"Plano de vacinação nunca estará fechado. A sua atualização e revisão terá de ser permanente"

Francisco Ramos já foi secretário de Estado da Saúde cinco vezes, agora foi nomeado pelo Governo para mais uma missão pública: a de coordenar a task force que irá gerir o processo de vacinação contra a covid-19. Ao DN, assume que o plano definido é o adequado à população portuguesa.

No dia em que completou 64 anos, Francisco Ramos, formado em Economia no Instituto Superior das Ciências e do Trabalho e diplomado em administração hospitalar, pela Escola Nacional de Saúde Pública, esteve em frente aos ecrãs de televisão a apresentar o Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19. A missão foi-lhe entregue há pouco mais de duas semanas e depois de ter sido nomeado pelo Governo coordenador da task force que vai gerir todo o processo.

É uma tarefa que é um desafio, mas Francisco Ramos diz estar habituado, pela carreira que percorreu até agora no serviço público. "Trabalhar sob pressão e à pressa não é novo nem estranho para mim", afirma ao DN no mesmo dia, quinta-feira 3 de dezembro. Diz estar confiante por estar a trabalhar em colaboração com a Direção-Geral da Saúde, um organismo que muito tem feito pela saúde dos portugueses, e com as Forças Armadas.

Francisco Ramos - que já ocupou por cinco vezes o cargo de secretário de Estado da Saúde em Governos do PS, começou com Maria de Belém Roseira, depois com Manuela Arcanjo, Correia de Campos, Ana Jorge e, a última vez, entre outubro de 2018 e outubro de 2019, na equipa de Marta Temido - assume em entrevista ao DN que o plano de vacinação apresentado é o adequado à população portuguesa e à disponibilização de vacinas.

O mais importante será gerir o processo perante as incertezas e ganhar a confiança, porque "os portugueses têm de confiar no processo científico e aceitar a vantagem da vacinação". E garante: "Os 22,8 milhões de doses que é previsto chegarem a Portugal no próximo ano são mais do que suficientes para vacinar toda a população." O plano não está totalmente fechado, a sua atualização deverá ser permanente.

A primeira versão foi apresentada agora, mas no dia 17 será divulgada uma versão com mais pormenores. Do que já se sabe, a vacinação será voluntária e gratuita, e a Portugal, como aos Estados membros da União Europeia, vão chegar vacinas de seis empresas: Pfizer, Moderna, Universidade de Oxford e AstraZeneca, Johnson & Johnson e CureVac.


Apresentou o Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19. Há uma semana foi criticado o facto de o grupo dos idosos não estar incluído na primeira fase, critério que mantém. O plano que apresentou é o adequado à população portuguesa?
É o plano adequado à população portuguesa e à disponibilidade de vacinas que estamos a prever ter nesta primeira fase. O que está previsto é que 950 mil portugueses - idosos residentes em lares, os profissionais destes, os profissionais de saúde e de outras profissões de risco, como forças de segurança - sejam vacinados na primeira fase e 2,5 milhões na segunda. Os idosos serão vacinados nesta segunda fase. Se não houver nenhum imprevisto, receberemos quatro milhões de doses no primeiro trimestre de 2021 e nove milhões no segundo - é o que está calendarizado. No total serão 22,8 milhões de doses, que são mais do que suficientes para toda a população portuguesa, dão para mais de 11 milhões de pessoas.

E se não correr bem? Há algum outro cenário equacionado? A vacinação terá de parar?
Confesso que esse cenário com um espírito tão pessimista não foi consignado. E não vejo qualquer razão plausível para que possa acontecer. Os cenários consignados tiveram em vista a capacidade de produção. Se as empresas aumentarem a sua produção em relação ao previsto, temos um cenário preparado para conseguir antecipar a vacinação; se a capacidade de produção das empresas se tornar um pouco mais lenta, temos um cenário para se conseguir adiar a vacinação e gerir as expectativas. Agora, parar a vacinação é um cenário que não está de todo em cima da mesa.

Quais os objetivos que estiveram na base deste plano?
A vacinação tem como objetivos reduzir a mortalidade, os internamentos em unidades de cuidados intensivos, o impacto no sistema de saúde e conseguir controlar os surtos existentes em lares e em outros serviços para se minimizar a repercussão na sociedade e preservar a capacidade de resposta dos serviços considerados essenciais.

