Turnos longos, equipamentos pesados e perdas humanas. O que dizem os profissionais de saúde aos psicólogos

Psicóloga da linha SNS 24, que já atendeu médicos, enfermeiros, assistentes e técnicos de diagnóstico aponta que pressão nos hospitais está a causar irritabilidade, choro fácil e desgaste emocional aos profissionais. Outono e inverno podem trazer desafio maior por ser uma época mais propensa a depressões e com o cansaço a acumular-se.

A Linha SNS 24 tem um serviço dedicado à ajuda psicológica para todos os cidadãos, mas no menu, antes de chegar à fala com um psicólogo, há uma opção para identificar os profissionais de saúde. Não quer isto dizer que todos escolham dar conta da profissão, mas aconselha-se que o façam para que a ajuda possa ter em conta os fatores de stress acrescidos. A psicóloga Maria Manuel Peixoto dá apoio na linha SNS 24 desde o início da pandemia e já atendeu o telefone entre dez e 15 vezes a profissionais de saúde.

Por norma, quando decidem telefonar, deixaram pouco tempo antes o hospital ou o centro de saúde onde trabalham e dirigem-se para casa. "É uma forma de balançarem as duas realidades. São uns minutinhos antes de chegarem a casa e assim falam com alguém e autorregulam-se", conta a psicóloga que trabalha em Braga. Precisam de deixar para trás o dia, não levar as preocupações para junto da família, que, muitas vezes, já está receosa com o facto de a profissão poder significar uma maior exposição ao vírus, aponta Maria Manuel Peixoto.

"As questões dos profissionais de saúde prendem-se muito com o trabalho e com a família", continua. Desabafam sobre os turnos extensos "e muito cansativos", sobre "os equipamentos de proteção individual serem muito pesados". "Depois, os profissionais de saúde têm perdido muitos doentes às suas mãos e não é fácil lidar com perdas sucessivas. Surge a sensação de fracasso", diz a especialista.

Mesmo os que não estão diretamente envolvidos no combate à pandemia de covid-19, mostram-se mais irritados, angustiados, porque os doentes crónicos à espera de uma resposta pedem-lhes contas.

Médicos, enfermeiros, assistentes operacionais e técnicos mostram-se ainda preocupados com a hipótese de levarem para casa o vírus, muitos têm filhos ou até pessoas mais velhas, como pais, de quem cuidam. Além disso, têm pouco tempo para fazer atividades de lazer, o que podia ajudar no equilíbrio emocional.

"O desgaste que a profissão tem associado acaba por se refletir em sintomas como a irritabilidade fácil, o choro fácil, algum descontrolo emocional que transparece principalmente em ambiente familiar", refere Maria Manuel Peixoto.

Irritação, choro fácil e desgaste emocional são as caraterísticas que a psicóloga mais encontra a falar com profissionais de saúde.

Um inquérito de saúde ocupacional do Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) na Universidade Nova de Lisboa, publicado em maio, que contou com a participação de 5365 profissionais de saúde, revelava que 72,2% destes estavam a sentir níveis médios a elevados de exaustão ou burnout (esgotamento emocional).

Quase metade (42,6%) destes profissionais referiam também, na altura, que dormiam menos de seis horas diárias. E que não tiveram tempo nenhum para praticar exercício físico (48,8% dos inquiridos).

Outono-inverno "pode potenciar uma nova pandemia da saúde mental"

Com o número de infeções diárias por covid a aumentar no último mês e com a época gripal à porta, Maria Manuel Peixoto alerta para um crescimento de "potenciais casos de burnout e esgotamento", não só pelo possível acréscimo de trabalho, como por "terem de ficar em casa em isolamento por causa dos filhos que vieram de uma escola onde houve casos" ou por cansaço acumulado.

"Nem todos os profissionais de saúde conseguiram tirar férias", lembra a psicóloga, que está a dar consultas a partir de casa. "Estão a acumular cansaço e há uma preocupação muito recorrente em torno das outras doenças [não covid]. Se as pessoas veem as consultas adiadas novamente, começam a agir de uma forma intempestiva, o que pode agravar o estado psicológico dos profissionais de saúde".

Maria Manuel Peixoto acrescenta ainda que este ciclo de cansaço "potencia o erro humano".

"Depois, nesta altura de outono e inverno, há uma maior propensão para as pessoas apresentarem sintomatologia mais depressiva, o que pode de facto potenciar uma nova pandemia da saúde mental", compara, recordando os primeiros tempos da doença em Portugal e o período do estado de emergência, quando foi imposto o confinamento.

A linha de apoio psicológico SNS 24 é gratuita e as chamadas não são gravadas. É um atendimento momentâneo, que não prevê uma continuidade das consultas, embora possa ser recomendado o acompanhamento nos cuidados de saúde primários. Os únicos telefonemas que têm encaminhamento imediato são as situações de urgência psicológica, como uma ameaça de suicídio. Nesse caso, é ativado o INEM. Maria Manuel Peixoto já enfrentou situações deste género na linha durante a pandemia; nenhuma dizia respeito a um profissional de saúde.

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