Sporting: Quatro projectos e um funeral

Não há critérios racionais para avaliar a decisão de Varandas, portanto restam duas opções futuras: ou será uma tremenda e histórica estupidez ou será um golpe de génio sem precedentes.

Na noite de segunda-feira foi possível ver, por breves minutos, um homem muito velho, muito triste e muito cansado na televisão. Se a televisão tivesse o volume no mínimo e o telespectador tivesse a falta de contexto no máximo, o homem poderia parecer um dano colateral do séc. XXI, vítima de uma das desgraças locais que compõem a ecologia noticiosa: veterano de uma atrocidade distante, refugiado de um exótico apocalipse. Com os seus olhos encovados, ombros desmoronados e rosto sulcado por canais profundos, podia estar a falar de genocídio numa aldeia dos Balcãs ou do naufrágio de uma lancha no Mediterrâneo. Podia estar a relatar a sua fuga noturna de um regime totalitário ou a confessar ter visto raios C a cintilar nas trevas junto aos Portões de Tannhäuser.

Não estava. As palavras que se ouviram foram "aproveito para informar que este é o meu último jogo à frente do Sporting" e o homem muito velho, muito triste e muito cansado era apenas um adulto saudável e funcional de 43 anos chamado Silas, a quem o Sporting aconteceu. O Sporting aconteceu a muitas pessoas nas últimas quatro décadas, e nem todas envelheceram dez anos em seis meses, nem sofreram esgotamentos (públicos ou secretos), nem viram a sua alma derretida em lume brando pelas chamas combinadas de mil circunstâncias inacreditáveis. Nem todas: apenas a maioria.

Porque o Sporting não acontece sempre da mesma maneira, nem apenas a uma pessoa de cada vez, podendo, em situações pontuais, acontecer de maneiras inovadoras a vários milhares de pessoas ao mesmo tempo, Silas aproveitou também para anunciar oficiosamente o novo treinador, Rúben Amorim.

"Será um grande treinador, mas vai precisar de muita ajuda", informou. "Vai precisar da ajuda de todos", acrescentou. "Desejo-lhe sorte e digo-lhe já que vai precisar de muita ajuda", esclareceu. "Vai precisar mesmo de muita ajuda", concluiu. A reiteração pode ter parecido curiosa aos olhos dos turistas, mas todos aqueles a quem o Sporting costuma acontecer reconheceram imediatamente o vocabulário operacional usado pelas pessoas a quem o Sporting já aconteceu quando falam com pessoas a quem o Sporting ainda está para acontecer.

A pessoa a quem, mais tarde ou mais cedo, o Sporting vai acontecer foi apresentada três dias depois pela pessoa que tem presidido, no último ano e meio, a alguns episódicos acontecimentos de Sporting. A apresentação correu da maneira que se poderia esperar, uma vez que Frederico Varandas foi obrigado a pronunciar sequências de palavras em voz alta, processo que, historicamente, não costuma correr bem.

Varandas fala sempre em público com a frustração abrasiva e contagiante de quem raramente consegue explicar aquilo que tenciona explicar, e como se estivesse, com muito esforço, a contar a história mais comovente da sua vida - como se estivesse, aliás, a fornecer uma resposta muito extensa e pormenorizada à pergunta que nunca ocorreu a ninguém fazer-lhe: "Quais são as causas do seu sofrimento?" Cada palavra é involuntariamente transformada numa débil proparoxítona por uma espécie de antitalento para inalar e exalar: cada frase chega ao fim não porque queria ter chegado ao fim, mas porque tem de reagir às exigências de uma emergência respiratória.

Ainda assim, fez o melhor que pode e sabe, tendo começado por recuperar a saudosa palavra "projecto". Amplamente familiar para todos os adeptos de longa data, "projecto" é um tropo importantíssimo do Sporting Cinematic Universe, um esoterismo tão célebre como "a Conversão dos VMOC" ou o "Redesenhar o Organograma da SAD": resquícios comoventes da praxis de uma antiga elite clerical que tomou em mãos a nobre tarefa de domesticar um reino de magia, superstições e estados febris com jargão empresarial. "Rúben Amorim é o homem do projecto", deste projecto em particular, que é diferente de todos os outros projectos, que mais não seja porque este projecto começou com o pagamento de dez milhões de euros ao Braga, transformando Rúben Amorim no segundo treinador mais caro da história do futebol e na segunda contratação mais cara da história do clube.

A decisão inaugural do novo projecto foi depois explicada, mas a grelha causal de explicações está agora reduzida ao habitual catálogo de rancores, ressentimentos e impulsos defensivos (o "ruído" acumulado do que se diz, a "herança", etc.), temperado com a tensão irreconciliável entre querer convencer milhares de adeptos da incandescente sapiência das suas decisões ao mesmo tempo que tenta convencê-los de que nenhumas outras decisões eram possíveis.

Um julgamento positivo sobre a competência desta direcção parece uma batalha perdida, portanto é natural que a matriz decisória se tenha adaptado, passando a contemplar estratégias esotéricas para apaziguar as várias entidades sobrenaturais que assombram a instituição. Paga-se dez milhões de euros ao Braga por Rúben Amorim porque estamos em 2020, e, portanto, sacrificar dez milhões de virgens na cratera de um vulcão não é uma alternativa viável nestes tempos politicamente correctos.

Frederico Varandas vai no sexto treinador em 18 meses: o treinador que não escolheu e não servia; os dois treinadores que tiveram de servir até escolher um que servisse; os dois treinadores que serviram até deixarem de servir; e o treinador pelo qual pagou dez milhões de euros ao Braga.

Pagar dez milhões de euros por um treinador com 13 jogos, e que há um mês e meio teria custado zero milhões de euros, não é, evidentemente, uma "decisão" de quem se acha competente para executar um "projecto", mas o gesto de quem já percebeu que não vai convencer o mundo da sua competência e a quem só resta convencer o mundo do seu génio. Vasculhando o repositório de instintos que repousam em câmara-ardente no interior da sua cabeça, encontrou aquilo que achou mais semelhante a um golpe de asa: pagar dez milhões de euros ao Braga por Rúben Amorim.

Pagar dez milhões de euros ao Braga por Rúben Amorim nunca poderá ser visto como uma decisão "competente" ou "incompetente", nem sequer em retrospectiva. Esses termos de avaliação foram excluídos pela coisa em si. Não há critérios racionais para a avaliar, portanto restam duas opções futuras: ou será uma tremenda e histórica estupidez, ou será um golpe de génio sem precedentes, que mais ninguém no mundo viu, e do qual mais ninguém seria capaz. São estas as condições do "projecto", e a pessoa que as determinou é incapaz de imaginar que mesmo a estatisticamente improvável segunda opção nunca estará relacionada com qualquer atributo seu que não o desespero.

Rúben Amorim falou depois de Varandas, e teve a vantagem automática conferida a qualquer pessoa que fale depois de Varandas: soar automaticamente como uma mistura de Guardiola, Bismarck e Martin Luther King. "Nunca esperei que alguém pagasse este valor por mim", admitiu, "mas depois aconteceu isto". O "isto" que aconteceu já foi Sporting, mas o Sporting ainda não lhe aconteceu: só lhe vai acontecer daqui para a frente. As coisas ou vão correr muito bem, por mérito exclusivo dele, e por uma conjugação adicional de milagres; ou vão correr muito mal, por motivos que terão pouco que ver com ele; ou vão correr mais ou menos, de maneiras inevitavelmente originais. O que for acontecendo à sua cara, na televisão, também poderá ser muitas coisas, mas nenhuma delas desinteressante.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG