Premium De rainha de Inglaterra a vilã: trilogia Millennium está de volta

A Rapariga Apanhada na Teia da Aranha é o regresso ao universo da trilogia bestseller Millennium, de Stieg Larsson, numa continuação da série assegurada pelo escritor David Lagercrantz. Estreia amanhã.

O corte de cabelo não mudou assim muito. Os piercings e as tatuagens também não. E as roupas escuras preservam uma identidade sombria bem vincada no estilo. Lisbeth Salander, a hacker justiceira da famosa trilogia Millennium, de Stieg Larsson, está de volta com uma diferença essencial: desta feita já não é Rooney Mara quem nos surpreende debaixo do capuz preto da protagonista, mas a atriz da série The Crown, Claire Foy (que vimos também, recentemente, em O Primeiro Homem na Lua).

Para desilusão de Mara, que chegou a mostrar-se mais do que disposta a regressar ao papel desafiante que a pôs no mapa de Hollywood, a troca aconteceu porque o novo realizador, o uruguaio Fede Alvarez, quis renovar o elenco no sentido de tornar o novo filme seu dos pés à cabeça - isto é, negando qualquer vestígio da assinatura de David Fincher, que, segundo a sua teoria de realização, estaria também associada aos atores do anterior Os Homens Que Odeiam as Mulheres (2011).

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Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Maria do Rosário Pedreira

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Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...