Os condutores portugueses "bebem exageradamente e não têm problema nenhum em pegar no carro e ir para a estrada". Este comportamento de risco é denunciado ao DN pelo tenente-coronel Paulo Gomes, responsável pela Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária da GNR, e confirmado pelos dados oficiais da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária referentes ao primeiro semestre de 2018..Nos dados a que o DN teve acesso conclui-se que nas multas passadas por condução com excesso de álcool - a partir de 0,5 gramas de álcool por litro de sangue - mais de metade foi a condutores com taxa entre 0,8 g/l e 1,19 g/l. Ou seja, no limiar de o automobilista poder ser acusado de praticar um crime (igual ou acima de 1,2 g/l)..Uma atitude de pouca preocupação com a condução após o consumo de bebidas alcoólicas que as campanhas de sensibilização das autoridades, onde se inclui a do projeto 100% Cool, não parecem ser suficientes para alterar..É no sentido de tentar modificar este comportamento que a iniciativa da Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas vai reforçar as ações de sensibilização no Algarve em conjunto com a GNR. Tendo como público-alvo os condutores até aos 35 anos, as brigadas 100% Cool premeiam, por exemplo com vouchers de desconto em gasolineiras, os automobilistas que acusam taxa zero nos testes efetuados nas operações da Guarda.."As pessoas têm de ter a noção de que condução e segurança não são sinal de consumir bebidas alcoólicas", adiantou o tenente-coronel Paulo Gomes, lembrando que a GNR tem feito um esforço de sensibilização para os perigos de "juntar" estas duas componentes, nomeadamente nas redes sociais, onde a Guarda "chega a muita gente"..Diz que esse esforço tem tido alguns resultados, pois a tendência dos últimos três anos tem sido a de diminuição de condutores apanhados com taxas de álcool no sangue punidas com contraordenações - entre 0,5 g/l e 1,19 g/l..Reconhece, no entanto, que há um problema por resolver pois há muitos automobilistas a "beber mesmo muito". "Esta questão do álcool e a condução é mais cultural e de civismo do que de ação policial ou de fiscalização. As pessoas têm de ter em consideração que, para não termos mortos nas estradas, os condutores têm de adotar condução segura", frisou o responsável da GNR..O alerta que ganha mais ênfase neste período de verão, meses em que, segundo Paulo Gomes, "a probabilidade de apanhar condutores alcoolizados é maior do que no inverno".."As pessoas têm de mudar"."Os automobilistas têm de mudar. Enquanto não o fizerem, não alterarem os hábitos, é complicado. As pessoas têm de ter uma condução segura e não prejudicar terceiros. Têm de ser alertadas de que associar álcool à condução é uma má ideia", frisou..A verdade é que nos primeiros seis meses de 2018 continuou a existir uma maioria de condutores a ser detetados nas operações da GNR com taxas de álcool consideradas muito graves. Neste período, dos 8993 automobilistas multados por conduzirem alcoolizados, mais de 5400 tinham entre 0,5 g/l e 1,19 g/l..Esta tendência existe pelo menos desde 2014, de acordo com os dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária consultados pelo DN - nesse ano, foram passadas contraordenações por terem taxa considerada muito grave a 9762 condutores em 17 044 que acusaram consumo de álcool acima do legalmente permitido; em 2015, foram 13 222 em 22 035; em 2016, 12 250 em 20 686; e, no ano passado, 16 103 em 26 985..Neste período de férias a GNR lembra que há muitos acidentes que acontecem quando as pessoas já chegaram aos seus destinos. "Quando se chega ao destino as pessoas têm a tentação de ingerir bebidas alcoólicas e fazer pequenos trajetos, e essas viagens são, por vezes, fatais", acrescentou o chefe da Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária da GNR..As taxas e as contraordenações.Em Portugal, a legislação prevê dois tipos de multas para condutores detetados com álcool. As penas são agravadas nos casos de pessoas com carta de condução há menos de três anos, condutores de veículos de socorro, de serviço urgente, de transporte coletivo de crianças, táxis e de automóveis pesados ou de mercadorias perigosas. Nestes casos, o limite permitido de álcool no sangue baixa para 0,2 gramas por litro de sangue..- Se a taxa de alcoolemia for entre os 0,5 g/l e 0,8 g/l o condutor terá de pagar uma contraordenação considerada grave. Neste caso, pode ser punido com a proibição de conduzir por um período de um mês a um ano, a uma multa de 250 euros a 1250 euros e a redução de três pontos na carta de condução..- Se a taxa for entre 0,8 g/l e 1,2 g/l estará a incorrer numa contraordenação muito grave, o que implica a proibição total de conduzir por um período que pode ir dos dois meses aos dois anos, uma multa no valor entre os 500 a 2500 euros e a redução de cinco pontos na carta de condução..- A partir dos 1,2 g/l, é considerado crime, punido com pena de prisão até um ano ou multa até 120 dias, além da inibição de conduzir por um período de três meses a três anos. Implica também a perda de seis pontos na carta de condução..Neste caso, também se tem registado uma diminuição de automobilistas apanhados com esta taxa ou superior, segundo a GNR. Desde 2010, o pior ano foi 2013, quando foram detetados pelos militares da Guarda 13 494 condutores. A tendência tem sido de redução e 2017 terminou com 9755 pessoas apanhadas com esta taxa, num total de 24 941 detetadas com mais de 0,5 g/l..No ano passado, 35,5% dos condutores que morreram em acidentes de viação tinham mais de 0,5 gramas de álcool por litro de sangue, o máximo permitido por lei. Um valor bastante acima dos 29,3% registado em 2016 e dos 31,8% de 2015..Segundo o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, que autopsiou 279 condutores, mais de 99 automobilistas ultrapassavam a fasquia dos 0,5 g/l, dez tinham menos de 0,9 g/l, 20 com até 1,20 g/l e 69 condutores tinham mais de 1,2 gramas de álcool por litro de sangue, taxa que permitiria que fossem condenados a pena de prisão.