Estes critérios determinaram uma primeira fase com idosos em lares e em unidades de cuidados continuados?
Estes objetivos levam a que, numa primeira fase, sejam vacinadas 950 mil pessoas incluídas em populações de risco (como já disse, os residentes em lares e os profissionais destes), os internados em unidades de cuidados continuados e, naturalmente, os profissionais destas instituições, bem como profissionais de saúde e de segurança, tendo em conta a preservação da capacidade de funcionamento de serviços essenciais. Esta fase integra ainda as pessoas com 50 anos ou mais que sofrem de patologias como insuficiência cardíaca, doença coronária e doença renal, doença respiratória crónica com suporte ventilatório. A integração deste grupo de pessoas logo na primeira fase decorre de uma análise à mortalidade provocada por covid-19, e depois de se ter verificado que são as patologias que mais estão associadas aos internamentos e à mortalidade pela doença. Ou seja, das 950 mil que vão ser vacinadas, 250 mil pertencem ao grupo dos lares, 400 mil ao grupo de pessoas com mais de 50 anos e com morbilidades associadas e 300 mil profissionais.

De acordo com o que anunciou, a segunda fase irá integrar 2,5 milhões de portugueses, e é aí que estão incluídos os idosos.
Os idosos estão incluídos nesta fase. Serão vacinados 1,8 milhões de pessoas com mais de 65 anos, bem como pessoas a partir dos 50 com patologias e morbilidades associadas, por exemplo diabetes, neoplasia maligna ativa, insuficiência renal crónica, insuficiência hepática e outras patologias que ainda poderão a vir ser definidas. Estamos a falar da vacinação de 2,5 milhões de pessoas. Nesta fase vão ser vacinados também profissionais de serviços críticos, embora ainda não haja uma completa definição sobre o que são estes serviços, mas estamos a falar de abastecimento de água, de eletricidade, etc. Aliás, será feita legislação para definir tais serviços cruciais.

"Se houver restrições no abastecimento de vacinas, se este processo for mais lento, eventualmente teremos de definir uma quarta fase com uma lista de grupos prioritários".

O plano está dividido em quantas fases?
Neste momento está dividido em três fases, se forem cumpridos os calendários de abastecimento de vacinas, na terceira fase será vacinada o restante da população. Se houver restrições no abastecimento de vacinas, se este processo for mais lento, eventualmente teremos de definir uma quarta fase com uma lista de grupos prioritários.

Então o plano não está fechado...
Este plano nunca estará fechado. Prometemos uma versão final a 30 dias, é o que prevê o despacho da criação desta task force, e iremos apresentá-la no dia 17, mas toda a estratégia tem de ser revista de forma permanente, porque a informação não para. Há dias não sabíamos que a vacina da Pfizer iria ser aprovada pela Agência do Medicamento do Reino Unido, agora já podemos contar isso. É mais um dado muito positivo. A capacidade de atualização e de revisão deste plano tem de ser permanente, o que quer dizer que a coordenação deste processo também vai ser dura e exigente.

Até agora, o que é que foi mais difícil de decidir? Os critérios de vacinação?
Os critérios foram propostos pela Comissão Técnica da Direção-Geral da Saúde, validados por esta task force e homologados pelo Governo, estão alinhados com as recomendações do Centro Europeu de Controlo de Doenças e coincidem com a generalidade dos países europeus que já definiram um plano de vacinação.

A incerteza é o que me preocupa mais. O processo vai ser duro e exigente.

Neste processo todo, o que é que o preocupa mais?
A incerteza. Termos de trabalhar, termos de tomar decisões e de assumir compromissos sem, por vezes, termos a certeza rigorosa do que estamos a viver. Dou-lhe um exemplo muito prático: no início da pandemia, a informação científica que havia era a de que as máscaras não deveriam ser usadas por serem um elemento de falsa segurança, mas ao longo da pandemia a ciência veio a demonstrar que as máscaras eram úteis. Portanto, o que me preocupa mais é termos de tomar decisões sem podermos esperar pelas certezas absolutas.

E quais são as suas expectativas?
Estou confiante, sobretudo por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, porque quem está à frente deste trabalho é a Direção-Geral da Saúde, que há mais de 120 anos protege a saúde dos portugueses, e com um enorme sucesso. E quando a poeira assentar, e a análise sobre este ano de 2020 for feita, vamos perceber que a situação em Portugal foi bem mais positiva do que a de outros países que nos estão muito próximos. Em segundo, porque a colaboração das Forças Armadas neste processo dá-nos uma grande tranquilidade. Estou confiante porque acho que temos instituições à altura para responder ao trabalho que os portugueses esperam e merecem.

