Uma tragicomédia de hora em hora

O leitor português já se cansou de ouvir falar das grosserias do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de como, num dia normal de 24 horas, ele viola duas ou três vezes a Constituição, estupra as instituições, acusa inimigos sem provas, joga o povo contra o Congresso, apoia fechar o Supremo Tribunal Federal, compromete as Forças Armadas, bota os órgãos do Estado ao serviço de seus interesses, encobre as sujeiras dos filhos, mente compulsivamente e, como se não houvesse uma pandemia, circula pelo país sem máscara, cavoucando o nariz e trocando perdigotos com as pessoas que abraça.

Seu histórico de ofensas e agressões, todas registadas em vídeo e áudio, atinge um vasto grupo de inimigos, genericamente tachados de comunistas. São os intelectuais, artistas, professores, estudantes, globalistas, evolucionistas, ambientalistas, desarmamentistas, LGBTistas, indígenas, negros, mulheres, a Folha de S. Paulo, a TV Globo, a ONU, a OMS, a China, os médicos, os enfermeiros, os coveiros, os infetados pela covid-19 e a própria covid-19 - que ele já classificou de "gripezinha", inócua para ele, ex-militar com "histórico de atleta", embora o único desporto que praticou no Exército tenha sido tiro ao alvo.

Para que não se diga que o Brasil assiste passivamente ao espetáculo da sua própria destruição, diga-se que, com frequência, há panelaços - uma cacofonia de panelas nas janelas do país - e manifestações populares contra Bolsonaro. Há também quase trinta pedidos de impeachment, lavrados por todo tipo de instituições, e que ainda não prosperaram porque a autoridade encarregada de lhes dar sequência, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, sentou-se sobre eles, à espera de que choquem um ovo sob seu considerável traseiro. Mas tem-se como certo que será impossível para Maia segurar esses pedidos por muito tempo e, mesmo que o faça, há outros processos correndo, em várias instâncias da Justiça, até mais letais para Bolsonaro.

Tudo isso dito, pode-se pensar que o Brasil sob Bolsonaro tornou-se um país lúgubre e deprimido - e, se fosse, ninguém poderia censurá-lo. Mas o próprio Bolsonaro se encarrega de fazer do Brasil uma comédia, estrelada pelos inacreditáveis homens e mulheres que tem como ministros. Se não o soubéssemos totalmente incapaz de administrar - nunca na vida geriu nem uma reles quitanda -, poder-se-ia pensar que Bolsonaro sabe o que faz. Mas, não. Ao nomear os ministros mais absurdos, ele está certo de que são os nomes indicados para cada cargo. E, com isso, temos situações como estas.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ficou famosa logo que assumiu ao confessar que, em jovem, pensara em se matar, mas, ao trepar numa goiabeira, encontrara, empoleirado num galho, ninguém menos que Jesus Cristo, que a convenceu a continuar viva.

Marcos Pontes, ministro da Ciência e da Tecnologia, é astronauta e participou de uma operação da NASA. Donde deve conhecer o espaço, nem que seja por fotografia. Isso não o impede de conviver amenamente com membros do Governo para quem a Terra não é redonda.

Marcelo Álvaro Antonio, ministro do Turismo, é quem comanda também a Cultura, rebaixada por Bolsonaro ao status de secretaria. A qual já foi ocupada por um titular, Roberto Alvim, autor de um vídeo em que posava de Joseph Goebbels, ideólogo nazista, com fundo musical de Wagner. A esta secretaria estão subordinados o departamento do Património Histórico, comandado por uma guia de turismo, e o de Proteção da Cultura Negra, dirigido por - juro - um homem negro para quem a escravidão foi uma coisa boa para os negros brasileiros. O próprio ministro é investigado por práticas eleitorais heterodoxas.

Ernesto Araújo, ministro dos Negócios Estrangeiros, em vez de exercer a boa diplomacia, exerce a ofensa - já ofendeu o Mercosul, a União Europeia, os chineses, os árabes e os venezuelanos, criando enormes problemas para a economia do país, o que gerou penosas trocas de cartas para a - no passado - austera chancelaria brasileira.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, é violentamente contra o meio ambiente. Com grande competência, dedica-se a apoiar os incêndios, os desmatamentos e os garimpos ilegais na Amazónia, e não sossegará enquanto não exterminar o que resta de indígenas. Em recente reunião ministerial gravada, propôs aproveitar que a imprensa "só fala na covid" para revogar as medidas de proteção ainda vigentes, a fim de completar a devastação da floresta.

Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde, não é médico. É general do Exército, mais afeito a cuidar do almoxarifado da caserna do que a aplicar injeção. Foi escolhido para a função por se sujeitar a desprezar as recomendações científicas e executar as instruções do Dr. Bolsonaro para o combate da pandemia no Brasil - o que explica que somos hoje o segundo país com mais mortes e contaminações no mundo. Como ele próprio circula por toda parte sem máscara e apertando mãos, é fácil entender porquê.

Mas nada supera a saga do Ministério da Educação, já ocupado em um ano e meio de Governo Bolsonaro por três ministros. O primeiro, Ricardo Vélez, era de nacionalidade uruguaia. Talvez para compensar, propôs obrigar os professores a filmar seus alunos cantando diariamente o hino nacional. Mas, pouco depois, Vélez traiu-se ao classificar os brasileiros no exterior como "canibais". Antes de ser devorado com batatas, foi afastado e substituído pelo fabuloso Abraham Weintraub.

Este, entre muitas proezas equivalentes, notabilizou-se por classificar os livros didáticos como "um lixo, um amontoado de muita coisa escrita", atacar repetidamente a China (maior parceira comercial do Brasil) e não saber português - escreveu coisas como "antessessores", "paralização" e "imprecionante". Mas sua principal façanha foi a de, na mesma reunião ministerial, pedir a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal, a quem chamou de "vagabundos". Isso provocou a sua queda e substituição por um certo Carlos Alberto Dacotelli, o qual não chegou nem a tomar posse - descobriu-se que os títulos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, apregoados em seu currículo, eram um festival de plágios, mentiras e falsificações, o que o obrigou a "demitir-se".

O festival de gaiatices do Governo Bolsonaro não é diário. É horário. Bem fez Gustavo Bebianno, amigo íntimo de Bolsonaro durante a campanha eleitoral e escolhido para o alto cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Logo no começo do governo, ao ver tardiamente onde se metera, Bebiano tomou uma medida drástica. Preferiu demitir-se, ter um enfarte e morrer.

Jornalista e escritor brasileiro

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