Macron não é De Gaulle, mas...

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Titulava o Le Monde há uns meses um artigo sobre o desempenho do atual Presidente francês de "O general De Gaulle, grande inspirador de Emmanuel Macron". Ora, por muitas diferenças de perfil entre ambos, um militar e um financeiro, e o notório facto de Macron ter nascido já depois da morte de Charles de Gaulle, é inquestionável que estes cinco anos foram marcados por um estilo de liderança claramente inspirado no fundador da V República Francesa. Macron não só construiu à margem dos partidos tradicionais a carreira política, como tudo fez para encarnar a autoridade do Estado ao mesmo tempo que projetava para o exterior uma ideia de França forte.

As sondagens dão ao Presidente uma vantagem clara na primeira volta agendada para este domingo, sempre uma intenção de voto na ordem dos 25 a 30%. Ser necessário uma segunda volta para confirmar a escolha dos franceses é outra das tradições da V República, pois em 1965, na primeira eleição por voto universal, o próprio De Gaulle não foi além dos 44% na primeira volta.

Sem grandes dúvidas sobre a presença do Presidente cessante na votação decisiva a 24 de abril, a incógnita maior é quem será o adversário. As últimas sondagens apontam para Marine Le Pen, que conta com 21% de apoios, bastante melhor do que fazia há alguns meses, quando a candidatura de Eric Zemmour parecia dividir tragicamente o eleitorado de extrema-direita. À subida de Le Pen corresponde não só uma descida de Zemmour como também o relegar de Valérie Pécresse para apenas quinta nas intenções de voto, com menos de 10%, quando a candidata da direita clássica chegou a ser dada como a potencial adversária de Macron na segunda volta, o que abria caminho para todas as especulações possíveis sobre o resultado final da corrida deste ano ao Palácio do Eliseu. Num surpreendente terceiro lugar surge agora o principal candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, mas os 16% das sondagens é inferior ao resultado que obteve em 2017.

Na segunda volta em 2017, Macron conquistou dois terços dos votos, mas a rival Marine Le Pen conseguiu mesmo assim um resultado muito superior ao do pai, Jean-Marie Le Pen, quando este em 2002 se tornou o primeiro político da extrema-direita a comparecer ao duelo decisivo. Na época, uma união republicana levou toda a esquerda a apoiar Jacques Chirac e o presidente, oriundo da direita tradicional, até neogaullista, venceu por margem esmagadora.

A guerra na Ucrânia, e o choque entre o ocidente e a Rússia, veio marcar esta campanha eleitoral, e sem surpresa reforçou os argumentos de Macron de ser ele quem fala em nome de França com o Presidente americano e com o Presidente russo. Deu-lhe ainda oportunidade de se assumir como uma espécie de líder da UE e do pilar europeu da NATO, aproveitando a saída de cena de Angela Merkel, chanceler alemã desde 2005. Contudo, o conflito na Europa de Leste implicou também, contra todas as expectativas, uma subida de Le Pen, que consegue sobreviver a um passado de proximidade ideológica com Vladimir Putin e até é capaz, num comício, de afirmar que terminada a guerra na Ucrânia a Rússia vai continuar a existir e pode ser uma aliada na luta contra o terrorismo islâmico, que é uma das causas da extrema-direita.

Voltemos a De Gaulle e ao seu ideal de presidente sufragado pelo povo e com verdadeiros poderes executivos. Uma convicção muito pessoal, mas certamente moldada pelo que viu na III e na IV Repúblicas, dominadas pelo parlamentarismo e os jogos de interesses dos partidos. Para o general, que comandou a França Livre e incluiu o país nos vencedores da Segunda Guerra Mundial, um presidente tem de ser um verdadeiro chefe. E são famosas as suas palavras sobre Albert Lebrun, último presidente da III República, derrotada pelos nazis em poucos meses: "No fundo, para ser chefe do Estado faltavam-lhe duas coisas: que fosse um chefe e que tivesse um Estado".

Georges Pompidou, Valery Giscard d "Estaing, François Mitterrand, Nicolas Sarkozy, François Hollande, todos chegaram à presidência dita imperial, ou de inspiração bonapartista, assumindo essa condição de chefe. E Hollande, que já no Eliseu ousou ser um presidente normal, não só não se recandidatou, como viu o seu PS mergulhado numa crise de sobrevivência e impulsionou Macron, espécie de liberal que lhe servia como ministro da Economia e Finanças, para o topo onde se encontra e de onde dificilmente será derrubado.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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