Premium Ajax traça a fronteira entre a esperança e o descalabro para o Benfica

O jogo desta quarta-feira na Luz é o tudo ou nada para os encarnados, que se não vencerem voltam a falhar numa fase de grupos da Champions que, dizem os números, tem sido madrasta. O futuro de Rui Vitória também poderá estar em jogo com os holandeses.

O Benfica joga nesta quarta-feira o tudo ou nada na Liga dos Campeões, naquela que é a pior fase da temporada, em que soma três derrotas consecutivas. Uma nova derrota frente ao Ajax no Estádio da Luz afasta irremediavelmente a equipa de Rui Vitória do apuramento para os oitavos-de-final e agrava ainda mais uma crise com consequências imprevisíveis. O empate coloca a equipa na rota da Liga Europa e só o triunfo permite manter o sonho da continuidade na prova milionária.

Em termos financeiros o desastre não é absoluto, pois já encaixou nesta época 45,65 milhões de euros, relativos ao prémio de presença na fase de grupos e à vitória frente ao AEK Atenas (2,7 milhões de euros), mas é certo que uma derrota significa deixar de ganhar 9,5 milhões de euros atribuídos às equipas que seguem para os oitavos, restando depois lutar com os gregos por um lugar na Liga Europa, cujos prémios são bastantes mais baixos do que na prova principal da UEFA.

As finanças e Rui Vitória

No que diz respeito à questão desportiva, o desastre é maior, depois de na época passada não ter conseguido qualquer ponto, o que originou uma enorme queda no ranking da UEFA, cuja importância é cada vez maior, pois quanto melhor for a posição maior é o encaixe em futuras entradas em fases de grupo da Liga dos Campeões. Para se ter uma ideia da gravidade da situação basta dizer que no final da temporada 2016-17 o Benfica estava na nona posição e agora ocupa o... 22.º lugar.

E o lugar de Rui Vitória ficará em risco se o Benfica não vencer o Ajax? Essa é a questão que muitos adeptos benfiquistas colocam neste momento. É bom lembrar que na semana passada o presidente Luís Filipe Vieira disse estar convencido de que não deixará o clube sem conquistar o título europeu, sendo notório que o caminho para lá chegar é bem diferente daquele que tem vindo a ser trilhado nas duas últimas épocas, pois em nove jogos a contar para a fase de grupos o Benfica apenas venceu um.

Rui Vitória tem esse fardo pesado às costas, ao qual tem de se acrescentar a fase complicada por que passa o Benfica, que está numa série de três derrotas consecutivas: Ajax e Belenenses fora e Moreirense em casa.

Álvaro Magalhães, antigo jogador e treinador dos encarnados, lembrou ao DN que "os treinadores dependem sempre dos resultados" e admitiu que o desfecho da partida com o Ajax "é muito importante" para Rui Vitória, ainda que sublinhe que "no Benfica só em último caso o presidente deixa cair o treinador". Recorda mesmo um episódio que ilustra essa sua ideia: "O Jorge Jesus perdeu três anos seguidos e na final da Taça de Portugal, em que foi derrotado pelo V. Guimarães, o Jesus foi mesmo humilhado pelos adeptos. Eu vi com os meus olhos, ninguém me contou. E o que aconteceu? Luís Filipe Vieira manteve o treinador e ganhou nos dois anos seguintes."

Défice de golos e vitórias

Há outro dado a ter em atenção que prova que o problema é ainda mais abrangente e que vai além do atual técnico. É que os encarnados têm mostrado pouca vocação desde que foi criado o formato da Champions, em 1992-93, pois em 14 participações na fase de grupos apenas em quatro delas atingiu 50% de vitórias, ou seja, três vitórias em seis partidas: uma vez com Rui Vitória (2015-16), duas com Jorge Jesus (2011-12 e 2013-14) e na primeira aparição com Artur Jorge (1994-95). Mas há mais: nunca uma equipa do Benfica conseguiu quatro triunfos nos seis jogos, sendo certo que ainda o pode conseguir nesta época, mas para isso terá de vencer o Ajax e o AEK Atenas na Luz e o Bayern em Munique.

Esta é uma situação que contrasta com os seus rivais internos, especialmente o FC Porto, que por cinco vezes alcançou quatro vitórias e por uma chegou mesmo aos cinco triunfos. E até o Sporting, que tem tido menos presenças na Champions, já alcançou por uma vez quatro vitórias num grupo da prova - foi em 2008-09, com Paulo Bento como treinador.

No que diz respeito a golos, o histórico também não é famoso, pois nas 81 partidas que o Benfica fez em fases de grupos da Liga dos Campeões marcou 88 golos e sofreu 105 e, se formos analisar cada uma das participações, apenas por três vezes terminou com saldo positivo essa fase da prova: com Rui Vitória em 2015-16 (+2), com Jorge Jesus em 2011-12 (+4) e com Artur Jorge em 1994-95 (+4).

Nesta época, o saldo está em dois golos negativos quando o Benfica tem três jogos por disputar. Há no entanto um mérito que é preciso atribuir a Rui Vitória, que nas duas primeiras épocas ao serviço dos encarnados atingiu os dez golos nos seis jogos, que é a melhor marca da equipa da Luz em fases de grupos da Champions.

Rui Vitória com pior média de triunfos

Outra situação que é preciso analisar tendo em conta o percurso encarnado na história das fases de grupos da Liga dos Campeões é o histórico de cada um dos treinadores, com Rui Vitória a ser o que tem pior média de vitórias, contabilizando apenas seis triunfos em 21 jogos, relativos a quatro participações ainda incompletas, o que perfaz uma média de 28,5% de partidas ganhas. Jorge Jesus alcançou, em cinco presenças na fase de grupos, onze vitórias em 30 partidas, totalizando uma média de 36,6%.

José Antonio Camacho, Fernando Santos, Ronald Koeman, Greame Souness e Artur Jorge apenas contabilizam uma entrada na fase de grupos da Champions, sendo este último o único que conseguiu 50% de vitórias na prova, correspondente a três triunfos e três empates, já lá vão 24 anos.

Mais do que o percurso de cada treinador na Champions, Álvaro Magalhães assume que "o Benfica tem de estar entre os melhores" do futebol europeu e nesse sentido defende que "a Liga dos Campeões é importante para o prestígio dos treinadores, dos jogadores e sobretudo dos clubes". Nesse sentido, acredita que se frente ao Ajax os encarnados "lutarem e derem o máximo em campo, os adeptos vão apoiar", esquecendo assim os últimos desaires.

Para regressar aos triunfos já nesta quarta-feira, o antigo jogador benfiquista recorda a sua experiência no campo para dizer que "a equipa precisa de ter muita força psicológica e ser uma verdadeira equipa em campo". "Neste jogo, como noutros jogos, mais importante do que jogar bem é ganhar", sentencia.

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