Tensão China-EUA. Economia europeia sob pressão

Hostilidades entre Washington e Pequim podem arrastar-se para lá de novembro de 2020.

Para quem espera o final do cenário de forte incerteza inaugurado em março de 2018, quando os EUA anunciaram as primeiras tarifas adicionais ao aço e ao alumínio, ainda não há boas notícias. Na Alemanha, país da zona euro até aqui mais penalizado pela guerra comercial entre EUA e China, há quem antecipe um percurso tortuoso para durar até perto de novembro de 2020, data das presidenciais norte-americanas.

Economista do banco de investimento alemão Berenberg, Florian Hensen acredita que "EUA e China irão eventualmente chegar a algum tipo de acordo comercial que amenize as tensões sobre tarifas. Ao fim e ao cabo, Trump quer ser reeleito em 2020 e é um reconhecido negociador. Mas o risco de que EUA e China falhem em chegar a um acordo parcial, ou que demore até 2020 ou mesmo mais tarde para conseguir um avanço, adivinha-se maior do que antes".

Neste ano, a economia alemã não deverá crescer além dos 0,5%, segundo a Comissão Europeia, que também reviu em baixa o crescimento da zona euro, para 1,4%. Em Portugal, "já se está a assistir a algumas pressões negativas na balança comercial", aponta o economista António Mendonça, professor no ISEG. "Está a haver uma inflexão." O Banco de Portugal espera para este ano uma balança comercial em défice.

"Portugal é um país de reduzida dimensão, muito aberto ao exterior. Tudo aquilo que se passar na economia internacional, particularmente na economia europeia, imediatamente tem uma repercussão aqui. É inevitável", nota António Mendonça.

Portugal sofre efeitos

Ainda que não sinta os efeitos diretos de tarifas aumentadas de parceiros comerciais, o país recebe os efeitos negativos da cadeia de transmissão comercial europeia e de uma retração da procura e do investimento, habitual nos cenários de incerteza. Para o economista português, o cenário é agravado pela falta de recuperação dos rendimentos da classe média e por uma fraca reação europeia ao contexto internacional. "Faz falta na Europa uma política macroeconómica integrada com características expansionistas, que não está a haver."

Os efeitos da guerra comercial China-EUA pesam já sobre a Europa há 18 meses, lembra Florian Hense. E ainda que os EUA se tenham abstido até agora de acionar tarifas sobre os automóveis europeus e o bloco tenha beneficiado de garantias de custos mais baixos à exportação por parte da China neste período, os efeitos positivos foram "ténues". A possibilidade de Trump retomar a ameaça de sobretaxar carros e componentes da UE ainda se mantém, trazendo mais ventos contrários.

Soma-se a possibilidade de estar muito mais em jogo do que uma vitória eleitoral ou uma disputa comercial. Para Florian Hense, "as tensões China-EUA estão a metamorfosear-se cada vez mais de uma guerra comercial e cambial para uma luta pela hegemonia no século XXI". Já para António Mendonça, está em causa um novo paradigma de relações económicas indefinido onde ainda ninguém sabe onde pôr o pé. E onde a Europa continua a aparecer "muito perdida".

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