Estreia. BlacKkKlansman: o passado é agora

Vencedor do Grand Prix, o segundo maior galardão do Festival de Cannes, o novo e brilhante filme de Spike Lee chega hoje às salas portuguesas.

Falar de BlacKkKlansman: O Infiltrado como o "grande regresso" de Spike Lee tem o seu quê de ambiguidade. Pegamos neste termo que tem dominado a imprensa internacional, com uma justíssima qualidade de louvor, apenas para esclarecer a imprecisão que contém: a ser um "regresso", isso significaria que o realizador de Não Dês Bronca esteve afastado do cinema nos últimos anos. Não é verdade. Hoje, já sexagenário, Lee continua a fazer da sétima arte a expressão de uma identidade - e poucos como ele levam tão à letra esse desígnio, simultaneamente pessoal e coletivo. O que acontece é que os seus filmes recentes não tiveram a mesma visibilidade do que este novo. E tal ideia de "retorno" é algo que incomoda o próprio Spike Lee, como confessou numa entrevista concedida à revista Time: "Ele está de volta? Onde é que eu fui? Tenho feito isto nos últimos 30 anos."

Mas, à parte a inexatidão jornalística, é mesmo preciso receber BlacKkKlansman com as devidas honras. Estamos perante uma das mais eloquentes obras deste ano cinematográfico - e a mais importante da rentrée - com a garra política e a frescura estética que caracterizam os melhores trabalhos do realizador. O projeto chegou-lhe às mãos através de Jordan Peele, o produtor (oscarizado pelo argumento de Get Out), e é baseado na história verídica de Ron Stallworth, o primeiro detetive afro-americano a trabalhar para o Departamento da Polícia de Colorado Springs, na década de 1970. Ao longo de mais de duas horas (de resto, muito bem aproveitadas), Lee encarrega-se de nos manter tão divertidos quanto tensos, para no fim estabelecer um paralelismo perturbador com a América do presente, a América de Trump - mais precisamente, mostrando imagens dos violentos acontecimentos do ano passado em Charlottesville.

Do que falamos então? De racismo puro e duro, uma vez que esta é a história do homem negro que ousou investigar, a partir de dentro, a organização racista Ku Klux Klan. Não podendo apresentar-se fisicamente - por razões óbvias - diante do grupo a que aderiu através de uma simples chamada telefónica, formou uma dupla com um colega do departamento, fazendo as jogadas mais arriscadas através de conversas ao telefone e enviando o outro aos encontros no seu lugar... Eis a dinâmica que é brilhantemente assegurada por John David Washington, um protagonista cheio de rasgo (filho de Denzel Washington), e Adam Driver; ambos num registo equilibrado entre o pragmatismo da ação e o humanismo mais idealista.

Cinema político

A contrapor ao cenário dos supremacistas brancos temos aqui também a ameaça dos Panteras Negras e, para complicar, Stallworth/Washington está apaixonado por uma jovem que pertence a esse partido. Colocado entre as duas realidades extremas, o herói acaba por afirmar uma personalidade moderada, funcionando como uma espécie de guia que nos orienta dentro das complexidades sociais, com as dúvidas que extravasam a cor da pele, e na boa companhia das referências da cultura pop. Porque é assim, com uma personagem entalada entre o preto e o branco, que Spike Lee, uma das vozes mais distintas da sociedade americana contemporânea, procura incutir a reflexão política.

Sobre isso, ainda na entrevista que deu à Time, o cineasta afro-americano diz que filmes como E Tudo o Vento Levou (1939), de Fleming, e O Nascimento de Uma Nação (1915), de Griffith - os dois que são citados em BlacKkKlansman através de excertos certeiros -, lhe foram mostrados na escola sem que as implicações sociais e políticas dos mesmos fossem objeto de discussão, para lá do elogio da técnica... Com efeito, é esta essencial dimensão pedagógica do seu cinema que se conjuga com o gesto da câmara. Digamos que o olhar de Lee é tão ferozmente temático quanto sofisticado na mise en scène.

BlacKkKlansman é então um filme que dança e nos convida a dançar com ele, ao sabor de uma época impecavelmente captada pela película de 35mm. Mas quando a música para, percebemos que a mensagem deixada é muito mais séria do que a deliciosa paródia a que fomos submetidos. O velho Harry Belafonte, na aparição que aqui faz (e que bela surpresa!), surge como o digno porta-voz dessa mensagem, isto é, desse desejo de despertar os americanos para as linhas duras da sua própria história, que se repete.

**** (Muito Bom)

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?