O dia de reflexão

Tenho de admitir que isto de não poder escrever sobre política me fez pensar na política que de facto importa.

Já se sabe, hoje é aquele dia em que estamos todos a refletir para decidir em quem votamos amanhã. Apesar de existirem estudos e mais estudos que nos garantem que apenas uma quantidade ínfima de pessoas no dia de hoje não sabe ainda em quem votar, que ninguém nos garante que a inexistência de campanha ajude o cidadão a decidir melhor o seu voto e que a possibilidade de votar antecipadamente cria uma situação, no mínimo, estranha, mantém-se o dia em que quem tem como mister falar e escrever sobre política (e todos os outros cidadãos, bem entendido) não o pode fazer publicamente.

A verdade verdadinha é que é um de dia de folga para quem tem de fazer campanha, analisar e ouvir. Um respirar fundo para o dia seguinte que dá a todos muito trabalho, graças aos deuses. Falo por mim, quem se lembrou de inventar esta folga merece o céu, mesmo que eu não a consiga defender com argumentos minimamente credíveis.

Continuo a ter dificuldade em perceber o verdadeiro conteúdo da norma que me impede de falar de política neste dia. Por exemplo, quando estava a pensar no que ia escrever, passei os olhos por um estudo sobre o processo de decisão do novo aeroporto. Para quem não sabe, já em 1969 se chegou à conclusão de que era preciso um novo aeroporto na zona de Lisboa. Já houve milhentas conversas sobre o assunto, outras tantas sobre a possível localização. Já nos garantiram que ia ser aqui, ali e acolá e depois de 50 anos de profundíssima reflexão, com aviões a aterrar de cinco em cinco minutos no meio de prédios de habitação, num país que precisa do turismo como de pão para a boca, ainda não há novo aeroporto, nem se sabe quando haverá.

Lá está, eu era capaz de ter problemas. Como quem sabe o que está escrito é quem lê e não quem escreve, a coisa podia soar a truque "olha o gajo a culpar mais este do que aquele". Garanto que não estaria a fazer nada disso, acho apenas que somos muito rigorosos com os nossos políticos em assuntos de lana caprina e não nos indignamos o suficiente quando os nossos representantes andam a encanar a perna à rã em assuntos verdadeiramente importantes, gastam tempo e dinheiro em estudos e reuniões para decidir alguma coisa e depois de mui doutamente chegarem a uma conclusão alguém se lembra que "hum, talvez não" e volta tudo à estaca zero e vai de mais estudos e reuniões.


Também estive quase para escrever sobre o pouco que se falou de cultura nesta campanha. Sobre o desprezo a que é votada a fazedora de software de uma comunidade. Como se os nossos políticos tivessem assumido que o tema não interessa e que ninguém quer saber e que, assim sendo, não se deve falar do assunto. Talvez estejam todos convencidos da gigantesca falácia que tantas vezes se ouve de que enquanto houver uma escola que não funcione bem ou um doente mal atendido pelo serviço nacional de saúde não se pode gastar mais um tostão na promoção cultural. É provável, aliás, que seja por isso que se vê tão poucos políticos em manifestações culturais. Admito que esteja a ser injusto com alguns, mas continua a causar-me impressão não ver mais meus representantes no teatro, em exposições, em lançamentos de livros ou de os ver falar sobre discos de que gostaram, livros que leram ou artistas que tenham descoberto.

Não dava para desenvolver o tema, está claro. Terá havido quem tenha falado mais da questão ou quem se lembre de declarações sobre o assunto e a coisa podia azedar para o meu lado.

Outro assunto que não percebo que ninguém tenha falado e sobre o qual também me apetecia discorrer (e não faltarão oportunidades) é o da compra de um dos principais canais de televisão e de rádio por parte de uma empresa cujo modelo de negócio passa por difamar, injuriar, devassar a vida privada, publicar peças em segredo de justiça, divulgar escutas e fazer julgamentos na praça pública.

Imagino que a desculpa para que um assunto desta relevância não tenha sido tema será ser apenas um negócio entre privados. Lamento, não é. Sem desenvolver muito o assunto, basta dizer que o espaço público de radiodifusão não é um assunto que diga apenas respeito aos privados, longe disso. O assunto não pode ter mais contornos políticos, mas como neste país há um medo cobarde dos políticos do que o Correio da Manhã possa fazer, toda a gente assobia para o lado enquanto a negação do jornalismo ocupa uma empresa de comunicação social da dimensão do grupo Media Capital.

Ora, achando eu que o assunto é do interesse da comunidade e muitíssimo importante, encaixa na dita inibição pró-reflexão.

Tenho de admitir que isto de não poder escrever sobre política me fez pensar na política que de facto importa. É que além dos assuntos que sobrevoei veio-me à cabeça o pouco cuidado que tenho com assuntos políticos ainda mais importantes: as vezes a que faltei a reuniões de condóminos, as reuniões de pais sobre assuntos das escolas dos meus filhos a que não fui, as sessões abertas da minha câmara municipal em que não participei, os debates para os quais me convidaram e que troquei por inconsequentes trocas de comentários numa qualquer rede social e os milhares de vezes em que devia participar em assuntos concretos da minha comunidade e não o fiz.

No fundo, tenho-me esquecido de participar na política que mais importa. E quer-me parecer que não sou só eu. Obrigado, dia de reflexão.

Mundial de râguebi

Estas últimas semanas não me têm deixado muito tempo livre e por isso não tenho dado a atenção devida ao mundial de râguebi. Vou acompanhando os resultados, vi pedaços de meia dúzia de jogos e pouco mais. Torço pela Argentina, mas sei que a coisa deve cair para a Inglaterra (há treinadores que fazem milagres) ou para a Nova Zelândia. Azar o meu. É um evento extraordinário. O râguebi jogado a este nível é um espetáculo único. Um desporto que é a maior expressão do que é um jogo de equipa, em que as individualidades só sobressaem se a equipa formar um grupo absolutamente coeso, em que palavras como sacrifício, entrega, dedicação não são expressões vãs debitadas em entrevistas apatetadas. O futebol há muito que deixou de ser um desporto, é cada vez mais um fator identitário, uma paixão que por acaso tem um fantástico jogo por baixo. O râguebi ainda é um desporto a sério, e que desporto.

Trump, enésima parte

Confesso que as novelas britânica e americana me estão a estragar a saúde. É praticamente impossível desligar de toda aquela loucura e lá se vai o descanso noturno. Mas se ainda se consegue discernir uma pontinha (muito pequena, porém) de racionalidade em Boris Johnson, Donald Trump consegue a cada dia provar que o despautério e o delírio não têm limites. O presidente dos Estados Unidos parece querer provar que pode fazer e dizer rigorosamente tudo e que nada o pode afetar. Agora, e na sequência da descoberta da chantagem sobre o presidente da Ucrânia, decidiu pedir alto e bom som aos chineses que investigassem as atividades do seu opositor democrata e do seu filho. Mais uma vez e em circunstâncias minimamente normais, Trump duraria pouco na Casa Branca, mas a loucura está mesmo instalada. O mundo cada vez está mais perigoso.

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Abertura de um novo curso de Medicina numa instituição superior privada volta a ser chumbada, mantendo o ensino restrito a sete universidades públicas que neste ano abriram 1441 vagas. O país está a formar médicos suficientes ou o número tem de aumentar? Ordem diz que não há falta de médicos, governo sustenta que "há necessidade de formação de um maior número" de profissionais.