Francisco em socorro dos cristãos árabes

Lembro-me da pintura de Maria com o Menino Jesus ao colo lado a lado com o retrato de Saddam Hussein e penso no que terá acontecido à família cristã dona do restaurante Al Awael onde fui jantar no início de 2003, quando em reportagem para o DN em Bagdad testemunhava os últimos dias do Iraque em ditadura. O mais provável é que tenham fugido do país, pois em vez do milhão e meio de cristãos que há duas décadas lá viviam, o Papa Francisco, quando amanhã chegar, encontrará só 400 mil.

As bombas americanas derrubaram Saddam e trouxeram a democracia (no sentido de partidos e de eleições). Mas das bombas largadas por aviões às colocadas em carros, mercados e até igrejas não tardou muito. A Al-Qaeda e depois o Estado Islâmico tomaram como alvo o governo iraquiano, bizarro aliado tanto da América como do Irão, e entre as grandes vítimas do jihadismo estão os cristãos, não protegidos pelo número, como acontece aos xiitas.

Em 2016, quando o Estado Islâmico obrigava os cristãos a escolher entre a conversão ou a morte (os yazidis, outra minoria religiosa, foram tratados ainda pior), entrevistei o arcebispo de Erbil, de visita a Lisboa. Falou da difícil vida dos cristãos no tempo de Saddam, difícil por causa do medo do ditador e das ameaças de guerra de George W. Bush, mas igual à das outras comunidades, toleradas desde que não se envolvessem em política. Tudo piorara depois do derrube do presidente, muçulmano sunita que tinha cristãos no círculo próximo. Mesmo assim, e apesar da emigração em massa, Bashar Warda disse-me ter "fé de que o cristianismo no Médio Oriente não se vai extinguir."

Francisco, que estará quatro dias no Iraque, está decidido a contrariar essa extinção anunciada. Será o primeiro Papa a visitar o país onde nasceu o profeta Abraão. O Iraque é também pátria da antiquíssima Igreja Assíria do Oriente, à qual este Papa já chamou de "igreja dos mártires". Um encontro com o Grande Ayatollah Al-Sistani em Najaf terá enorme simbolismo em termos de diálogo com o xiismo, ramo minoritário do islão. Mas dificilmente resultará num documento sobre a fraternidade como o já assinado com o xeque Al-Tayeb, imã da Universidade Al-Azhar, a mais alta instância sunita.

Apesar de o Alcorão referir Jesus como profeta e de Maomé ter deixado um legado de respeito pelos "povos do livro", a vida dos cristãos e dos judeus nunca foi fácil no mundo islâmico, dependendo da boa vontade dos soberanos. Porém, até meados do século XX, as grandes cidades conseguiram manter-se cosmopolitas, com muçulmanos, cristãos e judeus a conviver em Bagdad, Damasco ou Cairo. O êxodo judaico seguiu-se à criação de Israel em 1948, a fuga dos cristãos, católicos e não só, mais tarde, quando o jihadismo alastrou.

Houve um tempo em que o mundo sabia de cor nomes como Hanan Ashrawi, a diplomata palestiniana, Boutros-Ghali, o egípcio secretário-geral da ONU, ou Tareq Aziz, ministro dos Negócios Estrangeiros iraquiano. Hoje os cristãos árabes são numerosos no Egito e no Líbano, mas no resto do Médio Oriente correm mesmo o risco de desaparecer. Francisco não quis adiar esta viagem, por tanto estar em causa. Tem a seu favor, quando o avião aterrar em Bagdad, a memória de João Paulo II, Papa que em 2003 se opôs a uma guerra que derrubou o ditador mas iniciou um ciclo de violência (do jihadismo ao choque sunitas-xiitas) que fez dos cristãos uma espécie de dano colateral.

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