Quanto vale o talento?

O escritor mais provocador da nossa praça disse numa entrevista que a única coisa que lhe interessava nos prémios era o dinheiro e que, quando sabia ter ganho mais um, perguntava logo "quanto?". Não é uma afirmação bonita, sobretudo para quem o nomeou e distinguiu; mas haverá nela uma pontinha de razão, porque quase todos os prémios literários perderam prestígio ao longo do tempo, mesmo quando o tal "quanto" se manteve inalterável.

Notem bem: não estou a falar daquilo a que João Pedro George, que estudou o assunto exaustivamente, chama "promiscuidade do meio intelectual" (e que outros denominariam capelinhas ou favorecimento); nem de jurados que se afadigam de prémio em prémio a votar sempre nos mesmos, ou estão num deles de pedra e cal, sem que ninguém perceba porquê; nem sequer da votação por quotas (homens/mulheres, consagrados/promessas...), que não passa de mais uma maneira injusta de premiar. Falo, sim, de nos últimos anos terem sido finalistas de prémios supostamente exigentes obras que não mereceram a atenção da crítica ou assinadas por autores que, nos meus tempos de faculdade, os professores pediriam expressamente que não lêssemos. E o pior é que alguns conseguiram arrecadar o galardão (e, já agora, o "quanto"), ficando por premiar livros indiscutivelmente melhores.

Não me ocorre, porém, ir buscar modelos lá fora, quando o próprio Nobel da Literatura caiu em desgraça: depois de contemplar romancistas que não são de topo, uma ensaísta com obra curta e em co-autoria com os seus entrevistados e um escritor de canções encostou à box na sequência de um caso de assédio sexual. Se voltar a ser atribuído, talvez não seja então completamente descabido que o premiado, ao receber a notícia, pergunte apenas "quanto?". Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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