Voltar à rua durante a pandemia. "Temos de aprender a viver com o medo"

Aprender a gerir o medo e o risco que viver implica é o que a psicóloga e psicoterapeuta Ana Moniz mais trabalha no seu consultório. Agora mais, desde que uma ameaça chamada covid-19 ativou o modo de sobrevivência com que os humanos vêm programados para responder ao perigo. Na primeira semana de "desconfinamento", falámos com a autora de Este livro não é para fracos para perceber o medo de sair de casa e como vencê-lo.

Depois de dois meses confinados, situação que a generalidade da população portuguesa aceitou e cumpriu de forma voluntária e responsável, quando se inicia o desconfinamento há muita gente que teme sair de casa. É uma reação normal
Sim. Do ponto de vista psicológico é muito mais fácil evitar situações de risco do que gerir o medo que elas provocam. O que nos foi pedido foi que evitássemos uma situação de risco, ficando em casa, e, no caso de termos que sair, seguíssemos uma série de procedimentos de proteção, nossa e dos outros.

Isto criou uma sensação de controlo sobre a situação, que nesta nova fase não tem condições para existir do mesmo modo. Ainda que eu faça o que posso e devo fazer para me proteger, não estou numa situação de risco zero e isto obriga a uma coisa, muito trabalhada em psicoterapia, que é a gestão do risco e do medo.

E como é que isso se faz, numa situação particular como a que estamos a viver?
Sabemos que vamos todos morrer e que viver tem riscos, mas a vida do dia a dia permite-nos não estar sempre a pensar sobre isso. A questão é que neste momento temos uma ameaça que torna sempre presente a ideia de que a nossa vida e a das pessoas à nossa volta está em risco.

Nunca temos tudo sob controlo, mas parece que neste momento está a ser mais difícil lidar com isso. Porquê? Estamos em estado de alerta constante porque o chamado "sistema imunitário comportamental" foi ativado e não conseguimos desativá-lo?
Foi sobreativado e está a ser ativado constantemente. E há pessoas que o têm mais sobreativado do que outras dependendo de vulnerabilidades internas e do contexto em que estão a viver.

Por exemplo, eu tenho vários pacientes que são profissionais de saúde, que estão na chamada linha da frente, e tenho ideia que os que estão a funcionar estão até dessensibilizados, porque isto já faz tão parte do dia a dia deles que não estão constantemente a pensar acerca de covid-19.

Mas, para quem esteve sempre protegido, agora fica sobreativado. É um pouco como se estivéssemos a viver a vida das pessoas que têm hipocondriase ou ataques de pânico.

"Apareceu uma nova ameaça, global, incerta e que tomou o lugar de todas as outras. Agora trata-se de também para esta ameaça, mesmo permanecendo real, aceitar risco e geri-lo, para não chegarmos ao ponto de ficarmos bloqueados no medo."

E o que é que se pode fazer para diminuir o medo?
É preciso regular para baixo. Como é que isto se faz? Criando competências que permitam aceitar o risco, tolerá-lo e geri-lo, não é uma receita fácil, é um processo.

Se nós pensássemos todos os dias, quando saímos de casa, antes de existir covid-19, nos riscos que corremos, não saíamos. Não pensamos, a maioria de nós, porque temos mecanismos de proteção que nos fazem não pensar sobre isso.

Apareceu uma nova ameaça, global, incerta e que tomou o lugar de todas as outras. Agora trata-se de também para esta ameaça, mesmo permanecendo real, como o são os acidentes de viação por exemplo, aceitar risco e geri-lo, para não chegarmos ao ponto de ficarmos bloqueados no medo.

O medo potencia moralismos, vigilância, julgamento constante sobre os comportamentos alheios e até xenofobia?
O medo traz o que temos de pior ao de cima e espero que as autoridades e o poder político não deem margem para que isso aconteça, agindo para que não exista a tentação de nos tornarmos milicianos populares.

O medo também pode trazer a necessidade do grupo, ligado pela empatia e compaixão. Gostamos tanto de heróis, daqueles que que põem a vida em risco ou desafiam situações injustas ou estão dispostos a fazer sacrifícios pelos outros e pelo bem comum, então procuremos ser todos um bocadinho heróis.

Admiramos tanto o que os profissionais de saúde estão a fazer - que passa por gerir o risco todos os dias - então, exijamos de nós também um pouco disto, um pouco de coragem no dia a dia.

"A médio e longo prazo, para bem da saúde mental, precisamos de mais do que trabalhar, precisamos de conviver, precisamos de outras coisas e isso também é prioritário e temos que nos preparar para isso."

A coragem numa situação como esta implica o quê?
Isto fez-me lembrar uma frase do Coimbra de Matos [psiquiatra e psicanalista] que vou citar de cor: "quem anda sempre a tentar controlar os outros é quem não se consegue controlar a si próprio". E é um pouco isto.

