A festa dos mil VIP

A primeira festa mais internacional do século XX português trouxe aos arredores de Lisboa Audrey Hepburn, Gina Lollobrigida, Douglas Fairbanks, entre centenas de artistas, membros de realezas e milionários.

A notícia com menor espaço na primeira página do DN não passava de uma trivialidade: a vitória do Benfica sobre o Sporting por 3-0. Depois, havia uma fotografia do papa Paulo VI e uma imagem terrível do grande sismo na Pérsia. Mas era para o centro da capa que os olhares dos leitores se dirigiam, ávidos para saberem as novidades sobre a primeira entre as duas maiores festas do século XX em Portugal: a oferecida por Maria da Conceição e Pierre Schlumberger em Colares.

A reportagem ocupa uma página inteira e tem por duas vezes a palavra "celebridades" nos títulos. Não era uma repetição desnecessária, é que na propriedade do casal anfitrião reuniam-se várias centenas de famosos como os portugueses nunca tinham observado até então no seu país. O texto descrevia o desfile dessas celebridades desde que chegavam ao aeroporto de Lisboa, à entrada na quinta em Colares, e não esquecia que na baía de Cascais estavam atracados seis iates vistosamente iluminados.

A crónica do jornalista Pereira da Costa descrevia a par e passo esse desfile ilustrado pelas fotografias de Raul Nascimento e dava conta do que se vestia, da beleza das convidadas e do porte dos homens: 19.54 chega o primeiro convidado para o jantar, um príncipe, seguido de vários embaixadores e figuras reais, chefes de Estado e marqueses. Mas é a atriz Audrey Hepburn que provoca o primeiro grande furor logo a seguir, com um sorriso permanente e um vestido branco deslumbrante. A reportagem já dera conta que a anfitriã avisara que não entraria na propriedade quem não estivesse vestido a rigor!

O jantar íntimo para o primeiro lote de visitas estava marcado para as 20.00 mas "só começou uma hora depois devido à chegada extemporânea de muitos convidados". Era o caso da atriz Gina Lollobrigida.

Às 20.39 ainda continuavam a chegar personalidades, como é o caso de Henry Ford II. Uma procissão de convidados que passada a meia-noite ainda não parara, momento em que chega a ansiada presença de Ira de Furstenberg. Quem também se apresenta por essa hora é Antenor Patiño, o multimilionário e o anfitrião da próxima grande festa que dois dias depois iria exigir uma nova cobertura noticiosa, que mostraria aos portugueses que o país já estava a mudar após a queda recente de Salazar da cadeira.

A reportagem vai dando conta de tudo o que vai acontecendo em Colares: a simpatia dos anfitriões, o cantor Gunter Sachs está sem companhia, a orquestra estava empenhada na animação, duzentos criados serviam os convidados de champanhe francês e whisky... E termina assim o relato: "A festa continua. É já quase manhã."

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...