"Vacina para os coronavírus é necessidade urgente", alertam especialistas

Com o número de casos a crescer todos os dias, a covid-19 expande-se a grande velocidade, enquanto os cientistas correm contra o tempo para produzir uma vacina. A meta está pelo menos a um ano de distância, altura em que o pior pode já ter passado. Mas, mesmo que isso venha a ser assim, a vacina é uma garantia para o futuro, porque novos coronavírus não vão faltar, defendem os especialistas.

Escassas semanas depois de o novo coronavírus, o SARS-cov-2, ter emergido da China, e num momento de plena expansão da doença que ele provoca, a covid-19, a corrida a uma vacina, a melhor forma de a travar, porque previne o seu aparecimento, está lançada, e a decorrer em boa velocidade. A meta ainda está longe, enquanto a epidemia continua a progredir, mas "uma vacina para os coronavírus é uma necessidade urgente", alertam os cientistas.

Os primeiros testes de algumas potenciais vacinas em desenvolvimento - há pelo menos dez atualmente em estudo, segundo um artigo publicado online esta semana na revista científica Current Tropical Medicine Reports - poderão iniciar-se já em abril, um tempo recorde, já que a doença ainda há pouco surgiu. No entanto, avisam os especialistas e a própria Organização Mundial da Saúde, uma vacina aprovada não estará disponível antes de um ano ou, na melhor das hipóteses, no final deste ano.

O processo de certificação de uma vacina, bem como de medicamentos para uso humano, é exigente em termos de segurança para utilização humana e, por isso, bastante moroso - e dispendioso. E, dentro de uma ano, é bem possível que o pior da covid-19 já tenha passado - tudo vai depender de como as coisas correrem nas próximas semanas e meses em relação aos esforços de contenção da epidemia, aos contornos da doença e ao comportamento do próprio vírus.

Um dos cenários que os cientistas temem é que, passado o pior, os esforços para a criação de uma vacina acabem por esmorecer sem chegar a dar frutos.

Isso já aconteceu, de resto, com outros surtos e epidemias virais, que surgiram, evoluíram e terminaram sem que tenha chegado a haver vacinas para eles, apesar de esforços iniciais nesse sentido.

Das mais recentes crises causadas por agentes virais, como a SARS em 2002 e 2003, a MERS em 2012 e 2013, o zika ou os vários surtos de ébola, só mesmo para este último vírus passou a haver uma vacina. Em relação a todas as outras - e para todas elas houve esforços iniciais para a produção de uma vacina - as vacinas acabaram por ficar ficaram pelo caminho.

Tempo perdido

O novo coronavírus agora em atividade acaba por pôr em evidência esse tempo perdido. A ter sido diferente, a luta contra a covid-19 estaria agora mais simplificada, como sublinham vários especialistas.

Um deles é Jason Schwartz, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que lamenta que não se tenha investido anteriormente de forma mais sistemática na procura de uma vacina aquando das anteriores epidemias de doenças respiratórias agudas causadas por outros dois coronavírus, a SARS, em 2002-2003, e de MERS, em 2012-2013.

"Com muita frequência, o foco na investigação e no investimento gerados por uma nova epidemia diminui rapidamente depois de ela acalmar", afirmou à AFP Jason Schwartz, sublinhando que em resultado disso, "as promissoras estratégias de investigação acabam por ser deixadas de lado, ou os fundos perdem-se, sendo que este trabalho poderia ser valioso para acelerar a resposta em futuras epidemias".

Alguns programas de investigação iniciados aquando da SARS e da MERS, sobretudo com apoio da União Europeia, rapidamente esmoreceram, nota por seu turno Bruno Canard, especialista no vírus do CNRS, citado pela AFP. "Houve mudanças nas políticas, a crise de 2008... baixou-se a guarda", lamenta.

Em contraciclo a esta atitude, o surgimento de novos vírus, pelo contrário, "está em modo de aceleração, e o seu surgimento será cada vez mais acelerado, devido às alterações climáticas e à perda de biodiversidade", garante Bruno Canard.

Apelo a uma vacina

Agora, em tempo de mais uma epidemia, a corrida a uma vacina renova-se, embora nada garanta que desta vez o resultado venha a ser diferente.

Os especialistas apelam no entanto para que, de uma vez por todas, se aprenda a lição e se aposte na prevenção e numa maior segurança para o futuro.

Isso mesmo faz a equipa liderada por Maria Elena Bottazzi, do Baylor College of Medicine, no Texas, Estados Unidos, no seu artigo na Current Tropical Medicine Reports acerca das vacinas que estão em desenvolvimento contra o novo coronavírus.

Para os investigadores, que passam em revista os vários estudos em curso e as diferentes abordagens para chegar a uma vacina contra o SARS-cov-2 - usando vírus inteiros inativados, ou apenas algumas das suas sequências genéticas-chave -, a mensagem essencial é esta: seja qual for a abordagem técnica, e seja qual for o desfecho da presente epidemia, é essencial chegar ao fim desta crise de saúde pública com novas vacinas.

Porquê? A resposta dos investigadores é clara: "Tivemos um grande surto por um novo corononavírus a cada década no século XXI - a SARS nos anos 2000, a MERS na década de 2010 e, agora, o covid-19. Desenvolver vacinas e tê-las em stock é uma prioridade para a segurança global."

Este novo surto, nota a equipa de Maria Elena Bottazzi, "deve servir de sinal de alarme para a comunidade científica internacional reagir e se preparar para os próximos coronavírus que hão de atravessar a barreira de espécies a partir de outros mamíferos", passando a infetar humanos. "Uma vacina para os coronavírus é uma necessidade urgente, que parece exequível do ponto de vista da ciência se houver os recursos financeiros necessários e em tempo útil", concluem.

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