Marchar para a estupidez

Antes de mais, bom ano. E, por falar disso, vale a pena contar uma história. Decerto já terão ouvido ou ouvido falar do Danúbio Azul, a famosa valsa do compositor austríaco Johann Strauss que meio mundo trauteia de ouvido e os mais velhos terão dançado em inocentes bailes de juventude. Não tão popular, mas talvez mais impressiva, é, do mesmíssimo compositor, a Marcha Radetzky, peça que costuma constituir outro dos encores obrigatórios do Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena - transmitido por televisão para todo o mundo no dia 1 de Janeiro - e arrancar aplausos verdadeiramente ruidosos no final.

Ora, essa marcha - escrita em 1848 em homenagem a um militar do exército austro-húngaro que chefiou numerosas campanhas - foi tocada pela Filarmónica de Viena pela primeira vez em 1928 a partir de uma partitura publicada na Alemanha com arranjos de Leopold Weninger; a partitura foi então guardada nos arquivos da orquestra e utilizada de novo quando a peça integrou o Concerto de Ano Novo de 1946, precedendo o Danúbio Azul com um êxito retumbante. Desde então, apesar de dirigida quase todos os anos por maestros diferentes, segundo o jornalista Andrea Cionci, nenhum lhe alterou o ritmo "baldanzoso" que Weninger lhe imprimiu, até porque se verificou ser o ideal para conseguir do público vienense as tais estrepitosas palmas.

E, no entanto, como já aconteceu noutras artes, eis que chega à Filarmónica de Viena um director que se recusa a utilizar a partitura que ali têm arquivada há décadas; não por entender que há outra melhor, mas porque o senhor Weninger, a dada altura da sua vida (já agora, bastante depois da publicação da partitura, que é de 1914), se inscreveu no Partido Nacional-Socialista alemão, ou seja, é um simpatizante do nazismo (o que faz dele instantaneamente um orquestrador defeituoso, presumo). A crítica insurgiu-se, e o site da Filarmónica de Viena veio então explicar que a partitura sofrera adaptações e acrescentos à mão ao longo dos anos, pelo que já não era bem a versão de Leopold Weninger a que era tocada no primeiro dia de cada ano pela Filarmónica de Viena.

Porém, não nos iludamos: é o politicamente correcto a chegar à música clássica, e aposto que ainda vamos ver outros compositores banidos por razões políticas, óperas metidas na gaveta por alguém as considerar sexistas e até, sei lá, Rossini posto de lado por ser obeso e gostar de carne de vaca. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG