Premium Nadia Murad: Uma conversa difícil, em Berlim

Nobel da Paz. Nadia Murad, vítima de rapto e abusos sexuais que conseguiu fugir do Estado Islâmico e se tornou ativista dos direitos humanos e líder de um movimento de denúncia do genocídio do povo yazidi, recebeu ontem o Prémio Nobel da Paz (em conjunto com o médico Denis Mukwege). Paulo Moura conta como o sofrimento desta mulher apenas mudou - não acabou.

Quando a vi, pareceu-me uma pessoa fria. Não sorriu, e olhou-me sem expressão, quando nos sentámos naquele bar de hotel em Berlim. Nadia Murad, que tinha 25 anos quando a entrevistei, no final do ano passado, acabara de publicar o seu livro, Eu Serei a Última (editado em Portugal pela Objectiva). Após mais de dois anos de escravidão, no Estado Islâmico, conseguira fugir, e estava agora à frente de um movimento, enquadrado pela ONU e orientado pela advogada de Direitos Humanos Amal Clooney, mulher de George Clooney, de denúncia do genocídio do povo yazidi e dos crimes sexuais cometidos pelo Daesh. Mas a sua postura era a de uma mulher subjugada.

Conversámos durante cerca de uma hora, e nem tudo correu bem na entrevista. Apesar de Nadia falar inglês, o tradutor que a acompanhava, um yazidi do staff que a ONU reuniu para trabalhar com ela, não a deixava responder às perguntas. Só ele podia falar, e era notório que nem sempre traduzia exatamente o que Nadia dissera. Por vezes dava ele mesmo a resposta, antes de a jovem poder falar. Eu exigia ouvi-la, e ele acedia, contrariado.

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