Globos de Ouro. Do humor à filantropia

Na 76.ª edição dos Globos de Ouro (na madrugada de domingo para segunda-feira), Hollywood reúne-se para celebrar o melhor da sua produção de cinema e televisão ao longo de 2018 - parecem os Óscares, mas as diferenças são muitas.

Ricky Gervais é responsável pela mais devastadora definição dos Globos de Ouro de Hollywood: "Os Globos de Ouro são exatamente como os Óscares, mas sem toda aquela... estima. Os Globos de Ouro estão para os Óscares como Kim Kardashian para Kate Middleton. São um pouco mais ruidosos, um pouco mais sujos, um pouco mais bêbedos - e mais fáceis de subornar."

Ironia à parte, convenhamos que há em tais palavras uma contundência perturbante. E tanto mais quanto Gervais não as proferiu no recato de um cenário neutro, muito menos no meio da gritaria das redes a que chamam "sociais". Nada disso. Foi a 15 de janeiro de 2012: o ator inglês falava no palco do Beverly Hilton Hotel, em Beverly Hills, na qualidade de apresentador da 69.ª cerimónia dos... Globos de Ouro!

Outros tempos... É certo que Gervais ainda voltou a apresentar os Globos em 2016 (pela quarta e, até agora, última vez). De qualquer modo, tendo em conta os nomes anunciados para tal função na cerimónia deste ano (madrugada de domingo para segunda-feira, de novo no Beverly Hilton), a diferença simbólica é significativa. Assim, a 76.ª edição dos prémios de cinema e televisão da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood será apresentada por Sandra Oh e Andy Samberg - ela uma das figuras emblemáticas da série televisiva Anatomia de Grey, ele um nome popularizado pelo programa Saturday Night Live.

Mesmo considerando que Oh e Samberg são personalidades conhecidas da maioria dos espectadores dos EUA (a cerimónia será transmitida, como tem sido habitual, pela NBC), parece ter havido a preocupação de escolher apresentadores "exteriores" ao imaginário hollywoodiano, de modo a contrariar a possível redução do evento a um "comício" anual. No ano passado, precisamente, foi nos Globos que teve lugar um dos grandes eventos mediáticos do movimento Time's Up - em solidariedade com as vítimas de agressão e assédio sexual -, com todas as atrizes a usar vestidos negros.

Isto sem esquecer que, para lá dos prémios e do glamour, a entidade que atribui os Globos mantém uma importante atividade filantrópica, em particular no apoio a estudantes que visam uma carreira na indústria cinematográfica, e no restauro de grandes clássicos da história do cinema - por exemplo, o primeiro King Kong (1933) e o lendário filme pacifista de Stanley Kubrick, Horizontes de Glória (1957), são apenas dois exemplos de quase uma centena de títulos que foram recuperados com a sua participação financeira. De acordo com os respetivos dados oficiais, nos últimos 27 anos a associação doou um total de 33,4 milhões de dólares.

Globos vs. Óscares

Face à discreta filiação dos apresentadores deste ano na história de Hollywood, deparamos mesmo com um curioso paradoxo. Isto porque os Globos são frequentemente apontados como a mais segura "previsão" dos Óscares (cujas nomeações serão conhecidas no próximo dia 22, realizando-se a cerimónia a 24 de fevereiro).

É mais do que provável que os principais vencedores dos Globos deste ano surjam na corrida aos Óscares mais importantes. Filmes como Assim Nasce Uma Estrela e Blackkklansman, na categoria de drama, ou Green Book e Vice, nos musicais ou comédias, são incontornáveis destaques nesta temporada de prémios de que os Óscares constituem, por assim dizer, a síntese final. Ainda assim, a noção segundo a qual os Óscares "antecipam" os Globos não passa de uma frase do marketing que, por vezes, alguma comunicação social aplica de forma precipitada e, por fim, equívoca.

No ano passado, por exemplo. Quem ganhou o Globo de melhor filme/drama? Três Cartazes à Beira da Estrada. E o melhor filme/musical ou comédia? Lady Bird. E para quem foi o Óscar de melhor filme do ano? A Forma da Água.

