Durante o longo período da que ficou chamada Guerra Fria, a liderança dos EUA, quanto aos ocidentais agrupados na NATO estava assumida, tinha clara definição estratégica, definição do agressor que obrigara a que surgissem duas meias Europas, duas Alemanhas, duas cidades de Berlim e uma vontade articulada dos Estados aliados no sentido de preservar e consolidar os valores ocidentais. Não pode omitir-se quanto à época o facto de o anticolonialismo visar sobretudo a frente atlântica europeia (Holanda, Bélgica, França, Portugal, Reino Unido), mas o fim desse império euromundista não apagava o facto de sobreviver na ordem internacional, que se "globalizava", uma importante ocidentalização das diversas áreas culturais e étnicas que se libertavam e assumiam presença nas organizações internacionais, com especial relevo na ONU, ela também criação de origem nos ocidentais. Nessa data, embora a ideologia assumida fosse a da paz, inspiradora da utopia do "nunca mais" quanto aos desastres sem precedente de duas guerras mundiais separadas pelo intervalo de vinte anos, a visão dominante pareceu porém segura do êxito. A diferença da estrutura e de poderes entre o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral, o primeiro garantindo o privilegiado veto apenas a cinco dos membros participantes nas decisões e a segunda limitada a votar orientações, tornava claro que a hierarquia dos Estados tinha o paradigma regulador no poder militar..Os Estados com maturidade histórica comprovada tinham um "conceito estratégico de conteúdo variável", facto que era sobretudo evidente quanto aos EUA e à União Soviética. A aventura do Suez, em que o poder de veto no Conselho de Segurança não impediu a humilhação da Inglaterra e da França, obrigadas a aceitar a retirada, tornava evidente que era prudente definir o conceito estratégico sem esquecer a lembrança do "conteúdo variável". Esta nota tinha em vista a variável da relação de cada Estado com a "circunstância" que o rodeava, e que frequentemente mudava sem que participasse nas causas, mas todos sofrendo os efeitos..Provavelmente foi Ortega quem melhor se apercebeu do facto, porque a ideia de que cada humano é uma história da sua relação com a circunstância que vai enfrentando abrange a entidade política, ou cultural, em que se integra. Uma das variáveis que atingiu a circunstância do projetado "nunca mais" foi que a hierarquia suposta dos Estados foi atingida por uma evolução rápida da ciência e da técnica, de tal modo que o poder perdeu a relevância exclusiva da capacidade militar, exigindo componentes que vão da ciência à economia e até da capacidade do fraco contra o forte, como foi tragicamente demonstrado pelo ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque..O globalismo em que nos encontramos parece exigir um espírito que lembre o que animou o processo das Descobertas, enfrentando os "poderes emergentes", o populismo sem projeto de governança, o uso agressivo da rede sem fios utilizada para dirigir orientações dos eleitores de outros Estados, até os valores religiosos a animar o sacrifício de fanáticos que multiplicam o sacrifício de inocentes. Entre os efeitos da circunstância que fez variar o conceito estratégico dos Estados, que salvaguardam não o dispensar, está o de mudar o conceito e os estatutos de defesa-segurança, o que significa revisão da estrutura dos governos, incluindo atenção séria às Forças Armadas, redefinição da função dos ministérios da Defesa em relação à multiplicação das áreas que animam a multiplicação das formas de ameaça, com o espírito de atenção e persistência que animou as Descobertas: prontidão para enfrentar a surpresa de cada novo encontro..A ordem desejada e expressa nos tratados em vigor é fértil em encontrar inesperadas situações de mudança da circunstância, e logo imprevisibilidade do comportamento fidelizado de todos os agentes envolvidos. Infelizmente a anarquia do processo do Brexit é uma fonte de previsíveis alterações, que implicam atenção e medidas para agressores não necessariamente militares, mas alterando a "circunstância" do conceito estratégico..Por isso o conceito governativo da "defesa" exige a capacidade organizada de o responsável ter a capacidade de coordenar o conhecimento de todas as agressões possíveis. É evidente que esta circunstância exige atenta e não fácil revisão da estrutura do governo, e até possivelmente da sua hierarquia interna, mas a evolução da circunstância internacional é tão rápida que a exigência é vencida pelo hábito. Só que neste caso o hábito é inimigo do reconhecimento da importância da mudança, vinda do exterior. A difícil organização da governança do globalismo torna a exigência de atenção mais severa.