Quando não consigo controlar o meu medo, vou controlar o comportamento dos outros. A coragem é a gestão quotidiana de uma exigência enorme, que é a de viver com o medo. Não o eliminamos, aprendemos a viver com ele.

E como é que fazemos isso?
Sobretudo percebendo o que conseguimos controlar e o que é para abdicar de controlo, como fazemos quando entramos num avião. Um avião é um bom exemplo. Há ali um momento em que eu abdico de controlo, em que não posso fazer nada, isto na vida do dia a dia também nos é pedido de uma maneira menos clara, mas conseguir esta dinâmica, este balancear entre o que controlo e o que abdico de controlar é o que importa.

É fácil ir para os extremos, estar absolutamente confinado ou o contrário, para voltar à situação que estamos a viver, difícil é estar aqui no meio. E há outra coisa importante. Agora a questão é que as pessoas têm que sair para trabalhar, mas a médio e longo prazo, para bem da saúde mental, precisamos de mais do que trabalhar, precisamos de conviver, precisamos de outras coisas e isso também é prioritário e temos que nos preparar para isso.

Os danos de perpetuar o confinamento por muito tempo também existem e mesmo que não sejam visíveis agora, são graves e podem deixar marcas profundas.

"Este é um momento emocional em que estamos muito disponíveis para que limitem as nossas liberdades em prol de uma segurança, mas isso pode fazer-nos perder muita coisa."

Sobretudo nos mais velhos, a quem se pede um confinamento mais rigoroso e prolongado?
A maneira como cada um vive esta situação é idiossincrática e tem muito mais a ver com a maneira como se vive o medo ao longo da vida do que propriamente com a idade que se tem. Por isso, dizer que os mais velhos estão com mais medo ou, pelo contrário, são os que menos importância dão ao risco não é totalmente verdadeiro, cada pessoa está a viver e a gerir de maneira diferente o medo

Mas, para mim, a ideia, por exemplo, de haver alguma lei que limite realmente a vida das pessoas mais velhas, que diga que não podem sair de casa, é inaceitável. Devem ser criados mecanismos de proteção das pessoas, mas daí a coartar a liberdade é um passo grande e perigoso. E este é um momento emocional em que estamos muito disponíveis para que limitem as nossas liberdades em prol de uma segurança, mas isso pode fazer-nos perder muita coisa.

A aposta tem que ser na responsabilidade e na autorregulação de cada um?
Sim. Li no outro dia um testemunho de um médico de 70 anos que dizia que, com todos os cuidados, não deixou de visitar a mãe, que tem noventa e tal anos, e ele e os irmãos decidiram que não queriam que ficasse isolada. De facto, que sentido faz passar os últimos anos de vida em isolamento total? O que ele dizia é que o risco tem que ser uma coisa ponderada por cada um, tomando todas as medidas de proteção necessárias.

Mas dizer isso, hoje, é arriscado.
Há uma reação dérmica, sim. Eu estava a responder e a pensar que quem nos leia vai achar que sou uma incendiária, que estou a dizer para as pessoas irem todas para a rua. Mas não se trata disso, até porque as minhas decisões, neste contexto, afetam não só a mim como aos outros.

Trata-se de encontrar um equilíbrio entre controlo, responsabilidade e confiança. Se ficar em casa e desinfetar tudo dava uma sensação de controlo absoluto, a certo ponto temos que abdicar do controlo absoluto, que na verdade nunca existe, aceitar o risco e geri-lo, que é das coisas mas difíceis da vida, tomando todos os cuidados e medidas de proteção nossa e dos outros que esta situação pandémica exige.

"O confinamento teve um efeito importantíssimo, que foi mudar o mindset, porque seria muito difícil que as pessoas passassem do zero para a adoção de uma série de cuidados e medidas de proteção."

O medo incita ao comportamento de rebanho, a não aceitar perspetivas diferentes, ainda que racionais?
O medo é das coisas que mais ativa o rebanho, porque ativa o mecanismo de proteção e sobrevivência, e isso é importante quando há uma ameaça. O confinamento teve um efeito importantíssimo, que foi mudar o mindset, porque seria muito difícil que as pessoas passassem diretamente do zero para a adoção de uma série de cuidados e medidas de proteção. Agora há uma transição que tem que ser feita.

E como é que se faz?
Gradualmente. Tem que se ir gerindo e estas etapas fazem todo o sentido, mas a do "desconfinamento" é a mais desafiante, sem dúvida. Até porque há pessoas para quem - eu noto isso com alguns pacientes - o confinamento foi muito confortável, porque uma série de desafios da vida, que têm que ver com risco e exposição, desapareceram e durante estes dois meses estiveram muito protegidos. Nesta fase em que têm que voltar aos poucos à vida real, aos desafios normais acrescenta-se este, do medo de ser infetado com esta nova doença.