Claro que, ao longo das décadas, há muitas repetições de prémios, até porque com as suas duas vertentes os Globos "duplicam" as distinções. Seja como for, se considerarmos, por exemplo, os prémios atribuídos nas últimas 18 edições (desde o ano de produção de 2000, inclusive), encontramos uma divisão a meio: nove vezes o Óscar de melhor filme foi para um vencedor dos Globos (drama ou musical/comédia), nove vezes não foi. Há mesmo casos em que a memória cedeu a uma espécie de ilusão "coletiva". Por exemplo, é um facto que Avatar marcou de forma indelével a produção de 2009, tendo sido distinguido com o Globo de melhor drama... mas não ganhou o Óscar máximo (que foi para Estado de Guerra).

Não se trata, entenda-se, de promover qualquer "competição" entre prémios, vencedores e vencidos. Acontece que Globos e Óscares se distinguem (e muito!) pelas raízes profissionais, e também pela lógica artística, das respetivas escolhas. Como a designação indica, a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood é constituída por jornalistas sediados na zona de Los Angeles, assegurando a cobertura regular de diversos aspetos da atividade cinematográfica e televisiva - de acordo com o seu site oficial, possui cerca de 90 membros votantes. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood congrega elementos de todas as áreas da indústria, da produção ao marketing, tendo integrado só ao longo de 2018 mais de 900 novos membros - segundo informação oficial (divulgada em outubro pelo site deadline.com), para os Óscares deste ano o número de votantes será 8176.

Memórias de Marilyn

Que faz, então, a singularidade dos Globos? Antes do mais, uma ideia de celebração mais ou menos informal - em que cabe (ou cabia) o sarcasmo de Ricky Gervais -, alheia a alguma rigidez de estilo inerente aos Óscares. A cerimónia nem sequer é um espetáculo de palco, mas... um jantar. Afinal de contas, Gervais chegou a ter no seu púlpito de apresentador um copo de cerveja...

Depois, é também um facto que, desde a primeira cerimónia, em 1944 (os Óscares começaram em 1929), algum do glamour e os faustos do star system que associamos à tradição de Hollywood têm deixado marcas importantes nos Globos, incluindo nas suas derivações políticas - recorde-se o veemente discurso anti-Donald Trump de Meryl Streep, ao receber o prémio honorário Cecil B. DeMille, na cerimónia de 8 de janeiro de 2017 (12 dias antes da tomada de posse do 45.º presidente dos EUA).

Foi nos Globos de 5 de março de 1962 que Marilyn Monroe recebeu um segundo prémio de popularidade (World Favourite), exatamente cinco meses antes da sua morte - o seu triunfo ficou registado numa célebre fotografia de um carinhoso abraço com Rock Hudson. Foi em 1997 que Madonna ganhou o prémio de melhor atriz (musical ou comédia) pela sua performance em Evita; ironicamente, tal distinção ficou como o seu maior sucesso em Hollywood, já que o mesmo papel nem sequer lhe valeu uma nomeação nos Óscares; entretanto, Madonna ganhou um segundo Globo, em 2012, na categoria de melhor canção, com o tema Masterpiece, do filme W.E. (por ela realizado). E foi na edição de 2013 que Jodie Foster, nesse ano a personalidade distinguida com o prémio Cecil B. DeMille, proferiu um discurso histórico em que se demarcou das formas vulgares de entendimento das estrelas: "Dizem-me agora que, aparentemente, é suposto que qualquer celebridade exponha os detalhes da sua vida privada através de conferências de imprensa, de uma marca de perfume ou de um reality show em horário nobre. (...) Lamento, mas essa não sou eu. Nunca fui e nunca serei."

Neste ano, enfim, o design da estatueta dourada dos Globos foi sujeito a algumas discretas reconversões. Será uma edição em que nenhum filme poderá bater o recorde de La La Land (2016), com vitórias em sete categorias, uma vez que o filme mais nomeado, Vice (sobre Dick Cheney, o vice-presidente de George W. Bush), apenas surge em seis categorias. Entretanto, mesmo não constando na lista de nomeações, Meryl Streep continua a ser a pessoa mais nomeada na história dos Globos: 31 vezes. É caso para dizer que nem tudo é assim tão diferente dos Óscares...

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