Quando a França inventou e pôs as escrivaninhas na moda

A exposição A Idade de Ouro do Mobiliário Francês. Da Oficina ao Palácio é inaugurada nesta sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian. Mostra como surgiram estas peças agora dignas de museu.

Nas fotografias na sua casa de Paris é possível ver como as peças de mobiliário francês do século XVIII faziam parte do quotidiano do milionário de origem arménia que viria a deixar a sua coleção, e estas peças, à fundação com o seu nome em Portugal. Algumas podem ser vistas a partir desta sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian.

A secretária de cilindro, uma das estrelas da exposição, é "quase uma pintura", diz a curadora Clara Serra, durante a visita à imprensa. Era uma novidade da época e é muito semelhante à que foi feita para o bureau du roi, nada menos do que o escritório do rei Luís XV, em Versalhes, realizado por Jean-François Oeben, um dos mais prestigiados marceneiros da época, entendido em madeiras mas também em serralharia e mecânica. De origem alemã, como muitos que acabariam por se fixar em Paris nesta época, morreu antes de ver o trabalho terminado - a encomenda foi feita em 1760 e terá sido concluída nove anos depois pelo seu sucessor, Jean-Henri Riesener, também de origem alemã. É ele que assina a mesa que pertenceu a Calouste Gulbenkian e quem, após a morte do mestre, completa o escritório do rei.

"Este é o auge. Crescem as encomendas da elite"

No século XVIII, quando os reis redecoram os seus palácios e petits apartments, é ao departamento administrativo do mobiliário real (garde-meuble de la couronne) que cabe a escolha de quem produz e o quê. "Uma nomeação oficial como ébéniste du roi (ebanista do rei) era garantia de prosperidade e sucesso", escreve, no catálogo da exposição, Helen Jacobsen, conservadora de Artes Decorativas Francesas do século XVIII da Wallace Collection, em Londres. É lá que esta mesa de madeiras exóticas de 1773, encomendada para a condessa de Provence, irmã do rei, será vista no próximo ano numa exposição dedicado ao mobiliário desta época.

"Este é o auge", sublinha Clara Serra sobre a produção de marceneiros e ebanistas franceses, ("muitos vinham dos Países Baixos ou da Alemanha"), que produziram este mobiliário ainda hoje replicado. Do reinado de Luís XIV à Revolução Francesa vive-se um momento de estabilidade política, explica. "Desenvolveu-se uma elite endinheirada que procurava aliar a estética ao conforto, que queria renovar os interiores. Crescem as encomendas de uma elite muito exigente e sofisticada. Os marceneiros tiveram de arranjar soluções técnicas." Entre eles, está Madame Pompadour, grande patrocinadora das artes, a quem pertenceu uma das peças que podem ser vistas na exposição. Azul e com motivos de chinoiserie, documenta o gosto da época.

As madeiras são cada vez mais exóticas, oriundas da Ásia e da África, ao sabor das novas rotas comerciais, é o auge do uso dos bronzes e das porcelanas de Sèvres. A influência cruzou fronteiras - uma das mesas em exposição pertenceu à família real. Depois do Palácio das Necessidades, está agora no Museu de Arte Antiga. No mobiliário de qualidade não existem pregos, apenas encaixes. Chegam a escrever-se tratados: quatro volumes de André-Jacob Roubo com tudo o que os artesãos precisavam de saber.

Como chegar a ser marceneiro

Marceneiros, aqueles que trabalhavam a madeira maciça, e ebanistas, aqueles que trabalhavam o revestimento (e que se tornam populares no século XVII - com madeira, locais ou exóticas, ou porcelana -, pertenciam à mesma corporação cheia de regras e requisitos, "garantindo assim mais qualidade", nota Clara Serra. Chegar a ser um artesão respeitado e de prestígio era trabalho de muitos anos, "tinha períodos muitos longos de aprendizagem, começava-se muito cedo, com 13 ou 14 anos, a dormir nas oficinas e armazéns", conta Clara Serra, diante da maquete construída no século XVIII, para ensinar aos alunos das elites os ofícios.

"Os que conseguiam fazer a sua obra-prima podiam submetê-la a um júri da corporação, que a apreciava. Se cumprisse os requisitos, tinha um ferro que a marcava com as letras JME - jurande des menuisiers ébénistes. Era esta a estampilha oficial da corporação dos ebanistas e marceneiros. Muitos, porém, nunca passavam de aprendizes ou assalariados, marceneiros anónimos, alguns dos quais trabalhando fora do sistema. Outros conseguiam o título por via do casamento com a viúva do mestre. Foi o caso do autor da secretária cilíndrica, que se casou com a viúva Oeben.

Desenhos que se perderam no tempo

Na origem dos modelos de marceneiros e ebanistas estão os desenhos de arquitetos e ornamentistas. Alguns estão em exposição na Gulbenkian, mas a larga maioria, sobretudo o desenho técnico usado nas oficinas dos mestres, não chegou aos nossos dias. E, se chegou, pode estar desbotado pelo tempo e pelo uso como aquele que detalha os pormenores de construção da pequena secretária de senhora que ainda hoje é replicada na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (FRESS), parceira da Fundação Calouste Gulbenkian nesta exposição. De lá vieram ferramentas e também uma bancada de trabalho, um local tão importante para o artesão que Roubo lhe dedica um capítulo nos seus tratados.

Da oficina ao palácio (como se diz no título), a exposição que agora se inaugura vai da rudeza das madeiras - exibida nos troncos, nas ferramentas e até na bancada do marceneiro - à sofisticação do produto final - mobiliário francês de grande qualidade.

"A nossa coleção é muito boa, aqui é uma oportunidade para saber mais", diz a diretora do Museu Gulbenkian, Penelope Curtis. A conversa, diz Clara Serra, não acaba aqui. "A galeria do século XVIII do museu é uma continuação desta exposição."

Exposição A Idade de Ouro do Mobiliário Francês. Da Oficina ao Palácio.
Fundação Calouste Gulbenkian
Galeria do piso inferior
Avenida de Berna, 45A, Lisboa
De 6 de março a 1 de junho, das 10.00 às 18.00, exceto às terças-feiras.
Bilhete: três euros

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG