Premium Musicalidade religiosa

O notável secretário-geral da ONU, que foi Hammarskjöld, organizou ali uma sala de meditação para todas as religiões, talvez inspirado pela mensagem que confessou recolher no Day Concert de 1960, ao ouvir a Nona Sinfonia, a qual, diz, abre fazendo-nos entrar "num drama cheio de amargas e escuras ameaças", mas "no começo do último movimento ouvimos de novo os vários temas referidos, agora com uma frente na direção de uma síntese final". Tendo sido vítima de um atentado no antigo Congo Belga, não deixou previsão do facto que, violando o objetivo do "nunca mais" que orientava a busca de uma paz segura, implicou que valores religiosos voltassem a dinamizar confrontos armados de intensidade acrescida pelos progressos da técnica, destacando-se a violência eficaz dos supostos poderes fracos contra os poderes das poderosas soberanias, como aconteceu com as Torres Gémeas. Um dos mais lúcidos analistas da evolução do confronto entre o predomínio da ciência assumido no Ocidente e o recuo do domínio das religiões, com a sua promessa do caminho para o verdadeiro ser, para a verdadeira arte, para a verdadeira natureza, para o verdadeiro Deus, para a verdadeira felicidade, que poucos poderiam conciliar, sendo necessário para isso o que chamou "um salto para a fé", que supõe "musicalidade religiosa", uma análise brilhantemente exposta na introdução de Rafael Gomes Filipe à edição portuguesa da Sociologia das Religiões de Weber (2006), considerando termos de reconhecer que vivemos uma época tendencialmente alheada de Deus e desprovida de profetas, e que a noite assim surgida, de que Nietzsche falou, "tão cedo não se irá dissipar".

Infelizmente, a experiência do século passado começou por implicar que o previsto domínio da ciência e da técnica, que absorvia os recursos antes proporcionados, no Ocidente, às igrejas cristãs, teve um primeiro alarme com o facto de essas ciência e técnica terem conduzido ao desastre do uso do bombardeamento atómico do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, e acabaram por armar "o fraco contra o forte" com o pouco dispendioso ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque, justamente no Estado que primeiro usara o supremo poder atómico. Tal ação foi gravemente acompanhada pela evidência de utilização de valores religiosos pelos atacantes muçulmanos, com uma interpretação abusiva do Alcorão, mas que alargou desmedidamente a mobilização terrorista dos que aceitam o sacrifício com a certeza da salvação. O facto, que emocionou o mundo ocidental, e especialmente feriu profundamente a Europa, que foi o incêndio de Notre-Dame, embora até agora seja reconhecido como acidental, levou a inventariar as dezenas de ataques relacionados em França com templos cristãos, além de que, com uma proximidade alarmante, somaram-se o atentado, no Domingo de Páscoa, no Sri Lanka, que matou centenas de pessoas, praticamente ocidentais de visita, e de que combatentes do Daesh são os plausíveis suspeitos. Isto num Estado onde a maioria é budista, os cristãos são uma pequena minoria, sendo certo que a Aliança Cristã Evangélica Nacional já foi objeto de cerca de uma centena de discriminações e violências. Não pode ser ignorado que muçulmanos são vítimas de ataques no Bangladesh, na União Indiana, e também no Sri Lanka, embora eles não sejam inocentes quanto à destruição de estátuas de deuses de outras religiões, porque entendem que animam a idolatria. Todavia, a ação contra os cristãos tem um relevo especial, porque se em França pode haver um distanciamento ligado à já antiga proclamada ideia de que os recursos da Igreja deveriam ser desviados para a ciência (Renan), foi a propósito do incêndio da catedral que a polícia francesa divulgou que, apenas em 2007, registou centenas de atos de vandalismo contra templos cristãos, o que pode refletir em parte delitos contra a propriedade inspirados pela pertença à cristandade em declínio. Mas parece não poder deixar de se averiguar se o ataque à Igreja Católica, como tal, é parte da atitude de reação contra a ocidentalização global que os países europeus exerceram, com um passivo não ignorável, embora não apagando ou ignorando os benefícios. Depois de longas negociações, a 22 de setembro de 2018, a Santa Sé e o governo da China subscreveram finalmente o Papel do Sucessor de Pedro, pelo que todos os bispos serão ordenados apenas depois de terem recebido a nomeação do Papa: até a questão da especialidade do regime de Hong Kong pareceu influir as críticas severíssimas contra o acordo do Papa Francisco, agravando o peso das circunstâncias adversas que rodeiam o Pastor que foram buscar ao fim do mundo, o que levou os escritores Andrea Tornielli e Gianni Valente a escrever um livro sério que intitularam Papa Francisco debaixo de Fogo (Planeta, 2018), o que significa a Igreja Católica debaixo de fogo, uma imagem que parece inspirada no incêndio de Notre-Dame. Talvez ajude ouvir a sinfonia.

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