Sara Sampaio como nunca a viu: "Já perdi muitos papéis porque não estou disponível. É frustrante"

Nesta quinta-feira os cinemas acolhem Carga, filme que marca a estreia de Sara Sampaio como atriz. Um papel duro para a nossa top model provar que o cinema é sua verdadeira paixão. Hollywood vem já a seguir (artigo publicado originalmente a 04 de novembro)

A nossa maior estrela internacional estreia-se como atriz no cinema. Sara Sampaio, top model internacional, veio nesta semana a Portugal à antestreia de Carga, primeira obra de Bruno Gascon, conto sobre tráfico de mulheres no nosso país. Ao lado de nomes como Rita Blanco, Vítor Norte e Ana Cristina Oliveira, Sara interpreta uma jovem capturada por uma rede de tráfico de mulheres para prostituição. Carga, feito inteiramente com dinheiro de privados, funciona como um thriller moral, alertando para o flagelo da situação. É falado em inglês, português e russo e pisca o olho ao mercado internacional. A participação de Sara Sampaio é curta mas bem notória. A sua personagem após algum tempo em cativeiro é obrigada a ser lançada no mercado da prostituição. Surge sem maquilhagem, com olheiras, suja e cansada. É precisamente a Sara antiglamour. Na véspera da antestreia de segunda-feira, a modelo portuguesa que pouco tempo passa em Portugal confessava-nos num hotel de Lisboa que ainda não tinha visto o filme, mas que o seu caminho será cada vez mais o do cinema. Esta portuense de 27 anos quer e vai ser atriz. Estreou-se num filme português sem maneirismos de autor e quer fazer cinema de Hollywood. De forma tímida, começou por nos pedir desculpa pelo português menos perfeito. Já está naquela altura que pensa e fala mais em inglês.

Não foi um acaso esta estreia no cinema. Sei que a Sara já há muito que queria ser atriz...

Sempre quis ser atriz e representar, mesmo antes de ser manequim e de a moda ter tomado conta da minha vida. Antes de entrar para a faculdade estive seriamente a pensar seguir representação, mas o problema é que depois a moda apareceu e as coisas começaram a correr bem.

Bem demais, não?

Sim...esse sonho ficou assim um bocadinho a dormir. Agora, nos últimos anos, percebi que ser atriz é o que quero mesmo fazer. Carga foi um dos primeiros guiões que me foi enviado e apaixonei-me muito pela história, sobretudo pela maneira como está contada. Quis realmente fazer parte da história.

Escolheu logo interpretar uma rapariga capturada e atirada para a rede de tráfico humano. Não era propriamente uma personagem fácil para um papel de estreia...

Foi por isso que quis fazer. Esse peso da personagem atraiu-me e também o facto de ser uma realidade muito diferente da minha. Senti que era um desafio grande, mas na véspera das filmagens comecei a pensar que não queria de todo desiludir ninguém, sobretudo porque havia aquela perceção de que eu era apenas mais uma modelo a querer representar e que este era o meu primeiro papel. Por isso tudo quis estar muito bem preparada: li muito sobre relatos de vítimas de tráfico humano. Ajudou-me muito imaginar-me numa situação destas. Pensei muito como poderia reagir se ali estivesse... Acho que ser atriz passa muito por saber criar empatia com a personagem e a sua vida, foi isso que tentei.

É bonito ver que as mulheres são as personagens mais fortes do filme.

Encontrou em si uma negritude que nunca teria imaginado? O que o espectador vai encontrar no grande ecrã é uma versão negra da Sara?

Sim, ela é completamente diferente de mim. Espero é que as pessoas vejam o filme e não encontrem a Sara. Se virem a Sara é sinal de que fiz mal o trabalho.

Mas ficou a conhecer algo melhor os seus limites emocionais?

Aprendi tanto neste filme! Aprendi, por exemplo, imenso a ver os outros atores. O filme tem aquela minha cena final que foi de facto muito desconfortável de filmar, mas foi reconfortante perceber que todos à minha volta estavam ali a apoiar-me. Esta experiência fez-me ter confiança nas pessoas.

Sentiu-se protegida.

Protegida, sim. E essa proteção deu-me liberdade para não ter vergonha. Foi incrível aquele momento em que deixei de ter vergonha e a ficar confortável a compor a personagem! Fiquei mais forte e dessa maneira consegui entregar-me por completo ao papel.

Sente que na moda também constrói personagens?

Sim, mas é um bocado diferente - as personagens da moda são bem mais superficiais, mais cliché...

A ideia, então, é agora apostar cada vez mais no cinema?

Sim! Tenho passado cada vez mas tempo em Los Angeles e já tenho lá agentes. O meu foco agora é na aprendizagem. Quero melhorar o que for possível e tenho tido aulas, embora tenha também já ido a muitas audições.

Carga tem um tema sensível, a questão do tráfico de mulheres para redes de prostituição. Não deixa ser curioso o filme chegar em pleno auge de campanhas contra agressões sexuais e de toda a euforia dos movimentos feministas...

De alguma forma, sim! O filme chega numa altura em que o tema do poder e a liberdade das mulheres está a ser discutido. Carga chega numa altura certa. É bonito ver que as mulheres são as personagens mais fortes do filme.

Está ciente de que por vir da moda e ser um rosto bonito vai ter de sofrer com muita desconfiança no mundo do cinema?

