Aconteceu no mesmo dia. Na quinta-feira, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos recusou que a negação do Holocausto efetuada em 2010 por um político alemão de extrema-direita estivesse protegida pelo direito à liberdade de expressão, considerando assim que a condenação de que foi alvo pelos tribunais alemães se justifica. No Reino Unido, um plenário de trabalhadores da BBC exigiu à direção do canal que pedisse desculpas formais à pivô Naga Munchetty, que fora alvo de censura por ter, durante o programa que apresenta, qualificado uma frase de Trump sobre quatro parlamentares americanas não brancas como "racismo". Talvez a confirmação pelo TEDH de que a condenação do político Udo Pastörs por "atentar à memória dos mortos e por difamação intencional dos judeus" se justifica não pareça, à partida, ter a ver com jornalismo. Mas tem. Porquê? Porque significa que há assuntos que o tribunal considera não serem matéria de opinião e, contra muito daquilo que tem sido a sua jurisprudência, se manifesta sensível aos propósitos e aos efeitos da calúnia. O Holocausto é, claro, um clássico nas discussões sobre liberdade de expressão. Há quem considere que a criminalização do seu negacionismo, existente na legislação alemã, francesa e também portuguesa (artigo 240.º do Código Penal, 2, alínea b), não faz sentido: que mentiras como essa, mesmo que baseadas no ódio racial ou religioso, devem ser desmontadas com argumentos e não vistas como difamação e incitamento ao ódio e combatidas pelo braço armado da lei. Tal asserção tem desde logo um problema: o de se admitir debater com quem nega o Holocausto, implicando o reconhecimento tácito não só de que se trata de um assunto debatível - no sentido da sua existência ou inexistência histórica - como de que quem afirma, contra todas as evidências, que foi inventado pode ser tido como oponente numa conversa séria.. É um pouco como se qualquer um de nós que nunca matou ninguém aceitasse debater com alguém que anda a acusar-nos publicamente de sermos assassinos. Estão a imaginar a conversa? Eu tenho dificuldade - desde logo porque não sei como se prova que nunca se matou ninguém. Vamos então ao jornalismo e ao caso de Naga Munchetty. A 19 de julho, no programa da manhã que apresenta, a propósito de Trump ter dito que quatro parlamentares americanas não brancas "deviam voltar para a terra delas", Naga falou sobre a sua própria experiência, como não branca no Reino Unido, de ser "mandada de volta para a sua terra", e qualificou esses episódios como "imbuídos de racismo", comentando que a deixavam "furiosa". Concluindo: "Não estou a acusar ninguém de nada, mas toda a gente sabe o que certas frases querem dizer." Houve pelo menos uma queixa por estas declarações e a 25 de setembro a BBC deu o seu veredicto: Naga violou as regras de imparcialidade da estação. Porquê? Apesar de se considerar que ela podia dar uma visão pessoal sobre o assunto, os comentários foram qualificados como indo "além" do permitido. Como referido, os protestos levaram a BBC a revogar a decisão ao fim de cinco dias. Num artigo publicado no site da The Economist na quinta-feira, John Riley, atualmente à frente da Sky News, conta que enquanto estagiário na BBC ouviu de um sénior que "a imparcialidade é para ser aplicada a tudo", posto o que perguntou: "Ao apartheid também?" Claro que não, foi a resposta. Comenta Riley: "Portanto as coisas não eram tão binárias como ele sugeriu." Peter Bazalgette, ex-BBC e atual chairman da ITV, corrobora: "Se a sociedade considera o racismo inaceitável, tem de ser aceitável que um apresentador o diga. É uma questão de afirmar a moralidade pública, não de imparcialidade. Como o é em matérias como abuso sexual de crianças, roubo ou terrorismo." Quem dera fosse assim tão simples. Não só está longe de ser evidente que a maioria das pessoas - no Reino Unido como em Portugal - reprova o racismo como reprova o roubo ou o abuso de crianças como o discurso racista e xenófobo tem vindo a recrudescer e a ganhar poder, legitimando-se assim como perspetiva política. A questão para o jornalismo não pode ser, pois, de "moralidade pública" mas de consciência ética individual e profissional. Poder-se-ia considerar que num país em que a Constituição e a legislação, incluindo a que regula o jornalismo, considera o racismo uma violação dos princípios em que se baseia a sociedade (é o caso de Portugal) seria fácil defender que um jornalista, enquanto jornalista - ou seja, no seu papel profissional - sublinhasse, reprovando-o, o racismo de uma declaração, mesmo se vinda da boca do presidente dos EUA ou de uma qualquer figura de poder. Mas sabemos que isso está longe de ser aceite: há a tal exigência de "imparcialidade".. Uma exigência de imparcialidade que leva a que num noticiário, ao falar sobre um negacionista do Holocausto, um jornalista não possa dizer que o propósito dos negacionistas é levar a crer que os judeus, numa gigantesca conspiração internacional, inventaram um massacre de proporções horrendas para se vitimizarem e ganharem poder. Uma exigência levada ao extremo no caso de várias empresas de media, como a BBC, que impõem aos jornalistas, mesmo quando não estão no desempenho da sua profissão - por exemplo, nas redes sociais ou a fazer opinião -, que não exponham as suas visões em "questões políticas". A extrema sonsice de fingir que os jornalistas não têm experiências pessoais, opiniões, visões políticas ou sequer causas humanitárias - se o racismo é visto como uma "visão política", nem os direitos humanos podem defender - não é apenas, como se escreve no citado artigo da The Economist, a defesa de uma impossível postura "robótica" e um certificado de falta de inteligência passado ao público, visto assim como incapaz de discernir entre o posicionamento pessoal de um jornalista e o seu trabalho e aquilatar este último em função dele mesmo e não do que sabe da opinião do jornalista. É um condicionamento inaceitável à liberdade de expressão e à consciência ética dos jornalistas, garantindo que as ideias mais perigosas e atentatórias da dignidade humana, incluindo as que incitam ao ódio e à violência, são tratadas de forma neutral, como se fosse tudo igual.