na crescente financeirização/uberização da economia e na revolução tecnológica (as classes trabalhadoras tradicionais, sem esquecer os operários brancos das grandes cinturas industriais do país). No plano externo, terá de reposicionar-se com mais clareza no seu confronto com os candidatos a principal potência mundial, como a China, o que implicará reconstituir as suas alianças internacionais e, talvez, constituir outras, inclusive em África.

A sexta e última lição é que a América parece estar num período de transição, cujo desfecho é impossível prever. O próximo grande confronto, depois das eleições, deverá opor o trumpismo, que mantém a sua força, e os movimentos sociais que pressionam nas ruas por mais justiça social, racial e de género. A grande coalização constituída para derrotar Trump não deverá ser mantida a partir de janeiro de 2021, quando o Partido Democrata será possivelmente pressionado por certas forças internas para infletir para a esquerda, convertendo-se num partido social-democrata "à europeia" (e não "socialista" e "comunista", como alegam os ultradireitistas delirantes). A pergunta é: como se posicionará Joe Biden, um político tradicional de centro-direita?

Ele próprio já se definiu como um presidente de transição e, se eleito, talvez cumpra apenas um mandato. A dúvida é o que virá depois dessa transição. Trump já ameaçou que poderá voltar em 2024.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

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