Sim! Vejo isso na maioria dos papéis para os quais concorro nas audições, são sempre da mulher bonita e da modelo. Mas, no fim do dia, também não digo que não a certos papéis, nomeadamente se forem verdadeiramente fortes. Quero sempre projetos nos quais possa depositar a minha confiança.

O filme chega numa altura em que o tema do poder e da liberdade das mulheres está a ser discutido. "Carga" chega na altura certa.

O seu plano é realmente apostar no cinema de Hollywood, correto?

É isso que estamos a tentar! Mas é complicado vir de um sítio como Portugal, somos vistos como latinos. E, porém, não sou suficientemente latina para eles nem suficientemente americana. Estou ali um bocadinho no limbo e a tentar ainda perceber qual será o meu nicho.

Não consegue fazer o sotaque americano?

... O meu sotaque é bastante americano mas ainda não é cem por cento para eles. Por outro lado, também não tenho um sotaque forte que se perceba que sou de um outro local. Fica mais complicado porque eles não percebem de onde posso ser... Mas tenho tido aulas de pronunciação para conseguir ficar o mais próximo possível do inglês americano. Estou também a aprender outros sotaques, como o inglês com toque de russo. Seja como for, recebo muitos convites para audições de papéis de raparigas latinas.

Essas audições para papéis em cinema são duras? Puxam muito por si?

Há um bocado de tudo, depende. O mais complicado é que se recebe o texto de um dia para o outro. Às vezes temos de preparar três cenas muito longas de um dia para o outro, ainda que agora a maioria das audições são em modo de self-tape [são os atores que enviam o vídeo] e em casa ficamos com mais possibilidade de preparar. Pessoalmente, prefiro fazer as audições com o casting director ou com o realizador.

Quando diz que é de Portugal costuma levar "a terra do Cristiano Ronaldo"? Que tipo de reações tem tido?

Há uns anos ainda era desconhecido, mas agora nem por isso. O turismo em Portugal cresceu tanto que ouço muito "vou lá passar o verão!" ou "já estive em Portugal". Cada vez há mais gente que sabe de onde sou. Sendo portuguesa, os americanos veem-se aflitos para me categorizar. Lá está, é a tal coisa de catalogarem-me como latina. Não me vejo como latina, pelo menos na maneira como Hollywood identifica os latinos. Identificar-me-ia mais como europeia... E isso é que se torna complicado. Para mim é muito difícil representar um estereótipo de mulher. As hispânicas não têm nada que ver comigo e tive mesmo de falar com os meus agentes para pararem de me vender como latina. Não sou latina, embora possa parecer um bocadinho. Mas quem falar uns minutinhos comigo percebe que sou completamente uma outra coisa. Nos EUA têm grande dificuldade em perceber qual a caixa em que me vão pôr. Enfim, haveremos de descobrir...

Mas isso de ser um pouco embaixadora de Portugal nunca foi um fardo?

Não, Portugal é o país onde nasci, onde vivi a maior parte da minha vida e onde está a minha família. O português é ainda a minha primeira língua. Pois, o português já não sai tão bem como saía mas é um orgulho imenso ser portuguesa.

Por ser um dos rostos de moda mais requisitados do mundo não lhe resta muito tempo livre. Como gere a sua falta de tempo?

Ainda estou a tentar perceber... No começo deste ano tive uma crise de ansiedade, uma crise existencial, pois quero entrar numa nova etapa da minha vida, por muito que isto possa parecer ridículo. Mas a verdade é que em termos de moda estou a ter o meu melhor ano, não posso pura e simplesmente dizer adeus. Quero muito representar e já perdi muitos papéis porque não estou disponível. É frustrante, complicado, tenho contratos... Estou, devagarinho, a tentar perceber como fazer essa transição. A moda é o trabalho que paga as contas! Aos poucos começo também a perceber certas coisas.

"Não me vejo como latina, pelo menos na maneira como Hollywood identifica os latinos. Identificar-me-ia mais como europeia..."

O tempo é que não se arranja...

Sim! O grande problema é que o cinema e a moda são duas indústrias que te chamam sempre à última hora. No cinema chamam-nos sempre em cima da hora, especialmente para papéis não principais. Eles precisam de encher as datas que têm. Na moda também, por exemplo, nem sei ainda onde vou estar a trabalhar para a semana, mesmo tendo novembro já quase todo preenchido. O bom de estar onde estou no mundo da moda é poder ter já o luxo de ser seletiva. Seletiva nos trabalhos que faço e a conseguir alterar datas. Isso ajuda-me bastante, porém há certos contratos, como o da Victoria's Secret, que me obriga a ter alguns dias por ano em que tenho de estar disponível.

Qual foi a última vez que ficou surpreendida positivamente com a condição humana?

Todos os dias tento olhar de forma otimista para a humanidade, embora tenha ficado surpreendida no momento em que partilhei a minha situação - tenho tricotilomania. Fi-lo através das redes sociais e encontrei uma grande quantidade de respostas e de pessoas a solidarizarem-se. Gente que contou as suas histórias e partilhou muito otimismo. Não estava nada à espera dessa reação e de como poderia inspirar as pessoas. Num mundo em que as redes sociais são tão negativas, foi extraordinário perceber como consegui alcançar muitas pessoas! As redes sociais sempre servem para alguma coisa. Foi mais no Instagram, o Facebook nem sequer uso, só o tenho para comunicar com os meus pais. É muito raro ir lá à minha página...

(artigo publicado originalmente a 04 de novembro)

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