Beijos e abraços

Quando fui ao Japão, impressionou-me muito ver crianças pequenas sozinhas na rua a caminho da escola. Explicaram-me que o país era seguro, pelo que as crianças não corriam qualquer perigo; fosse como fosse, estranhei que as mães não preferissem levá-las pela mão até poderem deixá-las noutras mãos. Explicaram-me que no Japão o contacto físico não é comum, pelo que as crianças não acusariam assim tanto a ausência das mães.

As pessoas da minha família - nas três gerações em vigor - são todas beijoqueiras; e algumas ainda acumulam essa prática com o hábito de abraçar ou passar a mão pelo pêlo (não, não é uma metáfora). A mim e aos meus irmãos não faltou mimo - e às vezes penso em como o meu pai, se fosse vivo, seria infeliz nos tempos que correm, em que é preciso pensar antes de tocar em alguém, não vá o gesto ser mal interpretado.

Os bebés são as principais vítimas deste tipo de receios. Não só tocar-lhes e abraçá-los é a primeira forma de comunicar com eles, como contribui para que se desenvolvam e se sintam seguros - e é por isso que tantos pais os embalam ao colo. Colo, aliás, que é fundamental nos prematuros, para os quais muitos hospitais têm um serviço de voluntariado que se traduz apenas em pegar-lhes e abraçá-los. Existe até uma comovente reportagem sobre um viúvo que reencontrou um sentido para a vida num hospital pediátrico abraçando recém-nascidos e cantando-lhes com voz de caramelo.

E, porém, a sociedade actual não promove especialmente o contacto físico (tenho a sensação de que os jovens, sempre de telemóvel na mão, afagam pouco os pais, os avós, os irmãos, os amigos). O facto de terem sido escancarados actos pedófilos, violações e outros abusos cometidos por pessoas acima de qualquer suspeita (da Igreja, do showbiz, da política...) criou regras tão apertadas que, há umas semanas, numa maternidade norte-americana, um pai abraçou sem permissão o filho recém-nascido e teve de pagar uma multa, além dos 13 mil dólares que lhe custara o parto. Li também que, em processos de divórcio litigioso, muitos pais já não sentam os filhos pequenos ao colo com medo de serem acusados pelas mulheres de abusarem sexualmente deles. E a filha de uns amigos, que foi para a Califórnia tomar conta de crianças numas férias, contou que, quando um dos miúdos caiu e desatou num pranto, a aconselharam a não lhe pegar e muito menos a consolá-lo com beijinhos. Credo, já chegámos ao Japão? Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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