O que fazer para manter o medo em "níveis" saudáveis?
Cada um procurar a ajuda de que precisa, inclusivamente para esta parte de aceitar o risco e a incerteza. Nunca tivemos tanto apoio psicológico ao alcance de tantos, nem que seja pontual e em crise. E quanto mais cedo melhor.

Por outro lado, criar estratégias de gestão de ansiedade, gestão de pensamentos, gestão da respiração e cada pessoa encontrar algum conforto nos rituais que são eficazes e estar muito atento, até com as crianças, a que façam o que têm que fazer para se proteger e depois a partir daí ganhar a liberdade de deixar de pensar sobre covid-19 ou não estar sempre a pensar sobre covid-19.

Neste momento, não há outro assunto de conversa.
Ainda não, mas quando as pessoas começarem a encontrar-se provavelmente vai passar a ser o novo normal, fala-se disso um bocado, anda-se de máscara, mantêm-se as distâncias de segurança e depois então já se pode falar sobre outras coisas.

Vai ser uma transição que penso que será a vários tempos e esse é um aspecto importante: não pressionar os outros. Mesmo os empregadores deverão ter isso em conta, que há pessoas que querem voltar já e outras que não e é importante perceber como gerir a questão, pessoa a pessoa, se o trabalho permitir essa escolha.

"Os portugueses têm uma cultura muito assente em certo/errado, seguro/inseguro. O esforço é ainda maior para culturas que toleram pior a ambiguidade.

Muita gente diz que a forma que tem encontrado de enfrentar esta adversidade é viver o dia a dia, um dia de cada vez. Neste caso, isso é bom ou mau?
Viver o dia-a-dia tem um lado muito bom e um lado mais difícil, que se prende com a ambiguidade do presente e do futuro mais próximo.

Há uma experiência muito curiosa com choques elétricos em que foi dito a umas pessoas que a probabilidade de sofrerem um choque elétrico num jogo de computador era de 50 por cento e a outras foi dito que era certo que iriam receber choques elétricos. O que causava mais ansiedade era não saber se iria receber ou não um choque elétrico.

A ambiguidade é das sensações mais difíceis de gerir e nós estamos todos a viver uma situação ambígua, em termos pessoais e coletivos, sanitários e económicos. A começar pelas normas, devemos usar máscara ou não...

E resolve-se como?
É preciso perceber que o método científico é isto - testa-se e, se resulta, até melhor evidência fica-se com esta, se aparecer uma melhor, muda-se -, confiar e aceitar que não há nada aqui que vá ser definitivo. Nesse aspecto, a gestão do dia a dia é boa.

Por outro lado, há pessoas que já estão a lidar ou vão ter que lidar com dificuldades num futuro próximo, convém que possam antecipar e focar no que poderão precisar de mudar, abdicar, perder, aprender e começar já a prepararem-se para o ajustamento necessário. Mas apenas mobilizarem-se para o que podem controlar.

E não faz falta ter uma perspetiva de futuro no sentido de pensar que isto é passageiro e mais cedo ou mais tarde, a "normalidade", o que quer que isso signifique, vai ser recuperada?
Depende do que significa normalidade, mas até o pensar em probabilidades é difícil e nós não estamos muito habituados a isso. Além do mais, nós, portugueses, temos uma cultura muito assente em certo/errado, seguro/inseguro, pense na quantidade de vezes que ficamos em maus relacionamentos ou maus empregos porque temos medo da mudança... Isto é um esforço ainda maior para culturas que toleram pior a ambiguidade.

Que papel desempenha aqui a informação e como deve ser passada para que o pânico não nos controle?
Eu vejo as notícias de forma muito selecionada, mas outro dia vi um telejornal inteiro e não houve uma notícia que não envolvesse pessoas de máscara, hospitais, cuidados intensivos e mortos. Não vejo para que isto possa servir.

Passa a ideia de que estar positivo para covid-19 significa morte ou cuidados intensivos, quando mais de 80 por cento dos infetados estão a recuperar em casa e com formas mais leves da doença. Isso condiciona-nos e mantém-nos em estado de constante alerta.

Portanto, a informação deve basear-se em informação científica, validada e pedagógica no sentido de informar sobre o que as pessoas devem fazer para se proteger. Se estiverem bem informadas, estão aptas a tomar decisões responsáveis e conscientes, baseadas na sensatez e não apenas no medo, até porque uma das consequências deste é o que tem sido também noticiado de que as pessoas estão a chegar mais tarde às urgências e a morrer de outras coisas porque temem ir ao hospital mesmo quando precisam.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG