Premium Sahra, o rosto do novo movimento de esquerda anti-imigração alemão

O objetivo do Aufstehen (De Pé) é combater a extrema-direita e reunir os eleitores desiludidos do SPD, dos Verdes e até do Die Linke, onde milita a líder Sahra Wagenknecht. Anunciado há cerca de um mês, já conta com cem mil simpatizantes.

Três anos depois de a chanceler alemã ter aberto as portas aos refugiados e numa altura em que os temas migratórios estão de novo em debate por causa dos protestos contra e a favor em Chemnitz, surge um novo movimento de esquerda que defende um limite à "imigração económica" na esperança de recuperar os votos perdidos para a extrema-direita nas eleições de 2017.

O Aufstehen (De Pé ou Levantar), liderado pela deputada Sahra Wagenknecht, quer reunir os eleitores de esquerda desiludidos com os sociais-democratas do SPD, parceiros de governo de Angela Merkel, mas também dos Verdes e do Die Linke (A Esquerda). O objetivo é combater a extrema-direita populista da Alternativa para a Alemanha (AfD), que se tornou o terceiro partido no Bundestag (12,6% dos votos e 94 deputados). A esquerda alemã, dividida, conquistou menos de 40% dos votos em 2017.

O movimento alemão pode inspirar-se no espanhol Podemos, de Pablo Iglesias, no francês A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, no britânico Momentum, que apoia Jeremy Corbyn dentro do Labour, e até nas ideias de Bernie Sanders. Mas difere de todos eles precisamente pelo seu discurso anti-imigração.

O rosto do movimento

"Lutadora temida, convidada regular nos programas de debate na televisão, onde a sua beleza severa e o seu discurso mordaz fazem maravilhas, ela desfruta de uma exposição nos media inversamente proporcional ao seu peso político", escreveu o Le Monde sobre Wagenknecht, de 49 anos. Para alguns dos seus críticos, refere o jornal francês, este novo movimento de esquerda surge pelo "desejo de emancipação de uma deputada com uma ambição devoradora, muito apertada no seu próprio partido".

No Bundestag desde 2009, Wagenknecht cresceu com os avós na comunista Alemanha de Leste (cuja memória ainda hoje defende). Filha de uma artista alemã, praticamente não conheceu o seu pai, um estudante iraniano que desapareceu numa viagem ao país natal quando ela tinha 3 anos.

É casada com Oskar Lafontaine, ex-líder do SPD e antigo ministro das Finanças de Gerhard Schröder na primeira coligação "vermelha e verde", deixou o governo por causa das suas políticas neoliberais, acabando por criar depois o Die Linke. Wagenknecht é copresidente do grupo parlamentar do partido no Parlamento alemão.

Mas muitas das suas posições, mais à esquerda do que a de muitos companheiros, vão contra a linha oficial partidária. Assim, assume-se como "marxista", quando já poucos o fazem, e há anos que denuncia a "ingenuidade" da esquerda em relação às questões migratórias, tendo após o atentado contra o mercado de Natal de Berlim, em 2016, condenado a "abertura incontrolada das fronteiras". Além disso, defende o governo russo de Vladimir Putin e critica a União Europeia e a NATO.

Lafontaine, amigo pessoal do francês Jean-Luc Mélenchon, disse à agência alemã DPA que o objetivo do novo movimento é oferecer uma plataforma aos eleitores de esquerda que não se sentem representados pelos partidos tradicionais. O Aufstehen espera ainda "deter a migração para a AfD e talvez revertê-la". O movimento já tem mais de cem mil seguidores registados através da sua página de internet, criada no início de agosto.

"Estou muito impressionada com a quantidade de pessoas que se registaram", afirmou Wagenknecht, na apresentação oficial do Aufstehen, ao lado do ex-líder dos Verdes, Ludger Volmer, e de Simone Lange, a presidente da Câmara de Flensburg, que antes do verão foi candidata à liderança do SPD.

"Com mais de 80 fundadores, entre os quais Simone Lange e Ludger Volmer, e mais de cem mil apoiantes, é oficialmente lançado hoje o movimento Aufstehen!", escreveu Wagenknecht no Twitter.

"Crise tangível da democracia"

Na apresentação do Aufstehen, Wagenknecht assegurou que a questão da migração não é "central" no movimento, mas acrescentou que este quer dar resposta à esquerda de que não é racista mas que se sente "deixada para trás" e que está cansada de "deixar o espaço livre" para o movimento anti-islão Pegida.

"Estou cansada de deixar as ruas ao Pegida e à direita", afirmou, respondendo àqueles que dizem que o seu movimento só vai dividir ainda mais a esquerda. Wagenknecht diz que a Alemanha está diante de uma "crise tangível da democracia" que tornará "o país irreconhecível dentro de cinco ou dez anos" se nada for feito.

"Apesar do crescimento económico, 40% da população tem menores rendimento do que há 20 anos. A democracia já não está a funcionar", afirmou, dizendo que a raiva acumulada daqueles "que já não se sentem representados por quem está no poder" contribuiu para a subida da extrema-direita.

"Os eventos em Chemnitz mostraram que não podemos continuar assim", indicou, referindo-se aos protestos violentos ocorridos na semana passada nesta localidade no estado da Saxónia contra os estrangeiros, após a morte de um alemão de 35 anos, alegadamente esfaqueado na rua por um requerente de asilo iraquiano de 22 anos e um presumível cúmplice sírio.

Reações

O secretário-feral do SPD, Lars Klingbeil, defendeu que o movimento não é nada mais do que "uma luta de poder dentro do Die Linke", enquanto o vice-presidente Ralf Stegner avisou os militantes do risco de se juntarem a figuras que são "notoriamente separatistas". De facto, até dentro do Die Linke o novo movimento não é visto com bons olhos.

Uma sondagem feita online pela t-online revela que quase dois terços dos alemães (62%) não acreditam no sucesso do movimento, enquanto 19,8% dos cinco mil inquiridos dizem acreditar que este possa ter um futuro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...