Relativamente a esta última questão, a vacina vai ser administrada nos centros de saúde. Há capacidade para isso?
Os primeiros 950 mil portugueses a serem vacinados estão em lares, em unidades de cuidados continuados, e são também os seus profissionais, por isso vamos ver se as equipas de enfermagem destas instituições têm capacidade para o fazer, independentemente de haver equipas dos centros de saúde que se irão deslocar a estas instituições também para fazerem vacinação. Os profissionais de saúde serão vacinados no âmbito dos serviços de saúde ocupacional e nos locais onde trabalham. Os restantes 400 mil portugueses serão vacinados nos centros de saúde. E porquê aqui ? Porque aqui temos 40 anos de experiência de um Programa Nacional de Vacinação, circuitos definidos e cerca de 1200 pontos de vacinação distribuídos por todo o país. Ou seja, há uma estrutura que está testada e que merece confiança.

Mas tem-se dito que a rede dos centros de saúde poderá não chegar para uma vacinação em massa...
Nas fases subsequentes poderemos ter de expandir a rede de pontos de vacinação. É um trabalho que ainda vamos ter de fazer, mas esta primeira fase de vacinação, na melhor das hipóteses, ocupará janeiro e fevereiro, devendo a segunda fase começar em março, e será nos centros de saúde. Até lá ainda temos algum tempo para definirmos como vamos expandir esta rede e com que critérios.

"Estamos a preparar um centro de contacto habilitado para prestar todas as informações relativas à marcação da data e do local para a vacinação".

Uma pessoa que reúna os critérios definidos no plano e queira ser vacinada, o que deve fazer, aonde se deve dirigir?
Em princípio não terá de fazer nada. Ou seja, estamos a tentar que exista uma gestão centralizada para todo o processo da vacinação por forma a ser possível que essas pessoas sejam contactadas por este serviço para agendar o seu dia e o local de vacinação. De qualquer forma, as pessoas que tenham um relacionamento mais direto com o seu centro de saúde poderão sempre dirigir-se a este e pedir informação.

O que é que vai implicar esse processo centralizado?
Estamos a preparar um centro de contacto habilitado para prestar todas as informações relativas à marcação da data e do local para a vacinação. Por exemplo, quem não usa os centros de saúde será também ali vacinado, mas terá de apresentar uma declaração médica a atestar a sua inclusão nos grupos de risco, e assim poderá obter a marcação de uma data para a vacinação.
Já referiu o papel das Forças Armadas e a forma como estão a apoiar este processo em logística.

Está tudo definido em relação à distribuição, aos pontos de armazenamento (as vacinas têm de estar a menos de 70 graus)?
A participação das Forças Armadas é um dos fatores que geram confiança neste processo, em termos pessoais dá-me uma enorme tranquilidade e a confiança de que as coisas vão correr bem. Neste momento, estamos a trabalhar para se estabelecer um ponto de comando de controlo central para se definir pontos de distribuição e de armazenamento, eventualmente haverá necessidade de se criar subunidades a nível regional, mas tudo isto ainda está a ser trabalhado. Dentro de duas semanas, quando apresentarmos este plano de forma mais detalhada, já haverá esta informação, mas naturalmente que envolverá a cadeia logística de distribuição de medicamentos. Ou seja, não será preciso reinventar a roda, quando temos a roda à nossa disposição.

Normalidade no verão? "Se a vacinação cumprir o que promete em termos de eficácia, penso que isso poderá acontecer."

Há já quem diga que no verão regressaremos à normalidade. Espera que isso aconteça?
Espero que se isso não acontecer não seja por atrasos no processo de vacinação, mas se a vacinação cumprir o que promete em termos de eficácia, penso que isso poderá acontecer.

Neste processo todo, o que é que não pode falhar?
A chave deste processo é gerir a incerteza, porque ainda há muitas, mas também sermos capazes de gerar confiança. A confiança é de facto o instrumento-chave. A vacina aparece como possível solução para a pandemia, e é o equilíbrio entre a incerteza e o ganhar a confiança de todos que será fundamental para que o processo de vacinação corra bem.

Esta task force foi nomeada há pouco mais de duas semanas. É um grande desafio, uma corrida contra o tempo?
É um desafio, mas para mim, que felizmente consegui ter uma vida de trabalho no serviço público, não é novo nem estranho trabalhar sob pressão e depressa.

O que diz sobre as críticas de que este grupo de trabalho foi nomeado tardiamente?
Discordo completamente. Ainda não temos nenhuma vacina no mercado, portanto acho que estamos completamente a tempo. Haverá sempre, e como já ouvi hoje [3 de dezembro], quem, como na fase áurea de Portugal e as Caravelas, fique no Restelo a lamentar que era prematura a sua partida ou que já estavam atrasadas. Faz parte da nossa forma de ser.

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